quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um brinde a Hernandarias


Cenário triste: meninas sonhavam com a "vida fácil "no Porto de Santos

Esta foto aí de cima, aparentemente singela, na verdade é o ponto ápice de um site de reportagem que eu fiz com o João Bittar, 32 anos e muitas existências atrás. Despencamos de um avião da Vasp em Foz do Iguaçu com a incumbência nada singela de registrar o desvio do rio Paraná para a construção da barragem de Itaipu.
Foz do Iguaçu era algo muito parecido com Wichita ou Tombstone, ou seja, o Velho Oeste redivivo. Havia ainda o charme noir da tríplice fronteira. Os tipos mais exóticos e curiosos. O pau comia feio na Argentina. O contrabando corria solto em Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Leste, no Paraguai.
Milhares de operários brasileiros e paraguaios trabalhavam avidamente na construção do que viria a ser a maior hidrelétrica do mundo. Mais precisamente no desvio de um rio, o Paraná, com um dos maiores fluxos de todo o planeta.
Era um burburinho danado e nós ficamos hospedados em um hotel, se não me engano chamado Sagres, instalado numa esquina de coisa alguma com lugar nenhum, provavelmente no limiar deste mundo com qualquer outra coisa. Lembro-me que no primeiro dia, lambemos os beiços quando divisamos na porta do restaurante um aviso apetitoso: “Hoje Bacalhau ao Forno”.
Esbaldamos-nos de tanto bacalhau. O problema é que no dia seguinte a mesma mensagem seguia afixada: “Hoje Bacalhau ao Forno”. E assim foi pelos 20 e tantos dias que ficamos por lá. Nunca mais confiei em sugestões afixadas nas portas de restaurantes de hotel.
Nossa aventura daria para escrever um livro. Mas, vou me ater a um episódio bastante divertido. Como havia seis mil operários solteiros nos acampamentos da obra, curiosamente nos interessamos em saber como este pessoal se divertia e o que a direção da binacional fazia para controlar estes divertimentos. Não é difícil imaginar, por exemplo, o que uma doença venérea poderia provocar em um ambiente desses.  
Uma fonte nos havia assegurado que as profissionais do prazer estavam confinadas em uma cidade paraguaia, onde médicos pagos pela binacional faziam regularmente os exames médicos e mantinham controle absoluto sobre todas.
Mas, que cidade era esta? Onde? Como chegar?
Rodamos e rodamos. Quando estávamos a ponto de desistir demos de cara com a pequena cidade de Hernandarias, alguns quilômetros ao Norte de Ciudad del Leste.
Era a hora da siesta, instituição sagrada entre os guaranis. Não havia viva alma pelas ruelas, sem pavimento e bastante esburacadas.
Será aqui? Como vamos saber?
Meretrício que se preza não fica na zona urbana. Mas, também não dá para esperar que anoiteça para que se divisem as luzes vermelhas.
De repente, uma menina de uns 16 anos, bobs na cabeça, sai não sei de onde e se lança sobre o capo do carro.
- Moço me leva para Santos! – disse em claro portunhol.
Achamos. O João desceu com a boa Nikon e desatou a disparar o que provocou uma verdadeira corrida de meninas. Sim, meninas. 15, 16, no máximo 17 anos. Todas, invariavelmente todas, fariam qualquer coisa para que as levássemos para Santos.
Como se eu não soubesse a razão, perguntei a uma delas:
- Por que Santos? Vocês querem ver o mar?
- Não moço, Santos tem dinheiro, marinheiros e porto. Boates sofisticadas. Lençóis limpos...
- Mas, vocês não estão bem aqui?
- Aqui nada acontece e não vai acontecer nada. A gente tem que transar por alguns trocados e uma vez por mês vem um doutor e examina todo mundo. Mas, ninguém vai sair desta vida: transar com pião não dá futuro.
Era uma realidade peculiar. Uma lógica difícil de compreender. E pobre de quem pretendesse racionalizar. Não seríamos nós.
Naquela noite, enquanto tomávamos uma cerveja na beira da piscina do Sagres, eu e o João conversamos pelo olhar. Viramos em direção a Hernandarias e brindamos envergonhados as cenas de degradação que havíamos testemunhado. Não falamos uma palavra. Nem precisava.



     
   

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Por que São Paulo é tão reacionário?

