domingo, 14 de fevereiro de 2016

Ressurreição!

Gustav Mahler, regente e compositor: o máximo do sinfonismo pós romântico






Gustav Mahler já era reconhecido como um regente importante, admirado por seus contemporâneos, quando decidiu compor sua primeira sinfonia, o que demorou nove anos: entre o verão de 1881 e o outono de 1890. A estréia se deu quatro anos depois em 1894, em Budapeste e não teve uma recepção muito acalorada nem do público, nem da crítica.

Antes ele havia trabalhado três ciclos de canções, Lieder Eines Fahreden Gesellen, Das Klagend Lied e o monumental Das Knaben Wunderhorn, que também alcançaram pouco sucesso. A forte influência de Robert Schumann, as dificuldades colocadas no pentagrama, além da tentativa de se criar uma escola expressionista pós-wagneriana, eram algumas das queixas.

Mas, o mundo da música, regentes, compositores e estudiosos naquele final de século, sabiam que isso tudo era uma bobagem. E que o maestro boêmio estava propondo uma nova forma de composição, rigorosa é verdade, mas que propunha uma inusitada interação entre a orquestra sinfônica e a partitura.

Por esta razão, quando ele anunciou ainda em 1894 que apresentaria uma segunda sinfonia, criou-se uma grande expectativa nos meios musicais. De tal forma, que Richard Strauss, outro gigante, não esperou nem a sua conclusão. Em março de 1895, ele regeu os três primeiros movimentos, em Berlim, para uma plateia de embevecidos visionários.

Mahler não tinha pressa em concluir sua segunda sinfonia. Entretanto, ao participar das cerimônias fúnebres do maestro Hans von Bulow, ele se apaixonou por um coral juvenil que cantava um hino com letra de Friederich Klopstock chamado Auferstehen (Ressureição) e decidiu colocá-lo no último movimento, com solos de uma soprano e de uma contralto, ou meio soprano.

No processo criativo de Mahler, nada é linear ou descompromissado. Desta forma, no quarto movimento ele ainda colocou uma canção do ciclo Das Knaben Wunderhorn, Urlicht (Luz Primordial). No que se refere a orquestração e desenvolvimento de temas e melodias de toda a sinfonia, o compositor usou todo o seu conhecimento e experiência de regente. Embora o conjunto orquestral seja formado por 120 músicos, com formações back stage (fora do palco) e instrumentos dobrados, todos, simplesmente todos os músicos são exigidos no limite de suas competências.

Em dezembro de 1895, o próprio Mahler regeu a estréia completa da obra, também em Berlim. O frisson foi tão grande nos meios musicais que três regentes se ofereceram para assisti-lo na preparação: Arthur Nikisch, Bruno Walter e Felix Weingartner. Nikisch e Weingartner já consagrados e Bruno Walter ainda despontando em sua carreira.

Ao final da execução, uma certeza. Mahler chegara até aquele momento ao limite máximo da criação. Sua segunda sinfonia era, sem dúvida, o máximo que o sinfonismo poderia alcançar.

Neschling, Mahler e a OSM



John Neschling ensaia Mahler com a OSM: condução mágica 




Mahler morreu em 1911. Sua obra permaneceu então escondida em um escaninho onde só os gigantes como Bruno Walter, Furtwangler, Klemperer ou Toscanini, eventualmente sacavam uma ou outra peça. Só saiu de lá, definitivamente, no inicio dos anos 70, quando Lucchino Visconti valeu-se do adágio da quinta sinfonia para ilustrar a abertura de seu filme Morte em Veneza, adaptação do romance de Thomas Mann.

Quase todos os grandes maestros passaram a ser obcecados por Mahler. Justa obsessão eu diria.

