domingo, 26 de fevereiro de 2012

A visita do grande mestre

Com o meu fratello Pino Cimò, na minha sala: velhas histórias e aventuras de dois repórteres 






Pino Cimò é hoje um respeitável proprietário de 30 hectares de terras em Agriggento, uma localidade próxima a Palermo, na Sicilia. Vive lá, entre olivais, vinhedos, frutas e verduras. De tempos em tempos, decide percorrer o mundo, como fez por toda a sua vida, na esperança de rever cenários do passado e encontrar seus discípulos, que espalhou por todo o planeta.

Pino Cimò é um dos mais importantes jornalistas italianos do século XX. Um dos mais corajosos e mais arrojados. Eu me orgulho muito de ser seu pupilo e de ter recebido sua breve visita na semana que antecedeu o carnaval.

Pino é personagem de uma das mais arriscadas operações jornalísticas que eu conheço. Editor e repórter da revista Frigidaire ( que como o título sugere publicava apenas matérias frias), forjou uma edição do jornal Estrela Vermelha, porta-voz oficial das Forças Armadas Soviéticas, e desembarcou no Afeganistão no meio da ocupação militar e do confronto guerrilheiro.

O jornal estampava em russo a manchete “Soviéticos voltem para Casa” e historiava a ocupação. A missão de Pino era panfletar e afixar o jornal em diversos pontos de leitura obrigatória e registrar a reação dos afegãos e dos soviéticos.

Claro. Pino foi preso, solto, preso outra vez, até que foi expulso. Os soviéticos tomaram todos os seus pertences, só não encontraram os filmes fotográficos feitos por um repórter local, que estavam escondidos sob o boné do repórter italiano.

A Frigidaire não existe mais. Nem a sua complementação, a revista Freezer (matérias mais frias ainda). Fecharam com uma venda em banca superior a 300 mil exemplares semanais e 500 mil mensais respectivamente. A reportagem de Pino fez um sucesso tremendo.

Encontrar o Pino em momentos marcantes das tragédias do planeta era comum, sempre com um sorriso, a pena afiada e a visão otimista de que o mundo iria mudar. Assim, ele esteve em El Salvador, na Nicarágua, no Peru, no Paraguai (onde descobriu o esconderijo dos autores do célebre atentado a estação de Bolonha) e em praticamente toda a América Latina.

Partilhei com Pino a primeira grande entrevista do então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio da Silva, o Lula, para o jornal italiano Mondo Operaio, ligado a poderosíssima CGIL (Confederazione Generale Italiana degli Lavoratori). Estivemos juntos em vários episódios e foi pela mão do Pino que meus textos começaram a ser publicados na Itália.

Desgraçadamente passamos apenas algumas horas juntos nesta nova passagem do Pino pelo Brasil. Ele me presenteou orgulhoso com uma edição do seu livro “Con Jorge Luis Borges per le strade di Buenos Aires”, editado pela Ilapalma. Rememoração de seus colóquios com o grande mestre argentino durante os tempos em que foi correspondente em Buenos Aires. Reproduzo aqui a sua dedicatória que me enche de orgulho:

“A Nunzio, amico de uma vita, in questo enésimo incuentro nel Brasile di Lula, che é um poco il “nostro” Brasile finalmente e definitivamente democrático”.

Ritorna presto Pino.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Você não quer que eu volte!

Rodovia da Baixada no Carnaval: sem nenhum ponto de morosidade (!)






Minha filha Bianca, a mais proverbial e crítica dos Briguglios, costuma dizer que eu sou um romântico tardio, como um daqueles poemas sinfônicos espetaculares de Richard Strauss. Ela tem um pouco de razão. Afinal eu acredito em coisas aparentemente absurdas. Por exemplo, que as informações sobre o movimento do trânsito nas estradas paulistas durante o Carnaval estão corretamente publicadas no portal UOL. Ou que as pessoas acordam de manhã motivadas pelo trabalho de reformular a sociedade e não apenas para justificar o contra-cheque no final do mês. Romântico ou tolo, sei lá.

Pouco antes de iniciar a trágica operação Market Garden em 1944, que incluía a invasão da Holanda por milhares de paraquedistas e a possibilidade do final da II Grande Guerra antes do Natal daquele ano, o general Browning, chefe do Estado Maior do marechal Montgomery, teve um embate duro com o general polonês Sosabowski, então comandante de uma brigada polonesa sediada na Inglaterra.

- General Browning eu sou polonês e considerado esperto por alguns. Isso me coloca na posição de minoria. Nesta condição prefiro ficar em silêncio e aguardar o desenrolar dos fatos. Se tudo der certo, terei o maior prazer em celebrar o sucesso desta operação militar.

Os britânicos saltaram em cima de um grupamento de panzers alemães e enfrentaram uma resistência terrível liderada pelo marechal Von Rundestad. Jamais cruzaram a ponte sobre o rio Reno. Foi um tremendo massacre.

Sosabowski (de boina) e Browning: minoria silenciosa 

Sosabowski antes de embarcar para o salto na Holanda chegou a pensar em pedir uma declaração do próprio marechal Montgomery dizendo que agia sob o comando e sob a responsabilidade dele. Mas, recuou.