Vale do Anhangabau: festejos do IV Centenário de fundação da cidade

Esta é uma questão cruel que desafia a história e o bom senso. Por que a maior cidade da América Latina, com as maiores universidades brasileiras, certamente uma das mais importantes expressões culturais do continente, a mais cosmopolita das formações humanas, é tão conservadora?
Alguém dirá que a culpa é dos jesuítas, Manoel de Nóbrega e José de Anchieta, que fundaram o colégio em 1554. Nada a ver.
Ou dos bandeirantes que desde o século XVII se aventuraram pelo Interior do Brasil a escravizar índios e pilhar riquezas. Também não creio.
Ou ainda dos fazendeiros que desde o século XVIII acumularam riquezas à custa do trabalho escravo africano. Aí talvez esteja o gérmen de todo este reacionarismo.
Quando por uma dádiva de um amigo da família, o santo Olavo, faxineiro da redação de O Estado de S.Paulo, eu fui trabalhar no Estadão como recepcionista de noticiário, emprego conquistado pelos meus dotes como exímio datilógrafo e depois teletipista, não tinha nenhuma vontade de ser jornalista. Eu sonhava muito mais alto, queria trabalhar na indústria espacial. Ainda era marcante na mente de todos os feitos de Neil Armstrong e Buzz Aldridge.
Foi o desafio descompromissado de um superior, o professor Sebastião José Pena, então responsável técnico pelos telefones que me fez pegar nos brios. “É melhor você seguir outra carreira. Com o sobrenome que você tem, só se for trabalhar no Fanfulla”.
Alguns anos depois, ainda trabalhava no Estadão e fiz um concurso para redator de uma revista de criadores de cavalos de corrida no Jockey Club de São Paulo, então prestes a completar 100 anos. Passei em primeiro lugar e fui chamado pelo presidente João Adhemar de Almeida Prado para uma entrevista. Depois de muita conversa rigorosamente non sense, recebi a sentença com enorme perplexidade: “Você não será contratado. Preciso de alguém que tenha sobrenome”.
Isso me intimidou? Não. Mas, me revoltou bastante.
São Paulo recebeu os imigrantes italianos de braços abertos. Isso é apenas uma meia verdade. Acolheu sim no seu seio os peninsulares ricos como os Matarazzo, os Menotti Gambá e todos aqueles que possuíam posses. Aqueles que dependiam do trabalho e do improviso na vida eram chamados de porcos ou de carcamanos.
Aliás, esta designação carcamano, para quem não sabe, quer dizer ladrão. Referia-se aos comerciantes italianos do mercado público, que segundo os quatrocentões, “carcavam” a mão na balança para roubar os fregueses.
Não era fácil ser italiano nos anos 50 ou 60. A Itália era um monte de escombros. Alberto Sordi comia espagueti com as mãos. O neo-realismo de De Sica mostrava uma Itália que despertava. Mas, convenientemente, tudo era levado ao pé da letra.
Mas, nós peninsulares não éramos privilegiados pelo preconceito. Espanhóis, japoneses, nordestinos, todos estávamos no mesmo saco. Parece que São Paulo não se conformava com aqueles que trabalhavam e que, por isso, tinham que receber um salário justo. O problema era esse.
Preciso falar dos meus amigos que vieram do Oriente Médio. Todos eram chamados preconceituosamente de turcos, ainda que a geografia ensine que a Turquia fica na Europa. É claro que podemos nos conformar com a explicação que o Império Turco-Otomano tomou toda a região até a margem direita do Suez e que, portanto, os imigrantes chegaram aqui com documentos emitidos em Ancara.
Mas, não era só isso. Turco era sinônimo de oportunista, de safado, de caixeiro viajante. Ninguém queria saber se a família tinha origens na Síria secular, no Líbano, na Palestina, ou na Jordânia. Todos eram turcos e ponto.
São Paulo cresceu no século XX. Virou a cidade que mais cresce no mundo, fruto do trabalho do que Dante Alighieri chamava de “a gente nova”. Enriqueceu.
Veio a presunção e o absurdo. “São Paulo é uma locomotiva que puxa 21 vagões vazios”, em referência a federação. Reagiu à revolução de 30, quando percebeu que Getúlio Vargas iniciaria o processo de industrialização do país, do qual tanto se locupletaria. Imaginou que deporia o presidente em 32, no Catete, com a desculpa que lutava por uma constituição, mas na verdade queria de volta o poder para os fazendeiros paulistas.
Reagiu as leis trabalhistas, que proibiam crianças de trabalhar nas fábricas e nas fazendas. Reagiu à folga dominical, ao direito de férias, a previdência social. Pressionou e mandou soldados para a Itália, quando a guerra já estava decidida. Ficou inconformado com a vitória de Getúlio em 50, conspirou com Lacerda em 54, contra Juscelino, contra Jango. Apoiou o golpe de 64, com a célebre Marcha com Deus pela Liberdade.
São Paulo não tem jeito mesmo. Foram empresários de São Paulo que patrocinaram a Operação Bandeirante, que prendia, torturava, seqüestrava e matava. Onde surgiu o Esquadrão da Morte e a Rota 66.
Nada mais antipático que frases do tipo: porque nós em São Paulo fazemos isso ou fazemos aquilo. Como se por lá não existissem favelas, problemas na saúde, na educação, políticos corruptos e empresários corruptores.
Por mais que doa a elite paulista, São Paulo fica no Brasil. E não adianta repetir a exaustão o mantra da bandeira de 13 listas, o Brasil é maior que São Paulo, culturalmente mais rico, mais diverso, mais moderno.
Olhar o Brasil com a ótica de São Paulo é perverso. Como de resto em todo o país, os quatrocentões se esvaíram no próprio reacionarismo. Luis Inácio Lula da Silva é a prova cabal de que os rincões elitistas, que ainda persistem, são rigorosa minoria. Não há mais condições para que as elites assaltem o poder como em 64. Os trabalhadores de São Paulo sabem disso.
Tanto sabem que não negam seu trabalho e seu esforço por um país melhor, mais homogêneo, mais justo e democrático.