Cabe aqui uma observação pessoal, muito pessoal, se os meus leitores, bem poucos é verdade, me permitem. Nestes últimos três anos tenho acompanhado o trabalho do maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Há que se registrar o que ele fez com as partituras de Verdi, Aída, Falstaff, Otello, Il Trovatore. Também o esmero com que ele se dedicou a difícil Sinfonia Dramática de Respighi. Ou ainda a sua versão tonitroante e inquieta da Salomé de Richard Strauss. Inesquecível a suíte orquestral de Peter Grimes, de Benjamin Britten. Ou a Quinta Sinfonia de Shostakovitch. Entretanto, quando ele se debruça sobre Mahler, parece se transfigurar. É como se ele estivesse em Berlim em 1895.

O mais curioso é que este sentimento é percebido pelos músicos que se contagiam pela precisão dos movimentos do maestro e se entregam a leitura e a interpretação que a composição exige. Neste final de semana, 13 e 14 de fevereiro, Neschling chegou à perfeição regendo a segunda sinfonia de Mahler e elevou a Orquestra Sinfônica Municipal ao panteão das grandes orquestras sinfônicas do mundo.  Conduziu com firmeza o Coral Lírico e permitiu as duas cantoras brasileiras, a mezzo Lídia Schäffer e a soprano Camila Titinger, brilharem no ponto exato da partitura mahleriana.

Depois da primeira, da terceira, da quarta, da quinta e da nona, Neschling encarou o desafio de reger a segunda e mostrou que entre ele e Mahler há algo mais que uma partitura e uma orquestra. Para que não fique com gosto de pouco, este ano ainda teremos a raríssima sexta.


Não e qualquer cidade que tem um privilégio desses.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Brahms, Bruckner e as curvas da estrada de Santos

Depois de uma quarta de Brahms notável, onde o jovem Eduardo Strausser mostrou todo o seu talento e a Orquestra Sinfônica Municipal revelou porque John Neschling, seu titular, é um dos maiores regentes do mundo, desci a Serra do Mar com os ouvidos fixados na Nona Sinfonia de Anton Bruckner. O último trabalho sinfônico do compositor austríaco.

Já ouvi esta sinfonia incontáveis vezes. Tenho dois registros, o de Bruno Walter com a Columbia Symhony e o de Eugen Jochum com a Bavária. Sempre que os ouço, tenho a impressão que estou ouvindo pela primeira vez.

Trata-se de um trabalho marcante, ainda mais porque Bruckner, um humilde maestro-capela, adorador de Richard Wagner, decidiu espontaneamente não concluir sua composição. A exemplo do que seu conterrâneo Franz Schubert havia feito décadas atrás, quando imaginava compor sua nona sinfonia, quando na verdade compunha sua oitava, ele também justificou com a máxima que nona sinfonia, só a de Beethoven.



Bruckner: no final da vida escreveu três sinfonias que apontaram para o futuro




Bobagem ou não, esta nona inacabada de Bruckner em três movimentos é uma pancada. Acordes menores, apoiados por tubas wagnerianas na orquestração, o que acentua o início obscuro, para depois, em contraste, iluminar a partitura com um contraponto genial entre os trompetes, as trompas, os trombones e as cordas graves, sobretudo os contra-baixos.

A quarta de Brahms na leitura do jovem Strausser teve o dom de ressaltar o carater terminativo de um período histórico da música alemã, que começou com Beethoven e foi marcante com Schubert e Schumann. Era como se o compositor estivesse dizendo: “olha este é o máximo que podemos chegar. Agora é com vocês”.

De fato, na linha paralela o wagnerianismo corria solto. E o pós romantismo com Bruckner, Mahler, Richard Strauss mostrava um novo caminho.

Curiosamente, ainda que acometido por uma humildade artística e histórica impressionante, o que o relegou a um segundo plano, Bruckner viveu intensamente todos os movimentos musicais do século XIX. Nasceu em 1824 e faleceu em 1896. E sua obra mostra isso. Suas primeiras sinfonias mostram mesmo as contradições de um século generoso em termos de descobertas musicais. Nas três últimas, entretanto, a sétima, a oitava e a nona, ele marca uma transição sinfônica impressionante. Ao contrário de Brahms que disse chegamos até aqui, Bruckner diz: este é o futuro.