- Se houver mesmo um massacre, que diferença isso vai fazer – justificou.

Bianca, minha filha, o noticiário deste pós Carnaval é para coração romântico nenhum dar conta. E não se trata de enfrentar quatro horas de viagem em uma estrada “sem pontos de morosidade” de 150 quilômetros. Pois vejamos:

1.   Militares aposentados protestam contra as ministras Maria do Rosário e Eleonora Menecucci e imaginam colocar a presidente Dilma contra a parede, por conta da Comissão da Verdade. A presidente bota ordem na casa e os milicos batem em retirada. Em um regime civil e democrático, milico tem mesmo é que bater continência, aqueles retirados devem ficar vendo as ondas de Copacabana.
2.   Um menino de 13 anos aciona um jet sky em Bertioga e provoca a morte de uma menina de três anos. Cadê o pai deste pentelho?
3.   Uma campanha publicitária mobiliza a população masculina a não urinar nas ruas do Rio de Janeiro.
4.   Uma garota japonesa de 14 anos, que passava férias com os tios no Brasil, morre vítima de um acidente no Hopi Hari, em Campinas. O fecho do brinquedo se abriu e ela caiu de uma altura de 25 metros. Quantos estão presos? O parque está fechado?
5.   Uma garçonete de 25 anos, em serviço num transatlântico, morre em um hospital de Santos. Ninguém sabe por que?  Sabe-se apenas que a causa mortis foi insuficiência respiratória provocada pelo vírus Influenza B, ou seja gripe comum. Ainda assim o navio é liberado para um cruzeiro a Buenos Aires, com mais de 1.500 passageiros. Na capital portenha, outros 70 passageiros passam mal e ninguém sabe dizer o que está acontecendo.
6.   Um acidente ferroviário na Estação Once, em Buenos Aires, rende 50 mortos e mais de 750 feridos. Até agora ninguém explicou o que ocorreu. Ninguém foi preso. A população se rebelou.
7.   O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) que eu julgava um homem de bem, no afã de defender o governo de seu correligionário Geraldo Alckmin, justifica que o massacre do Pinheirinho, em São José dos Campos, foi forçado por uma decisão judicial de reintegração de posse. Ora, onde está escrito que para cumprir uma decisão judicial é preciso usar de força militar.
8.   José Serra anuncia que quer disputar a Prefeitura de São Paulo. De preferência, sem eleição. Assim ele não vai precisar explicar:
8.1.     Porque abandonou a Prefeitura nas mãos de Kassab, mesmo depois de ter jurado que não faria isso.
8.2.     A privataria tucana.
8.3.     O buracão do Metro na Lapa.
8.4.     A omissão do seu governo nas enchentes do ano passado, que provocaram mortes evitáveis, cuja responsabilidade está claro, foi do Palácio dos Bandeirantes.
9.   O Palácio Piratini, em Porto Alegre, anuncia que piso do magistério será de R$ 1.260, em 2014. A Constituição obriga algo como R$ 1.450 em 2012. Mas, como se sabe o Rio Grande do Sul é um estado pobre, que não pode pagar nem mesmo um salário mínimo decente aos professores. E ainda deitam falação que querem uma educação de qualidade.
10.                O Carnaval de São Paulo ( se é que isso existe) foi um show de selvageria e de barbárie. Rasgaram as notas e depredaram o sambódromo. Depois de premiar, no ano passado, um enredo sobre o pianista João Carlos Martins, este ano decidiram melar tudo.

Segunda-feira 2012 começa para valer. Todos de volta ao trabalho. O ano promete. Pelos estertores do verão dá para imaginar o que vem por ai no inverno. Como dizia aquele personagem do Jô Soares, Sebá, o último exilado: “Madalena, você não quer que eu volte!”  

Acidente ferroviário em Buenos Aires: 50 mortos e mais de 750 feridos

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um engodo punk? Ou a genialidade de uma escritora marginal


J T Leroy (Savannah) e Laura Albert: os personagens verdadeiros do engodo

 Débora Duboc, Natália Lage, Nina Morena, Hossen Minussi e Roberto Souza,








Nunca tinha ouvido falar em J T Leroy. Nem em Laura Albert, nem mesmo em Ásia Argento. Por isso mesmo, a peça de Luciana Pessanha, que estreou esta semana no CCBB, em Brasília, tinha uma característica de novidade, misto de ficção e realidade, capaz de confrontar o cinismo do jet set internacional, os tais olimpianos de 15 minutos de fama, coma perplexidade dos semi-famosos.

A história real --- Laura Albert, no ano 2.000, na época com 40 anos, era uma entre tantas criaturas que se encontrava em um dos desvios da vida. Uma cantora de banda punk da marginália de Nova York, que vivia com um vendedor de filtros de água, guitarrista frustrado, e ganhava a vida com uns trocados interpretando personagens fantasiosos em um serviço de sex-phone. Um belo dia teve a idéia de escrever uma falsa biografia, inventando uma história como se fosse a sua própria, mas assinando com o nome de J T Leroy. l

A história ficcional -- Um destes personagens da vida underground, era um garoto abandonado ao nascer pela mãe, depois afastado dos pais adotivos pela própria genitora. Abusado aos cinco anos pelo namorado da mãe, ele passou a viver na promiscuidade com motoristas de caminhão. Prostitui-se e prostituiu a própria alma. Desceu ao mundo das drogas e, em bom português, foi até a mais funda sarjeta. 