sábado, 13 de novembro de 2010

Missão cumprida no Recife

Recife: da junção de dois rios nasce o Oceano Atlântico
“Pernambuco falando para o mundo. Tem o mundo a voz de ouro, meu cantar é meu tesouro”.


Então, foi uma sexta-feira épica daquelas que como diria William Shakespeare: Malditos aqueles que ficaram em Brasilia e que não lutarão comigo no dia de São Crispim e São Crispiniano.
Duro mesmo foi ter que tomar uma aula: “Nós temos que ver o interesse da imprensa e não o dos ministros”.
A culpa é minha. Com certeza. Sempre é. Me lembrei do Steinbeck e do Kapa na União Soviética. Era madrugada e os dois chegaram para tomar um avião para Moscou. Estavam no Mar Morto. Era um daqueles cargueiros americanos que tinham perdido sangue na II Guerra.
Um soldado postado na frente do avião dirigiu-se aos dois e pontificou: Ninguém embarca.
Nada demoveria aquele soldado. Ordem é ordem. Nem o próprio Stalin embarcaria naquele avião. Os dois jornalistas dirigiram-se ao comandante da base aérea, que ao ouvir o relato, limitou-se a olhar para o relógio.
- Dêem mais 15 minutos e se apresentem para embarcar.
No prazo acertado, outra sentinela permitiu que eles acomodassem suas malas no porão e se refestelassem nas poltronas improvisadas da lata velha americana. O comandante ainda foi se despedir dos dois e explicou:
- Era mais fácil trocar a guarda do que mudar o comando dado a um soldado soviético. Dois comandos poderiam obrigá-lo a raciocinar, o que seria absolutamente indesejável.
Pois é, se o comando era para a entrevista coletiva ser realizada no escritório regional da Advocacia Geral da União, em Boa Viagem, por que diabos mudar? Para agradar a imprensa? Ou para tumultuar?
Resultado: uma entrevista conturbadíssima, confusa, em ambiente inapropriado. Melhor trocar o soldado, não acham?
Mas, deu tudo certo. A liminar caiu. O meu emprego se manteve. O ministro Luis Ignácio Adams, da AGU, é uma figuraça. Haddad comeu um camarão a grega, que deveria se chamar camarão a toda Grécia, tal o volume de camarões. O dr. Mauro comeu uma cioba recheada, por força de alergia a crustáceos, eu e o Ary comemos uma moqueca de camarões e lagostas. Almoçamos no Bargaço  do Pina.
A comadre Beatriz Castro gravou a entrevista que queria com o ministro para o Hoje. A Renata Cafardo dançou na sua pretensão de gravar sua entrevista para o Fantástico.
Aliás, Fernando Haddad realmente não existe. Mais de 90% da esplanada daria o braço para aparecer na mais xarope das revistas televisivas. Ele simplesmente esnoba. “Não estou a fim e tenho dito”.
Hehehehehe. O soldadinho soviético não entendeu nada. Não vai entender nunca. Acho que com 40 anos de experiência na imprensa, não preciso tomar lições de um burocrata. Então, vai aprender na segunda divisão.
Minha proposta de mandar um caminhão de melancias para a juíza de Fortaleza não foi bem recebida. Ela teria dificuldade para compreender. Quanto ao procurador, quem ele pensa que engana?
Foi bom estar em Recife de novo, ainda que por poucas horas. Dar um beijo bem gostoso na nora de Lulinha. Fazer uma prece para que a Margarida tenha uma boa hora no parto. Ouvir aquele sotaque gostoso, de gente bonita. Sentir o sol no rosto e o calor na camisa. Que saudades do Alcyr, Bruno, Pedro Henrique, do Duda, de Martinha, da outra Martinha, de Márcio Makmann!
Que pena! Foi tão rápido. Deu tempo apenas de beber um suco correndo na base aérea. Suco de cajá. Verdadeiro. Não polpa.
Até outro dia Recife querido. Nossa missão foi cumprida. Obrigado.