Há quem diga, e eu concordo, que os primeiros acordes do século XX são aqueles da clarinete no início da Salomé. Mas, para chegar lá, Richard Strauss teve por trás de si muita escola. Muito caminho percorrido.  

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

GIANNIIIIIIIIIIIIIII....... Addio!



Mais um dos grandes que vai para a eternidade: "Io ero Sandokan"






Droga! Sinto-me cada vez mais sozinho. Agora com a morte de Ettore Scola parece que um pedaço de mim morreu também. Genial a manifestação do grande Juan Campanella: “Obrigado Ettore, por ter mudado minha vida”.

Faço minhas as palavras dele.

Parece incrível que eu ainda me lembre da noite escura e chuvosa em que, um moleque besta como eu, desceu as escadas do antigo Cine Coral na rua Sete de Abril, para ver um estranho filme chamado “Nós que nos amávamos tanto”. Título engraçado pensei.

Quando eu sai do cinema, duas horas e algumas existências depois, eu não era mais o mesmo. Nunca mais seria. “Gianniiiiiiiii.....”

Assisti este filme mais de 50 vezes. Tenho uma cópia em DVD que deve estar até gasta. Nunca me canso. ...”E io ero Sandokan!”

Scola abriu a minha mente. Me ensinou que coisas sérias não precisam ser ditas com a tonitronicidade (xi, inventei isso agora, quer dizer de forma tonitroante) do Sinai. E sim com bom humor, humanidade e tolerância. Coisa que a esquerda latino-americana nunca aprendeu. Sempre se levaram muito a sério.

Dois outros títulos de Scola me impactaram sobremaneira. “Feios, sujos e malvados”, tranquilamente a melhor interpretação de Nino Manfredi. E o abismal “Um dia muito especial”, em que Marcello Mastroianni e Sophia Loren retratam angustia e ansiedade da forma mais realista que eu já vi. Só um gênio de outro planeta para fazer uma dona de casa, careta e fascista, estuprar um radialista, gay e comunista, no dia em que Adolf Hitler visitava Roma.

Já falei de três filmes fora de série, muito acima da média. Mas tem mais: “As aventuras do capitão Trovão”, que consagrou o grande Massimo Troisi. E uma bobagem, “Casanova e a Revolução”, fantasia sobre a fuga de Paris do famoso galanteador veneziano, decadente e impotente, vivido por Mastroianni e co-estrelada por ninguém menos que Hanna Schygulla.

Estes cinco, como dizem os italianos, podem ser chamados de capo lavoro. Ao todo foram 40 filmes em uma carreira brilhante que termina com a homenagem prestada ao grande Federico Fellini, seu mestre e de nós todos, com o agradabilíssimo “Que estranho chamar-se Federico”.

Tenho certeza que gênios como Scola não desaparecem com a morte. O seu espírito, sua inteligência e sua sagacidade devem ter ido para um lugar especial onde já estão, o próprio Fellini, Monicelli, Pietro Germi, Pasolini, Visconti, entre outros.


E quando bateu na porta deste lugar, Ettore ouviu do outro lado: “Giannnnnnnni.........”

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Neschling e a OSM diante da sinfonia “intocável”





Neschling ensaia a OSM: quinta de Mahler reafirmou a evolução do conjunto 






Certa vez um jovem clarinetista prestava concurso para uma orquestra sulamericana. Quando chegou na prova de primeira leitura, ele constatou aterrado que a banca lhe dera um solo, pequeno é verdade, de uma sinfonia de Mahler. O rapaz simplesmente guardou o instrumento no estojo, agradeceu a banca e se retirou.

A fama de Mahler ser intocável persegue o compositor desde que ele iniciou a composição de suas sinfonias. Durante os ensaios da quinta, por exemplo, considerada a mais difícil delas, os músicos da Orquestra Filarmônica de Viena empreenderam uma rebelião, que culminou com uma greve de 36 dias. Uma bobagem!

Mahler além de ser uma espécie de virtuosi da composição, ainda era um regente exigentíssimo. Impunha ensaios de 12 e até 14 horas. Repetia uma passagem mais de 20 vezes, até que se sentisse reconfortado com os sons obtidos.