Para ganhar mais veracidade e digamos tornar a história mais palatável ao voyeurismo do mundo midiático, Laura convenceu sua cunhada, uma costureira chamada Savannah, a assumir a personalidade e os trejeitos do garoto-escritor-gênio precoce J T Leroy, de 20 anos. Ela lançou dois livros, o romance "Sarah" (nome da mãe de J T), cujos direitos direitos autorais foram vendidos por parcos US$ 120 mil e um conjunto de contos, "Maldito Coração", que virou filme nas mãos da modelo-atriz italiana Asia Argento. 

Os livros fazem um sucesso tremendo, foram traduzidos em 34 línguas e atraíram a atenção do mundo midiático, de escritores conhecidos como Dennis Cooper e artistas como Andy Warhol, Gus Vans Sant e Madonna. Até na festa literária de Paraty J T Leroy foi aclamado em 2005. 

J T Leroy foi um destes sucessos de mídia flamante, veloz, como rastilho de pólvora. Virou cinema com Ásia Argento (nunca ouvi falar neste filme). Mas, a farsa foi descoberta por um jornalista do New York Times e tudo correu esgoto abaixo. Laura foi processada por falsidade ideológica, entre outras coisas, e todo mundo voltou para a garagem suja da banda funk.

A peça --- Luciana Pessanha é jornalista. E como tal quase levou Paulo José, o diretor, à loucura, tal o volume de informações que apresentou. As três atrizes, Débora Duboc (Laura), Nathalia Lage (JT e Savannah) e Nina Morena (a mãe, Ásia e o juiz) dão um show e conseguem fazer com que uma história linear de um embuste punk leve a audiência à reflexão. Afinal, qual foi o crime de Laura? Ter dado vida a um personagem fictício? Que vantagens ela levou? Quem ela enganou?

Débora Duboc é uma atriz pirandelliana. Tem a capacidade notável de falar com a alma e uma presença de palco impressionante. Quem a viu em Pirandello, Dario Fo, ou no cinema em Cabra Cega ou Estamos Juntos, dirigida pelo maridão Toni Venturi, sabe que se trata de uma atriz que mergulha de maneira impressionante no personagem que interpreta. Tem a marca das grandes atrizes brasileiras. 

Mesmo sem conhecer Laura Albert, tenho certeza que a personagem ficcional de Débora é muito melhor que a verdadeira criadora de J T Leroy. Nathalia faz um J T no tamanho exato da criação do personagem; confuso, inseguro e andrógino. E Nina mostra uma extraordinária versatilidade compondo com perfeição o trio.

É uma grande peça? Não. É uma montagem imperdível? Também não. Mas, vale a pena pela direção de cena, pelo esforço dramático das três atrizes e por uma inquietante conclusão: o mundo do show business, dos famosos e dos semi-famosos é muito mais cínico e não gosta de se ver no espelho, principalmente quando uma atriz de sex-phone transforma uma costureira de um subúrbio de São Francisco em um ícone da geração pós punk do começo do século.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um candidato que pensa

Íntegra da entrevista que o professor Fernando Haddad concedeu ao reporter Fernando Gallo, publicada na edição de hoje, dia 12 de fevereiro, em O Estado de S.Paulo.

Fernando Haddad, ex-ministro da Educação: crítica a esquerda autoritária



"O tempo livre, a alma e, quem diria, uma prótese de primeira natureza, tudo é insumo precioso na busca do lucro. Sob o pretexto de satisfazer as necessidades humanas, a parafernália capitalista não faz mais do que zelar pela sua perpetuação, rebaixando os homens a meios de sua própria conservação". Talvez pudesse ser Marx, mas é um autêntico Fernando Haddad, atirando contra o sistema.
Era 1998, último ano do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando o ex-ministro lançava pela editora Vozes um pequeno livro intitulado "Em defesa do socialismo - Por ocasião dos 150 anos do Manifesto", referência à obra comunista de Marx e Engels. É a obra mais política da bibliografia de Haddad, que ainda conta outros quatro títulos : "Sindicatos, cooperativas e socialismo" (2003), "Trabalho e linguagem - Para a renovação do socialismo" (2004), "O sistema soviético" (1992) e "Desorganizando o consenso - Nove entrevistas com intelectuais à esquerda" (1998).
Nas obras, Haddad critica "o mau infinito da acumulação capitalista", defende a socialização da propriedade privada - "mantendo-se o mercado" - e dos meios de comunicação. Vê um mundo em que a cooperação entre cooperativas seria a superação da ordem capitalista.
O petista censura o modelo da União Soviética, autoritário e de economia centralmente planificada - "deveria ser chamado pelo nome próprio de despotismo" - e diz que ele "ruiu em boa hora, tirando dos ombros socialistas um fardo político descomunal".
Em 2001, em um debate após uma exposição sua que originou o livro sobre cooperativas, argumentou: "O PT deveria empunhar com mais brio a bandeira do socialismo". Hoje diz: "podemos nos valer dessa bandeira com tranquilidade".
O ex-ministro recebeu o Estado na sede do PT Nacional em São Paulo, onde despachava provisoriamente até sexta-feira, para falar sobre os livros e temas contemporâneos que dialogam com sua obra. Sustentou que algumas "ideias-força" das obras permanecessem atuais e lembrou: "Quando escrevi esses textos, não estava pensando em me candidatar a nada, mas em fazer o debate aflorar".