   

terça-feira, 9 de novembro de 2010

E Deus apareceu em Boston

Diego Armando Maradona: Deus contra a Grécia no Foxboro Stadium, em Boston
Conheci Diego Maradona no Japão em dezembro de 1978. Era um menino franzino de pernas grossas, que jogava com desenvoltura na seleção under 21 da Argentina com uma perna esquerda impressionante.
Quando voltei, comentei com colegas e amigos que Mario Kempes logo, logo, iria abrir mão da camisa 10 daquela seleção. Não posso esconder que muita gente tirou uma da minha cara. Ainda mais porque havia um ressentimento muito grande com o campeonato mundial daquele ano, vencido pelos hermanos no Monumental de Nuñez.
Não se pode cobrar dos colegas lembranças de momentos passados em um bar. Mas, o grande – se não o maior – repórter Osmar de Freitas Júnior, muitos anos depois lembrou: “Bem que você avisou que o menino era fera. E nós, imbecis, preferimos rir da sua profecia”.
Claro que nem sempre eu acertei minhas profecias. Mas, aquela tinha um componente diferente. Diego Armando Maradona era o anjo do arrabal, o pibe de ouro, tinha um brilho especial nos olhos, um controle de bola e uma visão de jogo que eu jamais havia visto.
Antes que alguém me pergunte se ele era melhor que Pelé, já respondo: Não era e não se compara. Seria o mesmo que perguntar quem era melhor, Picasso ou Modigliani?
Maradona saiu do Argentino Júniors, foi para o Napoli, e de lá para o topo. Vice em Milão em 1990, campeão em 1986, no México, à frente de uma seleção medíocre, e assim por diante.
Encontrei com ele em Recife no dia 23 de março de 1994, despedida das duas seleções que iniciavam preparativos para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Conversei longamente com ele no Mar Hotel e fiquei assustado. Ele estava enorme de gordo. Inchado mesmo. Seus olhos já não brilhavam.
- Te prometo que nos Estados Unidos vou estar pronto. Devo isso as minhas filhas – foi o que ele me disse quando nos despedimos antes do jogo.
Contra o no Mundão do Arruda, Maradona ficou no banco, com a camisa de fora para não mostrar o quanto estava decaído.
Em julho, depois de assustir a insuportável abertura da Copa, no Soldier Field, em Chicago, tomei um avião e fui para Boston para ver Argentina e Grécia. Com muita, mas muita dificuldade consegui entrar na concentração da seleção argentina e encontrei um Maradona magro, olhos brilhantes, que me recebeu com um abraço carinhoso e se despediu com uma promessa: “Vou arrebentar!”
Era o mesmo Maradona de Tóquio. Passeava no campo. Deixava Caniggia e Batistuta na cara do gol. Levava a defesa grega ao desespero.
Escrevi e o Tão publicou uma matéria entusiasmada na Istoé: “Deus existe!”
Dias depois, quando cheguei a Dallas, Ilia Júnior, âncora esportivo da TV Bandeirantes me contou no estúdio que havia um caso de dopping positivo. Ele escondia uma satisfação cruel e eu logo percebi que o sonho do Pibe iria se transformar em pesadelo.
Não deu outra. Nem sei se a pseudo-ephedrina é um poderoso estimulante como disseram. O próprio Maradona jurou que não sabia nada sobre isso. Mas, o sonho morreu ali, na mesma cidade onde JFK foi baleado.
Tinha certeza que Maradona não sobreviveria aqueles acontecimentos. Torci muito por ele. E acompanhei o noticiário do calvário em que sua vida se transformou: Diego era e continua sendo um menino que gostava muito de jogar bola. Nada mais. Pena que ele, como eu, pensava que era Deus e acabou no inferno como anjo caído.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Los periodistas brasileños son todos mentirosos!