Esta dificuldade em interpretar Mahler foi responsável pelo ostracismo que as obras do compositor viveram entre os anos 40, até meados dos anos 70. Exceção a Bruno Walter, seu pupilo, poucos maestros se aventuravam a encarar suas partituras.

Curiosamente foi o cinema que trouxe Mahler de volta a ribalta. Lucchino Visconti, um melômano juramentado, imaginou a cena inicial de Morte em Veneza, quando uma gôndola preguiçosamente balança até alcançar a praça São Marcos, inteiramente sob o som do Adágio da Quinta Sinfonia. Ele já fizera algo parecido em outros filmes, quando usou a música de Bruckner, sem nenhum resultado prático. Desta vez, não.

Quem diria, Gustav Mahler, 60 anos depois da sua morte, se tornaria pop. A indústria fonográfica viu ali uma grande oportunidade comercial. E logo todos os selos passaram a lançar a íntegra de suas sinfonias. Karajan gravou, Solti gravou, Bernestein gravou, Haitink gravou, a Columbia relançou as gravações de Bruno Walter com a Nova York, com a Columbia Orchestra e com a Viena. E não foram só as sinfonias. Todos os ciclos de canções incluindo a magistral Canção da Terra.

Todos os grandes maestros e outros nem tão grandes dedicaram-se a executar Mahler. Os resultados foram bastante heterodoxos. Para dizer o mínimo.

Tive o privilégio de acompanhar o maestro John Neschling diante da Sinfônica Municipal em ensaio da “diabólica” quinta sinfonia.

Neschling e Mahler tem muito a ver. Vi o maestro brasileiro brilhar na 1ª,3ª, 4ª e 9ª. Não foi diferente na quinta. Impressiona a forma como ele lê a partitura valorizando os detalhes mágicos de cada melodia, de cada acorde, de cada entrada.

Foi impressionante constatar o que aconteceu com a Orquestra Sinfônica Municipal nestes três anos em que Neschling está à frente do nosso conjunto orquestral. Mesmo diante de uma partitura considerada dificílima, eles responderam com perfeição, brilho e talento.


Em fevereiro, Neschling rege a OSM na segunda sinfonia, chamada Ressureição. Com ela fica completo o ciclo de sinfonias baseadas nas canções Das Knaben Wunderhorn. Ficarão faltando a sexta, a sétima e a monumental oitava, chamada a Sinfonia dos Mil. Mahler era louco mesmo. Compôs uma sinfonia para duas orquestras, quatro coros e seis solistas. Uma maravilhosa loucura.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015


O Aedes Aegipti: vilão de doenças, legado que os portugueses trouxeram da Africa






Houve um tempo em que as crianças iam para cama, ajoelhavam-se antes de dormir e pediam ao papai do céu que zelasse para que os malucos da Casa Branca, em Washington, ou do Kremlin, em Moscou, não acabassem com o mundo e a humanidade em algum surto de madrugada.  Foram tempos duros que começaram no dia que os americanos explodiram as duas bombas no Japão em Hiroshima e Nagasaki, 6 de agosto de 1945.

Esta neurose acabou nos anos 90, quando enfim o Muro de Berlim foi para o chão e a chamada Guerra Fria, ocidente-oriente, leste-oeste, capitalistas-comunistas, azuis-vermelhos, acabou.

Pessoalmente sempre achei que a humanidade era uma construção extremamente elaborada para que um maluco acabasse com tudo ao apertar um botão. Mas, acho que o mundo pode acabar de forma muito mais prosaica, por conta de um mosquito como o Aedes Aegypti ou uma maldita pulga de um rato.

O Aedes é um inimigo antigo do Brasil e do mundo.  Ele foi responsável, por exemplo, pela epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro no início do século XX. Este ser infeliz chegou ao país no século XVII, provavelmente em navios negreiros, que, claro, vinham da África. Mais uma herança genial dos portugueses. As vezes acho que o terremoto de 2 de novembro de 1755, foi pouco pela desgraça que os lusitanos impuseram ao mundo.

