segunda-feira, 10 de março de 2014

VIVA VERDI!



A famosa cena dos ciganos e ferreiros no primeiro ato: abertura de temporada 



Eu tinha seis anos quando assisti a minha primeira ópera, estava com minha mãe, meu pai, meu bisavô, que na verdade era o segundo esposo da minha bisavó, a dona Ana, também presente. Foi uma matine no Municipal, e de lá das galerias, eu entendi as peripécias do duque de Mantua, do bufão Rigoletto e de sua filha assanhada Gilda.

Meu primeiro contato com a música de Giuseppe Verdi. E, consequentemente, brotou no meu coração de menino uma paixão avassaladora. Bela figlia del amore, o célebre octeto, a ária Cortigiani vil raza danata. Como alguém podia expressar com tanto vigor pela música o sentimento de personagens teatrais.

Sábado passado, 56 anos depois, meu dileto amigo e mestre John Neschling me transportou para o colo quente da minha mãe, o olhar carinhoso do meu pai e os sorrisos cúmplices de meus bisavós, ao ler de uma forma que eu jamais havia visto uma partitura de Verdi: desta vez a ópera subsequente ao Rigoletto, a trágica e dramática, Il Trovatore.

Mais do que a performance excepcional dos cantores, todos muito bem diga-se, mais do que a montagem de cena vertical impressionante, o que sobressaiu, mesmo, foi a música.

Foi uma noite memorável em que o maestro Neschling, mais uma vez, fez muita música. Boa música. Um Verdi limpo, claro, cristalino, com o destaque perfeito no solo dos instrumentos, com o vigor imprescindível nos acordes e nos tuttis. E com uma clareza rara no contraste dos andamentos, marca registrada do compositor.

Costuma-se dizer que as principais óperas de Verdi são: Rigoletto, Traviata, Aída, Othelo e Falstaff. Tá legal! Nem vou entrar nesta discussão idiota. Afinal sempre tive uma quase veneração pelo Trovador, que para alguns representa o adeus de Verdi ao bel-canto, a escola de Donizetti e Rossini.



Stuart Neill e Suzanne Branchini em Il Trovatore: montagem perfeita



















Acho que as óperas de Verdi conversam muito com o momento do compositor, com suas longas ondas de humor. Un Ballo in Maschera, Simon Boccanegra, I Vespri Siciliani, D.Carlos, etc... Merecem um catálogo histórico, mas ranqueá-las se não for inútil é absurdo.

Este Trovador que Neschling leva no Theatro Municipal de São Paulo, e que serviu para abrir a temporada lírica de 2014, com récitas ainda nos dias 11, 13,15,16,18, 20 e 22, é sem dúvida uma das mais perfeitas performances já vistas naquele palco. A direção cênica de Andrea de Rosa é bastante arrojada. A participação dos cantores espetacular. Na estréia, Marianne Cornetti, a mezzo soprano norte-americana, que interpreta a cigana Azucena, impressionou não só pela voz, mas pela forma como dominou a cena. O também americano tenor Stuart Neill e o barítono Alberto Gazale e a soprano Susanna Branchini, ambos italianos, estiveram muito bem.

Il Trovatore está inserida entre Rigoletto e La Traviata. Verdi a escreveu aos 40 anos, quando sorvia o sucesso de sua carreira de compositor. O libreto, adaptado da peça El Trovador de Antonio Garcia Gutierrez, foi escrito por Salvatore Cammarano, que faleceu um ano antes da estreia no Teatro Apolo de Roma, em 1853.

A despeito da dificuldade cênica e de passagens dificílimas na partitura, é uma das obras mais executadas de Verdi. Exige brutal intervenção do coro e aqui o maestro Bruno Greco Facio mostrou o que um trabalho sereno e profissional é capaz de provocar. Desafio alguém que viu me dizer que não se arrepiou com a sua participação.

Bem estamos só começando. Neschling já está ensaiando Falstaff, a única ópera cômica de Verdi, a última de suas criações, que teremos o privilégio de ver em abril. 

terça-feira, 4 de março de 2014

A busca da parceira perfeita


 Phoenix como Theodoro: paixão por uma voz de um sistema operacional








Vi Gravidade. É um bom filme. Nada de excepcional. Mas, mantém a atenção e Sandra Bullock consegue não estragar tudo. Talvez por isso, a Academia deu o Oscar de melhor diretor a Alfonso Cuáron. Vi também Ela. Opa! Aqui temos um trabalho ultra-interessante, impactante mesmo.

O Oscar de roteiro original foi merecidíssimo. Chama atenção a interpretação de Joaquin Phoenix. E, sobretudo, a de Scarlet Johansson, que interpreta um personagem extraordinário, uma voz.