O que quer dizer ser socialista no século XXI?
Em primeiro lugar, afastar toda a tradição autoritária que permeou a ação política, sobretudo do stalinismo e variantes, sem abdicar de dois valores importantes: o combate às desigualdades socioeconômicas e uma celebração da diferença, da diversidade, da tolerância. Essa é uma plataforma que dialoga com o pensamento socialista moderno.
Aquilo que o sr. escreveu em 1998 continua valendo?
Meus livros ficaram sempre na primeira edição, nunca me vi obrigado a fazer uma revisão. Não saberia te dizer se publicaria tal qual foi lançado. Mas algumas ideias-força permanecem atuais. Minha tese de mestrado foi sobre o colapso do sistema soviético e a interpretação daquele fenômeno, de 1917 a 1989. Aproveitei para promover um acerto de contas com a esquerda autoritária, particularmente o stalinismo e o trotskismo, que viam naquela experiência soviética, nos dois países mais importantes, Rússia e China, perspectivas emancipatórias. Eu recusei desde sempre essa interpretação. Via naquelas experiências um modo sui generis de transição de velhas sociedades asiáticas, em geral organizadas sob o manto do despotismo, na longa transição para o modo capitalista de produção. Enquanto as pessoas pensavam que pudesse desembocar numa sociedade sem classes, eu via o contrário.
Crítica igual ou semelhante pode ser estendida a Cuba?
A qualquer modelo autoritário e de economia centralmente planejada.
O sr. não acha que a presidente Dilma deveria condenar a situação dos presos políticos em Cuba?
O que a presidenta disse é que todos têm o dever de casa a fazer quando se trata de direitos humanos. A questão dos direitos humanos não pode se restringir a direitos civis e políticos. A humanidade estendeu esse conceito e trabalha também com direitos sociais. Os países têm que ser analisados à luz desse conjunto de direitos historicamente consagrados. Os direitos civis e políticos, que são essenciais pra vida democrática, mas não diminuir a importância do atendimento a direitos sociais. Tudo isso somado, todos os países têm um direito de casa a fazer.
Mas há uma questão histórica da esquerda com Cuba. O sr. não acha que a esquerda deveria condenar mais fortemente os problemas da ilha?
O excepcional trabalho que Cuba faz em relação aos direitos sociais, sobretudo no que diz respeito a saúde e educação, não pode servir de pretexto para diminuir a agenda dos direitos civis e políticos. Você tem uma agenda complexa, e mesmo se valendo da explicação clássica das consequências do embargo econômico que os Estados Unidos impõem sobre a ilha, ainda assim essa questão deveria ser endereçada, porque ela é parte da problemática da expansão da liberdade e da igualdade entre os indivíduos.
A influência de Marx em sua obra é muito evidente. O sr. o chega a chamá-lo de “teórico genial”. Marx continua atual?
Do ponto de vista do pensamento brasileiro, havia uma tradição que dialogava muito com a perspectiva marxista, que tem o Caio Prado, Fernando Novaes, Fernando Henrique Cardoso. Depois pensadores que não eram marxistas, mas que dialogavam com a tradição da esquerda radical, como por exemplo Antonio Cândido, Luis Felipe de Alencastro, Chico de Oliveira, Paulo Arantes.
O sr. se encaixa onde?
Estou falando de pessoas que influenciaram a minha formação. Todos esses, marxistas ou não, esquerdistas radicais, por assim dizer, moldaram a minha formação. Não escreveria essa interpretação do que foi o modelo soviético sem a inspiração desses autores. Evidente que o Marx é a inspiração longínqua, mais moderna. E não é mais possível falar em marxismo, são marxismos. Eu me filio à tradição de Frankfurt, que tem no Adorno e no Marcuse as expressões mais vistosas.
O economista Nouriel Roubini disse no ano passado que Marx estava certo quando previu o fim do capitalismo. O sr. concorda com essa tese?
O Marx nunca negou o que o capitalismo produziria de riqueza material. Aliás, foi quem descreveu a dinâmica de produção de riqueza e de mercadoria, e do domínio da natureza pelo homem. Se nós retomarmos as obras de juventude do Marx, ele tinha muita consciência do potencial do capitalismo em termos de produção de riqueza e de ciência e tecnologia. Talvez antes do que qualquer outro economista liberal. Isso é um paradoxo. O maior crítico do capitalismo foi aquele que antecipou seu potencial de desenvolvimento. Mas ele dizia que isso seria feito às custas de uma desigualdade cada vez maior, de injustiças sociais cada vez maiores, de um fosso social que dividiria a sociedade em classes, com perspectivas muito distintas umas das outras. Esse diagnóstico permanece. Não podemos negar a evolução material que essa sociedade teve, mas esse desenvolvimento material não se desdobrou em melhoria da qualidade de vida para todo mundo, em mais igualdade. E, de certa maneira, do ponto de vista espiritual não houve um enriquecimento do ponto de vista de solidariedade, do humanismo, do pacifismo, do respeito aos direitos humanos. Pelo menos não se deu na mesma proporção. Há muito que ser reformado e explorado. Tem uma agenda econômica inexplorada que diz respeito a formas alternativas de organização da propriedade.
Aliás, o sr. dedicou se dedicou, em um de seus trabalhos, a refletir sobre sindicatos e cooperativas. O sr. ainda avalia o modelo de "cooperação entre cooperativas" como a superação do capitalismo? Acredita que isso seja desejável?
Ali eu estava dizendo como o Marx entendia a superação do capitalismo. É um texto de exegese. As pessoas entendem que o Marx opunha planejamento e mercado. O Marx nunca trabalhou nessas categorias. As categorias que ele trabalhava eram da esfera da política. Ele entendia o capitalismo como sendo regido por uma dupla determinação: despotismo dentro da fábrica e anarquia fora dela. É assim que ele via a dinâmica da economia capitalista. E ele dizia que o despotismo dentro da fábrica pode ser superado por formas alternativas de organização da propriedade. E apontava a cooperativa como forma de superação do despotismo manufatureiro. Mas ele via um problema de difícil solução da anarquia, porque as cooperativas podem se organizar e competir entre si mantendo de certa maneira a lógica do capital sem patrão. E ele dizia que a superação da anarquia se daria pela cooperação entre as cooperativas.
O sr. argumenta também que, para subverter a lógica do capital, seria preciso democratizar a política tributária, e que, para isso, seria necessário criar um "imposto sobre a superfluidade dos bens". Por que isso é necessário e como isso se daria?
Outra medida de se fazer essa discussão é quando você discute a taxação das grandes fortunas. Ou quando você aumenta impostos sobre bens supérfluos, como bebida e cigarro. A ideia é que você deve usar o sistema tributário para orientar a produção. O sistema tributário pode ser usado para emitir sinais do que a sociedade democrática deseja que seja produzido. Quando você isenta bens de primeira necessidade, desonera de impostos a cesta básica ou o material de construção pra edificar moradias populares, você está pensando a partir dessa lógica.
O sr. citou a bebida e o cigarro...
Te dou um exemplo de uma das coisas mais regressivas do ponto de vista tributário. Você tem 7 milhões de veículos em São Paulo que pagam IPVA, e você tem iates, jatos executivos e helicópteros, uma das maiores frotas do mundo, que não paga imposto sobre propriedade de veículos automotores.
O sr. acha que helicópteros tinham que pagar IPVA?
A Constituição autoriza a cobrança de imposto de todos os veículos automotores. Se você tem um carro popular, 4% sobre o patrimônio de quem tem um carro popular, não vejo nennhuma razão pra não cobrar os mesmos 4% de quem circula pela cidade de helicóptero.
O sr. vai comprar uma briga com os donos de helicóptero. São Paulo tem uma das maiores frotas do mundo. 
Daí compra um carro popular! (risos)