Os primeiros casos de febre amarela surgiram em 1685 no Recife e, em 1692, em Salvador. Entre 1849 e 1850 surgiu a primeira grande epidemia, que atingiu quase todo o pais.

No final do século XIX um cientista cubano, Carlos Juan Finlay descobriu que a porcaria da febre amarela era transmitida pelo Aedes Aegypti . Não tinha nada a ver com o clima, o solo ou os ares. Entre 1880 e 1889 o aedes vitimou com a febre amarela 9.376 pessoas.

Oswaldo Cruz: brigadas sanitaristas
O sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz conhecia o trabalho do dr.Finlay e sabia que o presidente Rodrigues Alves havia perdido um filho para a febre amarela. Por isso não foi muito difícil convence-lo de que o combate sem quartel ao mosquito era a única forma de livrar o Rio de Janeiro da febre amarela.

Nomeado diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, o sanitarista paulista criou as brigadas do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, formada por sanitaristas, que não tinham nenhum prurido em invadir residências e propriedades privadas para atacar os focos do Aede Aegypti. Lavavam caixas d’água, jogavam inseticida em ralos e bueiros, limpavam telhados e calhas, instalavam redes de proteção. E se encontrassem alguém doente ou contaminado pela doença processavam imediatamente o seu isolamento.

Foi uma gritaria danada. Mas, o danado do Aedes foi para o espaço. O Rio se livrou da febre amarela. Mas, Oswaldo Cruz ainda teve que lidar com a varíola e com gripe espanhola, que vitimaram milhares de brasileiros. Em tempo: o presidente Rodrigues Alves tombaria morto,  vítima da gripe espanhola.

O Aedes voltaria apenas nos anos 80. Este desgraçado é o responsável pela dengue. E agora pela chicungunha e pelo zika vírus, que entre outras coisas, provoca má formação de cérebros, a chamada microcefalia, e a Síndrome de Guillan Barret, uma estranha doença que simplesmente liquida com as membranas que delimitam as células musculares.  Uma beleza!


Rodrigues Alves: vítima da gripe espanhola
São Paulo deve ter no próximo ano, segundo cálculos baratos, mais de 150 mil casos de dengue. Há focos do maldito mosquito em toda a cidade. Cerca de 80% deles dentro do ambiente residencial.  Ou seja, se cada morador tiver um mínimo de bom senso e seguir as normas mais que conhecidas: não deixar água parada, cobrir reservatórios, cuidar de vasos, plantas e flores, pneus abandonados, calhas, etc... A gente acaba com o maldito.

Não vai acontecer. Tem gente que se nega inclusive a permitir que os agentes sanitários entrem nas casas para verificar. Tem gente que apesar dos mais de 100 ecopontos, prefere jogar lixo na rua. São Paulo gasta mais de R$ 1 bilhão por ano apenas para varrição de vias públicas (!!!!!!!!) Absurdo total.


Como as crianças do tempo da guerra-fria, agora é rezar para o inverno chegar logo e rigoroso. A única coisa que acaba com este infeliz é uma sequencia de cinco dias com temperaturas abaixo dos 15 graus centígrados. Foi o inverno rigoroso de tempos de antanho que manteve São Paulo longe da febre amarela.            

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sobre baleias, jornalistas, maestros e destinos


Ahab, senhor do convés do Pequod: É uma baleia branca, homens





“Há um deus no firmamento e um capitão no convés do Pequod!”

A frase evidentemente é do romance clássico Moby Dick, de Herman Melville, e surge no momento em que o imediato Starbuck, convencido da loucura do capitão Ahab, tenta convencer os oficiais do baleeiro que aquela aventura ensandecida atrás da baleia branca resultaria na morte de todos.

Curiosamente quando Ahab sucumbe amarrado a própria baleia, quem dá o comando de ataque a Moby Dick, para surpresa de todos, é o próprio Starbuck. Questionado ele lança mão de um argumento pragmático ao extremo: “É apenas uma baleia, uma baleia branca, gigantesca, mas uma baleia. E nós somos baleeiros. Só existimos porque caçamos baleias”...