Ônibus na rota de Caaguazu: vigilância contra camponeses sediciosos

Nestes tempos em que se voltou a discutir o direito dos jornalões dizerem o que bem entendem, me veio à lembrança um episódio que tem a ver com o direito dos repórteres de apurarem os fatos.
Um camponês paraguaio da cidade de Caaguazú, revoltado com a arrogância dos tecnocratas de Itaipu e pressionado pela realidade agrícola do país, decidiu sequestrar um ônibus com outros 30 companheiros, para se dirigir a Assunção e protestar ao presidente Stroessner, aquela figura meiga, democrática e honesta.
O ônibus foi sequestrado na saída da cidade fronteiriça de Presidente Stroessner, hoje Ciudad del Leste, e jamais chegou a Assunção. Na verdade, escafedeu-se em alguma curva da Rodovia Panamericana.
Chegamos a fronteira eu e o companheiro Hélio Campos Mello pouco mais de 24 horas depois do seqüestro. Decidimos que iríamos chegar a Caagazú de ônibus e tomamos o primeiro com destino a Assunção, com o cuidado de solicitar ao motorista que nos avisasse no momento em que ele passasse pelo nosso destino.
O ônibus merece uma descrição. Era um velho coletivo inglês, provavelmente construído pelo esforço de guerra, com os pneus carecas e um motor dentro da cabine que reproduzia com perfeição o que imagino ser o som do inferno. Além disso, dezenas e dezenas de cucarachas, como astronautas da primeira viagem a Vênus, habitavam alegremente as paredes.
Pode-se dizer que entrava tudo naquele ônibus. Não entrava gado bovino porque não passava pela porta. Porcos e galinhas havia pelo menos seis de cada. Inclusive um galináceo, cuja proprietária tomou o cuidado de equipar com uma fralda descartável.
Logo na saída da cidade, uma barreira do exército vistoriou o ônibus, sabe deus em busca do quê. Implicaram com o volume de filmes que o Hélio levava. Mas, se satisfizeram com a explicação de que nós éramos representantes, vendedores, da Kodak.
Amparados por uma daquelas pocket bottles de White Horse, empreendemos a viagem ao som imaginário de uma guarânia. Finalmente, no meio da madrugada, o velho ônibus parou no meio do nada e o motorista nos apontou a porta.
Descemos em um escuro profundo. O Hélio explodiu um flash para que conseguíssemos ver a placa que apontava Caagazú: 5 kms. Sem qualquer alternativa, começamos a caminhada por uma estrada de terra, guiados apenas, eventualmente, pelos nossos Zippos.
No meio da caminhada, enquanto ríamos da condição em que estávamos, fomos abordados por uma patrulha do exército paraguaio. Meninos de rosto pintado, armados com fuzis veteranos da Guerra do Chaco, grunhindo em guarani:
- Aonde vão?
Estava tão escuro e a dificuldade de comunicação foi tão grande, o aparato da patrulha era tão ostensivo, que emergiu uma conclusão óbvia: estávamos na pista certa.
Fomos revistados, minuciosamente. Implicaram de novo com a quantidade de filmes. Mas, enfim, nos liberaram.
Quando chegamos à cidade, não havia uma só lâmpada acesa. Havia um único hotel, se é que poderíamos chamar aquele estabelecimento assim. Quase derrubei a porta, até que apareceu um sujeito vestido em uma camisola, barrete, e um lampião de querosene nas mãos.
- O que vocês querem?
- Dormir, tomar um banho, essas coisas do mundo civilizado.
- Estamos completamente lotados. O máximo que eu posso fazer é deixar vocês dormirem nos sofás da recepção.
Eram uns sofás surrados, forrados com courvin. A criatura ainda nos arrumou uns lençóis, cobertores e travesseiros.
Dormimos em instantes. Acordei ouvindo a voz do Ricardo Kostcho e um burburinho. A cidade também despertara. As pessoas cuidavam dos seus afazeres normalmente, como se nada tivesse acontecido.