Mais à frente, o sr. diz que esse imposto tenderia a ter efeitos muito limitados e que, para haver uma melhor distribuição da renda, seria necessária a “socialização da propriedade privada”, mas “mantendo-se o mercado”. O sr. pode explicar melhor?
Veja que hoje até o BNDES financia a organização de cooperativas no país. Essa vertente da economia solidária pode ser explorada de maneira muito profunda. A ideia de que trabalhadores possam assumir a gestão de empresas que estejam em estado falimentar tem sido recorrente a toda a literatura que pensa o assunto.
Mas isso é um objetivo a ser alcançado?
É uma possibilidade a ser explorada. Uma das coisas erradas da esquerda é transformar o livre pensar em dogmas. Quando escrevi esses textos, não estava pensando em me candidatar a nada. Estava pensando em fazer o debate aflorar. Há aquilo em que há plausibilidade, que é fruto de um desejo de um sonhador, um intelectual que estava disposto a permanecer no campo da imaginação e não abdicar disso que vários intelectuais abdicaram. Me compadeço de ver pessoas que eram adeptas de uma visão autoritária da esquerda, stalisnistas ou trotskistas, defendendo o extremo oposto daquelas ideias, migrando do Estado absoluto sem prestar contas dessa mudança de posição. Me sinto à vontade pra falar do tema porque desde a minha militância estudantil eu sempre guardei distanciamento desse pensamento.
Na avaliação do sr., a transição de um capitalismo de empresas para um capitalismo de cooperativas exigiria, além de um imposto progressivo sobre a propriedade, a "centralização progressiva nas mãos do Estado democrático do processo de intermediação financeira", de modo a garantir recursos para "a cooperativização dos não-proprietários". Como se daria essa centralização?
O que já estava aparecendo no horizonte, é que o sistema financeiro, da forma como ele foi desregulamentado, ele ia produzir uma crise de proporções gigantescas, como produziu. Já nos anos 90, todos os economistas progressistas diziam o seguinte: a desregulamentação do sistema financeiro como vem sendo feita vai gerar um caos financeiro no mundo, que é o que se verificou pouco tempo depois. O que eu dizia naquela época era que eu não via como as políticas keynesianas tradicionais serviriam de guia para a superação da crise que se avizinha. Essa é uma crise de proporções grandes e as políticas keynesianas clássicas, monetária e fiscal, não vão dar conta. O Estado vai ter que participar cada vez mais do sistema de crédito. Que, aliás, é o que está acontecendo na Europa nesse momento de um jeito, e nos Estados Unidos de outro.  Mas mesmo nos Estados Unidos, onde não há perspectiva de estatização de bancos, como na Europa. Hoje o Estado americano tem muito mais atuação no sistema financeiro do que tinha em 2008.
O sr. sugere no livro que "a socialização dos meios de comunicação, a partir da criação de cooperativas de jornalistas e artistas" seria uma forma de alterar um quadro em que, segundo o sr., "a lógica privada define a pauta política em discussão numa esfera pública". Como se daria essa socialização?
Não é polêmico. Até os liberais reconhecem. Escrevi em uma época em que o mundo virtual estava iniciando. De certa forma o mundo virtual realizou uma parte dessa utopia. Quando você tem uma lógica estritamente privada não há como negar que a visão de mundo do proprietário incida sobre a maneira pela qual o sistema de promoção das pessoas vai ocorrer. Quando se fala em socialização da propriedade privada, as pessoas imediatamente associam com privatização. Esse foi um dos grandes equívocos que a esquerda cometeu no passado. Evidentemente que alguns serviços essenciais têm que ser tratados pelo Estado. Em todo o mundo se observa isso, a começar pela educação pública. Mas quando você democratiza acesso ao conhecimento, ao crédito, à terra, a renda, quando você organiza cooperativas, e há várias maneiras de organizar cooperativas... em geral pensamos em cooperativas com aquela visão romântica do começo do século XIX. Mas o que é o Linux, se não uma produção cooperativa de um sistema operacional? O que é a Wikipedia, se não a produção cooperativa de uma enciclopédia eletrônica?