Fico imaginando nos meus delírios, o que aconteceria se Starbuck convencesse os outros imediatos a destituir Ahab do comando do Pequod e abandonado a corrida contra Moby Dick. O baleeiro teria voltado para a Nova Inglaterra abarrotado de óleo. Os marinheiros imediatamente processariam as viúvas, donas do navio e seus administradores quakers,  por assédio moral do capitão. Afinal, como se definiria aquela cena louca no meio da tempestade em pleno Oceano Índico, quando o capitão para incitar seus marinheiros a navegar, simplesmente agarrou o fogo de San Thelmo.

Alguém poderia trocar o convés do Pequod pelo palco de um teatro de concerto. E logo a frase de Melville ficaria assim: “Há um deus no firmamento e um maestro no pódio”.

E isso me remete a Arturo Toscanini.

Me corrige o maestro Neschling com propriedade. No caso de Toscanini o conceito é ainda mais radical: "Pode haver um único deus no firmamento, mas com certeza há um único maestro no pódio".  

Imagino o volume de ações que o genial maestro italiano teria que responder por assédio moral. Afinal, ensaios de 12, 14 horas.

Mas, poderia ser o contrário.

- Senhores, esta passagem do compasso 35 ao 60 não me sensibilizou. Que tal repeti-la? – diria o maestro.

- Olha maestro, para nós está muito boa. O senhor com esta mania de procurar a perfeição nos obriga a repetição, o que atenta contra a nossa conduta profissional.

Devo muito do que sei hoje ao que aprendi do mestre Mino Carta. E se alguém acha, ou não acha coisa nenhuma, prevalece sempre a máxima: “Há um deus no firmamento e um único chefe de redação”.

- Olha jovem, de tanto talento e formosura, este texto está confuso. Você não acha que falta um lead? Talvez um approach mais apropriado? E estas fontes que você cita, não deveriam ser mais qualificadas? Reflita sobre isso e me entregue um novo texto amanhã.

Não é assim que funciona. Ahab pregou um dobrão espanhol no mastro que premiaria o primeiro marinheiro que avistasse a baleia branca. Era mais ou menos como o Mino fazia antes de sairmos da redação: “Its a white wale, man!”

Meu compadre Bastião, o jornalista Tão Gomes Pinto, além de mestre, amigo, ensinava jornalismo nos pequenos e nos grandes gestos. Era uma espécie de Starbuck fiel.

Certa vez, no meio de um fechamento brigado, quer dizer quando a luta por espaço no espelho da revista faria uma trincheira da Grande Guerra virar um local de picnic, ele mandou seus repórteres jantarem o maldito arroz com linguiça e ovo, enquanto deliberava o que iria fazer. Na volta colocou todos nós no entorno da sua mesa. Uma bobagem:  José Meirelles Passos, Otávio Pena Branca Ribeiro, Caco Barcelos e eu. Tínhamos apurado sobre uma rebelião na Casa de Detenção e tínhamos dados suficientes para escrever um livro cada um.

- Muito bem senhores, temos seis páginas, não mais e temos que publicar várias fotos. Vou começar a escrever o lead e depois cada um de vocês será chamado a dar informações.

“E o Metrô sequer diminuiu sua velocidade. Passava ligeiro enquanto embaixo da estação Carandiru, 15 detentos faziam a direção do presídio e mais seis convidados reféns de uma rebelião”.  Assim o bom Tão começou e nós acabamos.

Roberto Stuckert o grande fotógrafo de Brasília certa vez me disse que eu era mau. Ou seja, fazia o pessoal que trabalhava comigo sofrer muito. Nunca havia me dado conta disso.

Uma vez ao chegar na redação disse a uma estagiária que não fosse embora antes de falar comigo. A menina foi parar na enfermaria.

De outra vez, minha editora teve que sair mais cedo por qualquer motivo e eu mandei um recado para dois focas, que eles deveriam fechar comigo. Os dois entraram na sala tremendo como varas verdes e soando a píncaros. Depois se habituaram, hoje os dois estão na grande mídia e brilham nas páginas. Em tempo: e são meus amigos.