Igreja de Caaguazu: padre apavorado. "Nao vi nada!"
A bordo de uma xícara de café com leite, pão com manteiga, nossa equipe agora era formada por quatro profissionais, Ricardo Kostcho e Ubirajara Dettmar, pela Folha, eu e o Hélio, pela Istoé. Nossos amigos tinham alugado uma Brasília, em Foz, e por esta razão haviam chegado a tempo de conquistar uma cama. Por onde vamos começar? Não dá para sair pela rua perguntando: “Vocês viram um ônibus com camponeses revoltados por aí?”. Não dá para ir à delegacia de polícia.
Igrejeiro como ninguém, Ricardo teve uma idéia brilhante: o padre!
E lá fomos nós para a paróquia local. O padre rezava uma missa para umas 15 almas piedosas. Estava dando a comunhão. Esperamos um pouco e literalmente invadimos a sacristia.
- Sim, meus irmãos, o que posso fazer por vocês?
O piedoso pastor ficou literalmente em pânico quando lhe perguntamos sobre o ônibus.
- Não sei de nada. Não vi nada.
Insistimos e insistimos. E com as mãos no rosto, coberto de vergonha, o jovem padre praticamente murmurou entre os dentes.
- Estão todos mortos. Passaram por aqui, foram levados a um acampamento do exército, e foram executados.
- Mas, onde é este acampamento?
- Sigam por trás da igreja, sempre em linha reta. Mas, tenham em mente que vocês podem ter o mesmo destino dos camponeses.
Nós quatro engolimos em seco, mas saímos em desabalada carreira, estrada a dentro, com algumas precauções. O melhor volante de nós era o Hélio. Mas, decidimos que tanto ele como o Dettmar deveriam ir no banco de trás, com as máquinas prontas para disparar. Assim, me coube o papel de piloto.
Imprimi uma velocidade segura, evitando sobressaltos – as populares costelas de cabrito – e, de repente, estávamos cercados por um verdadeiro teatro de operações. Helicópteros, blindados, a soldadesca em movimento.
Fomos presos em minutos. Mãos na cabeça. Revistados à exaustão e encaminhados a um certo coronel Pastor, o comandante da operação. No percurso até a barraca do coronel, ainda vimos os 30 corpos cobertos com aquele plástico preto, e o que parecia ser a estrutura de um ônibus incendiado.
- O que vocês estão fazendo aqui? Quem são vocês?
- Nós somos jornalistas brasileiros e estamos procurando um ônibus com camponeses que se dirigia a Assunção.
- Não existe nada disso. Estamos aqui apenas fazendo manobras.
- Mas, coronel, temos informações que eles foram trazidos para cá. O que são estes corpos e este ônibus incendiado?
Nesse momento, tinha absoluta convicção de que estávamos diante do Rio Rubicão. Ou teríamos as informações e não sairíamos de lá vivos, ou nem teríamos as informações.
- Eram subversivos. E nós aqui tratamos esta gente deste jeito.
E aí coroou com a frase cabal:
- Los periodistas brasileños son todos mentirosos!
Disse com ironia, alto e claro, e complementou ordenando que nos prendessem.
No caminho, sabe deus para onde, um tenente com cara de fuinha começou a desenhar um cenário de horror.
- Acho que vocês não têm saída. Comecem a se despedir da vida.
Falou isso no mesmo momento em que passávamos pela Brasília alugada. Dettmar, safo como ninguém, enfiou a mão no bolso, tirou um monte de cédulas, pôs na mão do tenente e gritou.
- Vamos gente!
O recado foi entendido num segundo. Acho que nunca dirigi com tanta rapidez! Ainda ouvimos tiros quando saímos. O tenente, tentando livrar a cara, com certeza. Aliás, uma das balas, conferimos depois, ficou cravada no pára-lama da Brasília!
No asfalto, voando em direção à fronteira, correu um frio na espinha de todos. Como diabos nós vamos atravessar a ponte? Será que o tal coronel deu o alarme? E se nos pegarem lá?
Alguém sugeriu que procurássemos o cônsul brasileiro em Puerto Stroessner.
- Esquece.