O Estado deve fomentar esse tipo de organização?
Cuidando muito pra que isso não implique o erro correlato. Se a propriedade impõe um viés ou outro, não pode o Estado impor um viés. A ideia é tornar as pessoas mais livres. O ideal de um socialista é tornar as pessoas mais livres. E sempre que você puder fomentar formas alternativas de organização da produção material e cultural, sem que esse fomento signifique se imiscuir num assunto próprio dessa esfera, ele é bem vindo. Sempre que o Estado pode fomentar a cultura sem incidir sobre a orientação dessa produção, por meio do sistema de crédito, por exemplo, ou do sistema tributário de incentivos, permitir que as pessoas se organizem de formas alternativas, seja na produção material, seja na espiritual, de informação, de cultura, penso que vai na direção de ampliar a esfera de autonomia e liberdade do individuo.  Como isso pra mim é um pressuposto de toda ação, a esfera da liberdade, porque acredito que só vamos produzir uma sociedade mais justa ampliando a liberdade dos indivíduos e isso significa muitas vezes acesso a crédito, a propriedade intelectual, a bens materiais, você promove uma sociedade mais livre.
O sr. é contrário à regulamentação da mídia?
No que diz respeito a conteúdo, sim.
E no que diz respeito à forma?
No que diz respeito a propriedade cruzada, a impedir monopólio, como nos Estados Unidos, por exemplo, eu penso que é agenda até liberal. A questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação já foi discutida e solucionada há muito tempo no mundo desenvolvido. Impedir a oligopolização pra que haja mais pluralidade de opiniões, isso não é atividade que incide sobre a reprodução simbólica, mas tem boas repercussões sobre a reprodução simbólica em proveito do pluralismo.
O que deveria ser feito? Uma lei de meios, como na Argentina?
Quando você fala em lei de meios aqui, as pessoas, com razão, até pelo nosso passado autoritário, pensam imediatamente numa lei que vai inibir a circulação de opiniões. O que uma lei de meios poderia fazer era fomentar a circulação de opiniões, impedindo a oligopolização do setor. Quanto mais plural for a sociedade, quanto mais arejados forem os canais de comunicação, quanto mais as pessoas puderem tomar conhecimento do que pensam as outras, e formar livremente seu juízo sobre os temas de interesse público, mais democrática será a sociedade.
O sr., então, é contrário a que uma empresa tenha uma televisão com penetração em 100% do território nacional, um jornal,  uma cadeia de radio...
Nos termos da sociedade liberal, penso que deve haver limites pra propriedade cruzada. Mas nos termos de uma sociedade liberal. A lei americana é um bom termômetro.
Mas isso deveria ser feito no Brasil e de que forma?
Aí é papel do Congresso discutir os modelos. Mas eu entendo que qualquer lei que vise democratizar o acesso à informação ela tem que ser pensada sobre a ótica econômica, e não sobre a ótica da reprodução simbólica. A reprodução simbólica tem que ser cada vez mais livre. E pra que ela seja cada vez mais livre você tem que oferecer condições pra que o pluralismo viceje no país e não a oligopolização, concentração da informação nas mãos de meia dúzia de famílias.
Falávamos sobre a propriedade privada e um dos temas da semana foi a concessão dos aeroportos. O PSDB falou em estelionato eleitoral, disse que o PT agora entrou nas privatizações. O sr. acha que esse tema vai voltar à campanha? Como o sr. vê essa discussão?
Eu quando era assessor do ministro do Planejamento, eu redigi a lei das PPPs.
A gosto ou a contragosto?
Eu fui pra isso. Fui convidado pelo Guido (Mantega). Participei da elaboração da lei de concessão do lixo, do transporte público (refere-se à sua atuação como chefe de gabinete da secretaria de finanças na gestão Marta Suplicy).