Aprendi com meus mestres, duros mestres, que a melhor forma de alcançar o melhor resultado é ensinando. Foi assim comigo e tive o privilégio de ensinar os filhos do Tão, do Mino e do Caraballo. Sinal que eu fui um bom aluno.

Acho que de um jeito ou de outro, todos estamos no convés do Pequod, com os olhos no mar em busca da baleia branca. Diante de nós o implacável capitão Ahab, obcecado pelo destino, não só dele como o de todos nós. Quem leu, sabe como Melville acabou o romance. E aí somos todos Ishmael. Sobrevivemos para poder contar esta história.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Puxa! Bem que o final podia ser outro



Colin Firth e Emily Blunt: brilhantes como rea a tradição britânica de atores




As vezes a surpresa vem por acaso. Numa noite tensa a gente descobre um filme de título não inspirador “Meus Anos Incríveis”. Na verdade o filme se chama “Arthur Newman”. Com um par de atores britânicos que para dizer o mínimo estão arrebentando a boca do balão: Emily Blunt e Colin Firth. A tv a cabo, principalmente estes pacotes gratuitos tipo Telecine Play, tem a vantagem de permitir arrependimentos e até adiamentos.
O roteiro de Beck Johnston é bastante animador: um cara que pretende largar a vida anônima de alto executivo do Federal Express em Orlando-Flórida, onde segundo ele mesmo dirigia um andar, as lembranças ou lambanças de um casamento que se desfez; um filho que o considerava um chato renomado; a namorada bancária cuja maior tarefa na vida era conferir os extratos dos depositantes. Para tanto, ele engedra o sonho recorrente de qualquer mortal, ganhar uma segunda chance. Matar, literalmente, a existência atual e abraçar outra, novinha em folha, ou no mínimo com pouco uso.
Não se trata digamos de uma sacada nova. Antonioni fez isso em Profissão Repórter, com Jack Nicholson e Maria Schneider; Pirandello escreveu o maravilhoso As Duas Vidas de Matias Pascal, que Mastroianni e Monicelli fizeram para a TV italiana.
Firth tem se revelado um ator brilhante. É bem verdade que tem filmado demais. Blunt é simplesmente divina. Honra a tradição britânica de atrizes competentes e desgraçadamente belas e sensuais.
As primeiras linhas de sua personalidade são interessantíssimas. Ela vai presa por roubar um carro de um caso eventual e se livra porque ameaça contar a esposa dele o que havia ocorrido. Como se não bastasse toma uma overdose de um xarope a base de morfina e vai parar em um hospital. Nosso herói, por sua vez, havia acabado de encenar a própria morte numa praia, havia arrumado documentos falsos com o nome de Arthur J. Newman e flanava livre, leve e solto, a bordo de um SL 280 conversível.
O roteiro neste momento transforma o filme num road-movie clássico. Ele busca o sonho de ser professor de golfe em uma academia na Carolina do Norte, acho, e ela o acompanha, até porque não tem coisa melhor a fazer. O embate do caretão chato e da descolada mundana é pincelado ainda com a transgressão conjunta de viverem personagens reais que encontram pelo caminho. Encenam a lua de mel de um casal de idosos que havia acabado de se casar e saído de férias, invadindo a casa vazia dos dois. Depois a relação de um fotógrafo e de uma modelo e assim por diante.
Neste momento, a capacidade interpretativa dos dois atores chega a ser impressionante. Mas, a medida que a história se desenvolve Johnston se vê numa encalacrada. Como chegar ao final. A narrativa é tão boa que eu confesso passei a temer pela conclusão.

Antonioni matou o jornalista que havia assumido a personalidade do traficante, apenas porque o novo personagem era jurado de morte. Pirandello condena Pascal a viver no anonimato em uma biblioteca provinciana do Veneto. A solução de Johnston é um desastre. Moralista e absurda. Não vou contar. Mas, pensem... Não pensem nada. Vejam o filme e me contem depois.