Ponte na fronteira"Por que vocês querem me enganar?"
A antiga Ciudad del Leste regurgitava de turistas, ávidos pelas compras. A ponte estava bem movimentada, com as velhas sacoleiras, ônibus de turismo, etc... Mas, só havia movimento no lado brasileiro.
Passamos na aduana paraguaia sem emitir um som, devargazinho... Quando chegamos no lado brasileiro, um funcionário da Polícia Federal nos obrigou a descer do carro. Ficou enlouquecido com os equipamentos do Dettmar e do Hélio.
- Vocês querem me enganar que este equipamento é do jornal e que vocês não compraram nada no Paraguai?
- Não compramos. E não queremos te enganar.
- Por quê? Todo mundo aqui quer nos enganar.
Porque somos jornalistas. Y los periodistas brasileños son todos mentirosos!
A ditadura do general Stroessner não se dignou nem responder a matéria do Ricardo e do Dettmar na Folha e nem a minha e do Hélio na Istoé.
Os camponeses foram enterrados. Suas famílias, expulsas do país. E ficou por isso mesmo. .


terça-feira, 2 de novembro de 2010

O som do holocausto


Auschwitz, na Polônia: judeus eram executados ao som da música de Mozart
No início dos anos 80 eu vivia em um confortável apartamento no bairro de Moema, em São Paulo, e tinha o hábito de mensalmente reunir alguns amigos no sábado para verdadeiras maratonas musicais. Escolhíamos um compositor, cada um de nós levava o seu disco predileto ou a mais recente novidade do mercado fonográfico. E passávamos horas ouvindo e discutindo a história, a interpretação ou a gravação.
Numa destas tardes havíamos escolhido Mozart. Lembro-me da excitação porque recém havia voltado de Buenos Aires com uma gravação extraordinária de O Rapto do Serralho, regida por sir Thomas Beecham.
Wagner: genio de personalidade conturbada
Excepcionalmente naquela tarde, para minha surpresa, fomos diversas vezes interrompidos pelo interfone e uma insistente reclamação quanto ao volume da audição. A insistência tornou-se mais freqüente quando nos dedicamos a ouvir uma gravação da Sinfonia 41, que meu amigo Antonio Carlos, competente baixo-barítono, havia trazido de sua viagem a Europa. Se não me engano, era uma versão de Rudolf Kempe à frente da Orquestra Filarmônica de Viena. Uma raridade!
Naquela manhã de domingo acordei com o cheiro do pão crocante da padaria da esquina e desci lépido para degustá-lo com manteiga. Mas, ao sair do elevador fui abordado por uma jovem muito simpática, em roupas casuais, que certamente me aguardava por algum tempo lendo a gigantesca edição dominical do Estadão.
- O senhor me desculpe por ontem, mas é que minha avó veio morar conosco e ela é sobrevivente de Auschwitz. Não sei se o senhor sabe, mas quando os judeus eram encaminhados para as câmaras de extermínio, os nazistas colocavam Mozart no sistema de som do campo. Foi assim que ela viu seus pais e seus irmãos serem assassinados. Infelizmente quando ela ouve Mozart, todas estas lembranças lhe vêm à mente e ela sofre muito.
Nazistas filhos da puta! Não bastasse terem provocado a morte de 50 milhões de pessoas ainda ousaram manchar a música divina de Wolfgang Amadeus Mozart, um dos mais queridos e amados compositores de todos os tempos.

Bayreuth: o templo wagneriano dos festivais anuais de ópera
 Enquanto vivi naquele apartamento, nunca mais ouvi Mozart, a não ser através dos fones de ouvido.
Lembrei-me desta história ao ler a competente reportagem de Graça Magalhães-Ruether, correspondente de O Globo, em Berlim, a respeito do convite da bisneta do compositor alemão Richard Wagner, Katharina, para que uma orquestra de Israel se apresente no Festival de Bayreuth.
Para quem não sabe, Bayreuth é um templo wagneriano erigido na Bavária, graças a “generosidade” de Ludwig II, em 1876. Desde então, todos os anos no verão, são apresentadas óperas de Wagner e para lá acorrem os mais privilegiados aficionados.
Richard Wagner tinha uma personalidade forte e um caráter bem duvidoso. Mas, era um gênio. Influenciou todas as gerações que se seguiram a ele. Seus seguidores como Mahler e Bruckner e seus opositores como Debussy e Stravinsky.
Ele fez a transição entre o bel canto da escola verista para o drama lírico e influenciou até mesmo o gênio de Busseto, Giuseppe Verdi, em suas últimas óperas, notadamente em Otelo.
Nossa presidente, Dilma Roussef é admiradora de Wagner e apaixonada pelo Tristão e Isolda, o ápice do romantismo. Eu prefiro o humor hermético de Os Mestres Cantores de Nuremberg.
Filarmônica de Israel: choro e abandono por conta de Wagner
Wagner morreu em 1883, cinco décadas antes que os nazistas chegassem ao poder na Alemanha. Não tem nada a ver com aquela imbecilidade coletiva patrocinada por Adolf Hitler. Era anti-semita, o que na Europa do século XIX não se constituía em uma distinção. O Beckmesser de Os Mestres Cantores é a prova disso. Mas, ninguém discriminou Shakespeare mesmo ele tendo escrito uma das obras mais anti-semitas que eu conheço, O Mercador de Veneza.
Ocorre que Hitler e seus animais nazistas valeram-se de Wagner e de Bayreuth para afirmar aquela bobajada de raça pura, supremacia teutônica, etc...E só quem viveu na Europa nos anos 30 e 40 pode dizer o quanto esta operação publicitária foi traumática.
Em 1981, o maestro indiano Zubin Mehta, então regente titular da Filarmônica de Israel provocou uma enorme polêmica ao reger o prelúdio do I Ato de Tristão e Isolda. Muita gente chorava na platéia e houve protestos marcantes.
O maestro argentino Daniel Baremboim, filho de judeus russos, regeu a orquestra da ópera estatal de Berlim, em Tel-Aviv, e tocou nada menos que o prelúdio do III Ato de As Valquírias. Foi uma barafunda, com muita gente abandonando a sala de concertos.
Desta vez, entretanto, parece que vai dar certo. A Orquestra de Câmara de Israel, regida por Roberto Paternostro, deve mesmo se apresentar em Bayreuth, como parte do programa do jubileu do bi-centenário do compositor húngaro Franz Liszt, sogro de Wagner, que morreu em 1886. Vai executar obras de Wagner, Liszt, Mahler e Mendelssohn. Dificilmente se apresentará no palco do teatro do festival.
Mas, isso não tem nenhuma importância. Como explicou o maestro Paternostro na reportagem da Graça: “A nova geração de músicos sabe diferenciar o significado musical da obra de Wagner”.
Tomara que, como disse o prefeito Michael Hobl, de Bayreuth, a apresentação da orquestra de Israel sirva para mostrar,65 anos depois, que a tolerância da arte e da cultura se sobrepõe a um dos mais estúpidos episódios da história do homem.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Parece uma caricatura, mas não é