sábado, 11 de fevereiro de 2012

1978 - Covas, Lula e o que mais viria

Lula clicado pela lente do meu irmão João Bittar: reunião que decidiu pela criação do PT






Em maio de 1978, finalmente, eu conseguia voltar a São Paulo depois de três anos peregrinando o mais discretamente possível pelo Sul do país. Estava confuso e olhava com bastante apreensão para o futuro. As forças progressistas pareciam concentradas apenas na CNBB, de d.Helder Câmara e dos cardeais Lorscheider, e a OAB, de Raymundo Faoro. Os políticos dividiam-se entre os autênticos e moderados. Mas, era uma grande confusão. Havia autênticos moderados como Franco Montoro e moderados autênticos como Teotônio Villela.

Ulysses Guimarães era uma unanimidade. Mas, havia Tancredo Neves, que também parecia uma unanimidade. Um propunha a trincheira de resistência, outro propunha a conciliação. Os grupos organizados da esquerda clandestina estavam praticamente dizimados. Sobrava apenas o partidão, que parecia libertador no discurso, mas era autoritário no dia-a-dia das redações, curriolista e incompetente. O PC do B dizia que todos deveriam usar calça de tergal e sandália de dedo, mas ninguém prestava atenção a este tipo de bobagem.

O regime militar seguia fielmente e a grande custo o script escrito pelo general Golbery de transitar segura e lentamente. O general Geisel, do pacote de abril, passava o bastão de comando para o general Figueiredo, aquele que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Uma estranha força política conservadora se organizava em São Paulo para conturbar o ambiente: Paulo Maluf. Ele conseguira a proeza de amalgamar todos os oportunistas ( e oportunista não tem ideologia) do Estado, confrontara o Planalto, e conseguiu a proeza de se eleger governador de São Paulo, pela via indireta.

Neste período conheci dois personagens que iriam me explicar um pouco o que acontecia. Um era um deputado cassado em 68, que dispendia pelo menos uma tarde por semana, em uma sala de uma empresa de engenharia no Morro dos Ingleses e tinha a manha de me explicar que o jogo jogado era outro.  Compartilhávamos um bule de café e um maço de Hollywood e ele, com uma paciência descomunal, abria o baralho político sobre a mesa e me mostrava a face real de cada carta. Antecipava cada jogada com maestria. O outro era um operário, sem nenhuma formação, recém conduzido à liderança dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. Homem de pouca formação e experiência, mas capaz de sintetizar e definir com poucas palavras o que outros necessitavam de páginas e páginas de explicações. Mário Covas e Luís Inácio da Silva naquele segundo semestre de 1978 eram não só minhas fontes, mas uma cachoeira imensa de informações que encontravam resguardo na minha alma perturbada.

Lula e Covas: relação de respeito. Ao fundo, Alckmincom cara de picolé de chuchu 




“Maluf vai arregimentar todas as forças do atraso: os órfãos da ditadura, os fisiológicos e os oportunistas. Será a alternativa de negociação civil, confiável para o regime militar” – Mário Covas.

“O trabalhador brasileiro não quer saber de ideologias ou de composições políticas. Quer saber de ter feijão na mesa de sua família” – Luís Inácio da Silva, o Lula.

Covas não confiava no espectro ideológico da esquerda assumida. Achava Montoro um oportunista. Tinha horror a José Serra, mas se encantava com Almino Affonso e, principalmente, Fernando Henrique Cardoso. Tinha um apreço descomunal por Ulysses Guimarães, a quem considerava o grande líder da resistência.

Lula parecia não morrer de amores por ninguém, ainda que arrastasse uma asa por Fernando Henrique e por Teotônio Villela. Insistia em um pragmatismo exacerbado. Para ele, só a classe trabalhadora poderia conduzir seus próprios destinos. Ainda me lembro da sua definição de luta de classes: “Há os que trabalham e vivem disso. E há os que vivem do trabalho dos outros”.

O líder sindical que se forjava com base em um fundamento tão simples, em 1979, iria confrontar para valer não só o regime militar, como a elite econômica paulista. Os de Nigris, os Villares, os Morais, os Penteados e outros ilustres sobrenomes que haviam se fartado por décadas da proteção de um estado autoritário e enchido as burras, viam agora um retirante nordestino liderar uma greve de confronto, que paralisava o parque industrial do ABC, com um único argumento: “Feijão na mesa do trabalhador”.

Covas se divertia com isso. Seu último mandato de deputado lhe havia sido conferido pelos estivadores e pelos metalúrgicos de Santos e ele falava com propriedade: “Os comunistas vão à loucura. Não pelo discurso do Lula, nem pela sua notável capacidade de mobilização. Mas, pelo confronto com os mecenas que na essência financiam a sua clandestinidade”, dizia.

Outra profética de Covas: “Os políticos também. Lula mudou o jogo. Trocou os cacifes. Trouxe de volta para o movimento sindical o foco das transformações. Eles vão tentar tutela-lo. Não vão conseguir e terão que combatê-lo”.

Com a anistia e a volta dos exilados, o cenário ficou bastante tumultuado. Brizola voltou querendo seu espaço. Não achou. Prestes mesmo pressionado viu a novidade que emergia em São Bernardo, o que levou os comunistas à loucura. Arraes também. Neste pastel, Lula preferiu criar um partido político, justamente por não confiar nas outras lideranças. Não há como culpa-lo.

Covas não acreditou no PT. Preferiu ficar com os sociais democratas, primeiro no PMDB e depois do PSDB. Brizola e seu voluntarismo seguiu e segue errante. Arraes criou o PSB. Prestes foi destronado pelo centralismo democrático comunista e viu seu partido de tanta história, virar linha auxiliar burguesa.

Depois de mais de 20 anos, o PT foi para o poder. Pagou e paga o pedágio de ter se institucionalizado. De um jeito ou de outro, Lula cumpriu a mesma promessa que fez quando era dirigente sindical. Tirou mais de 36 milhões de brasileiros da faixa da miséria e pôs feijão na sua mesa.

Covas deve estar de bruços no túmulo. Jamais poderia imaginar que um partido nascido da desconfiança de algumas lideranças sindicais poderia assumir as transformações que o Brasil tanto necessitava. E que o PSDB, que ele ajudou a criar, iria se alinhar com as forças mais reacionárias da sociedade.


 Adversário companheiro
Luiz Inácio Lula da Silva
Mário Covas foi um adversário leal. Com ele, podíamos sempre conversar abertamente. Esse tipo de político faz muito bem ao Brasil, ao contrário de outros que não têm ética nem cumprem compromissos.
Mesmo quando estávamos em pólos opostos, ele contribuía com grandes idéias para o debate. Dava prazer fazer política com Covas. A verdade é que ele deixa uma grande lacuna ética na política brasileira.
Covas tinha fama de mal-humorado, mas lutava e era honesto naquilo que falava. Acredito que o Brasil tenha perdido um exemplo de ética, de dignidade e de moral. Perdeu o Brasil, perdeu o PSDB e, acima de tudo, perdeu o povo brasileiro.
Isso não significa deixar de lado todas as nossas diferenças políticas e partidárias. Mas é hora de fazer o reconhecimento devido a uma pessoa por quem eu nutria um profundo respeito e admiração. Isso porque Covas tinha caráter e tinha palavra.
Na Assembléia Nacional Constituinte, quando fomos colegas, os conservadores, além de atacar a esquerda, tinham o objetivo de neutralizar e diminuir o peso de Mário Covas, que era então o principal negociador do PMDB e agia de forma honrada, cumprindo à risca o que acordava conosco.
Por mais que você pudesse discordar de Covas, você podia confiar na sua palavra. Tinha a certeza de que ele cumpriria os acordos e sabia também que ele poderia dizer não, mesmo quando seria mais fácil dizer sim.
Além disso tudo, ele sempre teve comigo um comportamento muito ético e decente, numa história que vem desde a solidariedade nas greves de 1979 e 1980, passando pela própria Constituinte, quando atuou com muita dignidade, e culminando no segundo turno das eleições de 1989, quando foi para o palanque comigo em São Paulo e no Rio de Janeiro, além do recente apoio à candidatura de Marta Suplicy na última eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Em termos conjunturais, a morte do governador Mário Covas pode complicar ainda mais a relação entre a oposição e o governo federal. Acredito que, agora, fique mais difícil esse diálogo.
Covas tinha uma relação profunda com o PT, apesar das divergências. Esse era um dos fatores que facilitavam o entendimento entre nós.
É preciso dizer também que, dentro do PSDB, inclusive na sua alta cúpula, muita gente não gostava de ovas, muita gente o considerava muito duro. É bom lembrar que, não fosse por causa dele, certos tucanos teriam embarcado sem pestanejar na canoa furada do governo de Fernando Collor de Melo.
Como se sabe, entre os possíveis aderentes estava o presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual governador do Ceará, Tasso Jereissati. Esse é, sem dúvida, mais um exemplo de que, além de visão política, ele tinha ética de verdade.
Luiz Inácio Lula da Silva, 54, é presidente de honra do PT (Partido dos Trabalhadores) e conselheiro do Instituto Cidadania. Foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (1975-81), deputado federal pelo PT-SP (1987-91) e presidente nacional do partido (1980-89, 1990-94 e 1995).
Texto publicado no jornal da Folha de S.Paulo, 7 de março de 2001 – pág. A-3