O Jornal: uma comédia bem humorada sobre o verdadeiro cotidiano dos jornalistas
O cinema e o jornalismo flertam de tempos em tempos. Há histórias de jornalistas, histórias de jornalismo, episódios jornalísticos e personagens jornalistas. O maior filme já feito em todos os tempos, Cidadão Kane, de Orson Welles, é sobre o poder de um dono de uma cadeia de jornais. O recente Diamante de Sangue traz uma estonteante Jennifer Connelly no papel de uma jornalista de trincheira. E há também o excelente Intrigas de Estado, onde Russel Crowe faz um veterano repórter policial.
Mas, o filme que mais perfeitamente retrata o cotidiano do jornalista e do jornalismo, sem dúvida, é O Jornal.
É improvável que um jornalista não se veja entre aqueles personagens que trabalham no New York Sun.
Para começo de conversa, uma redação que presta não é uma repartição pública, separada por baias, onde tudo funciona e dá certo. Onde os gênios formulam suas opiniões e interpretações em silêncio. Talvez existam redações assim. Eu não conheço, graças a Deus.
Uma redação pulsa os acontecimentos. Editores, redatores e repórteres na maioria das vezes gritam. Todos vivem açodados pelo relógio. O deadline é muito mais dead do que line. E a sensação é essa mesmo.
Em O Jornal, o chefe de reportagem, Henry, vivido por Michael Keaton, está o tempo todo em confronto com a secretária de redação, Alicia, vivida por Glenn Close. O diretor de redação, Bernie, vivido por Robert Duvall, eternamente cansado e de saco cheio, convive com um câncer de próstata e a desilusão de uma vida perdida.
Há ainda o repórter louco que anda armado e dorme na redação, a repórter grávida que está de licença, mas não resiste à apuração, o editor que tem problemas de coluna e não consegue ter uma cadeira, a fotógrafa foca, iniciante, insegura e perdida.
O fantasma do carreirismo, da chance de mudar de vida e ir para um jornal burocrático que “cobre o mundo”. A pretensão de Alicia em ser promovida, esconder um caso com um editor – que todo mundo já sabe – e reformar a casa em padrões Casa Cláudia.
Sim, há de tudo, o filhadaputismo, o carreirismo, o puxasaquismo. Mas, o filme se resolve com duas máximas. A do repórter que consegue convencer Alicia de que o jornal poderia ser uma merda, mas nunca havia publicado uma informação sabidamente falsa. E a renitência de Henry que, mesmo diante da pressão da mulher e dos pais, larga tudo para buscar uma informação que confirmasse sua história.
Fábio Takahashi, um dos mais competentes repórteres da nova geração, me observou outro dia que não há santo em uma redação. Não há mesmo, Fabião. Por isso que a luta se renova a cada dia. Todos os dias. Nossa, primeiro em busca da notícia, e depois na queda de braços com as Alicias da vida.
Por isso que vale a pena! Às vezes a gente ganha, às vezes a gente perde. Mas, o espírito se renova todos os dias quando a gente se olha no espelho pela manhã e sai pela rua, com aquela sensação de que os fatos estão nas ruas, diante de nossos olhos. Colocá-los no papel é outra história.
Para quem quiser se divertir no feriado, O Jornal está disponível em locadoras e lojas especializadas.