Márcio Seixas, meu amigo, mestre e gênio das dublagens, este é um filme que vai fundir a cabeça de vocês.

Para quem não sabe, Márcio Seixas emprestou sua voz para diversos personagens da história do cinema. Sempre com profissionalismo e talento. É dele a voz na versão em português de 2001 Uma Odisseia no Espaço. Ele interpreta o super computador Hal 9000.

O filme de Spike Jonze éuma viagem dentro da solidão. A trama é simples. Um escritor de cartas manuscritas, divorciado, isolado no mundo, apaixona-se pela voz de um sistema operacional digital.

Atenção. Ainda que pareça improvável, vale a pena conferir os diálogos entre os dois personagens: Theodoro, vivido por Phoenix, e a voz de Johansson. Não é apenas a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia, como diz a peça promocional do filme.  É a busca do parceiro ou da parceira certa, da cumplicidade e da amizade intensa, segura e descompromissada.

Uma cena do filme sintetiza esta angústia de Theodoro e diria de quase toda a torcida do Flamengo. Ele se encontra em um bar com uma criatura. Os dois conversam longamente, encontram-se, aparentemente, em um mundo próprio. Saem do local aos beijos, a caminho de uma aventura sexual. A mulher, entretanto, questiona: “É para ser uma relação séria. Não tenho tempo a perder”.

Pois bem. Ela não perde tempo e cada um vai dormir em sua casa.

Em Blade Runner, o personagem vivido por Harrison Ford se apaixona por um androide. Na versão do diretor, Ridley Scott, entretanto, ele também é um humanoide e fica por isso mesmo. Aqui não.

Bem! Carnaval é uma época de absoluta mediocridade e de exposição sistemática dos semi-famosos. Acho que é assim desde a festa veneziana que deu origem a isso tudo, quando o lendário Giacomo Casanova respondia com gáudio a ansiedade feminina.  

A festa do Oscar, ainda que involuntariamente, entrou no ritmo. Que show chato! Pior ainda foi a discussão se Cuáron é mexicano ou Lupita Nyong’o  é queniana. E, vamos combinar, Bette Midler cantando em homenagem aos mortos do ano, chegou a ser insuportável.


A saideira dos festejos momescos é a eleição das melhores escolas do Rio e de São Paulo. Para mim, o carnavalesco do Vai-Vai já ganhou. Ter tirado um samba do enredo “Os 50 anos de emancipação da cidade de Paulínea” equivale a ordenhar uma pedra.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mau humor do mundo e a busca das origens

Toni Servillo, como Gap Gambardelli: filme de Sorrentino é uma pancada


Fim de semana de múltiplas apreensões. Enquanto a cidade – quem diria – dá vazão a sua verve carnavalesca com dezenas de blocos nas ruas, um grupelho de mil manifestantes, aparentemente contra a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil tumultua as ruas, depreda agências bancárias e o patrimônio público como lixeiras e orelhões.

O mundo está mesmo confuso. Reina um mau humor tremendo, uma inconformidade inexplicável. Na Venezuela, setores de classe média decidiram confrontar o governo do presidente Nicolas Maduro. Uma menininha a bordo de seus 17 ou 18 aninhos, loira como personagem de A Noviça Rebelde diz que não viu ou viveu o seu pais no passado. Mas, que ouvira de seus pais que era um país lindo (sic).

Lindo para quem¿

Não consigo, nem tenho a pretensão de entender o que se passa na Ucrânia. Mas, salta aos olhos que “as ruas”, como ocorreu na primavera árabe, inconformadas, reverteram decisões institucionais. Colocaram em xeque governos e governantes, etc, etc, etc....

Bem, a Primavera Árabe revelou-se um Inverno Árabe. É só ver o que aconteceu com o Egito.

Já-já vamos comemorar os 50 anos da Redentora. E até onde eu me lembro, a classe média também foi para as ruas para defender o país da ameaça comunista, com Deus pela Família e pela Propriedade.

Claro, a direita defende a balburdia no quintal dos outros: as manifestações em Caracas são legítimas. No Brasil, nem tanto. A esquerda faz o caminho contrário.

Recentemente, instado pela colega Joon, vi o filme de Paolo Sorrentino, A Grande Beleza. Candidato italiano ao Oscar de filme estrangeiro.

Não sei se Sorrentino tinha a intenção de explicar o mundo contemporâneo, ou apenas contar uma história. Mas, que pancada!

O personagem principal, um jornalista de 65 anos, de nome Gap Gambardelli, habitue das rodas da classe média romana, simplesmente destrói com uma ironia e um sarcasmo inigualável não só tudo ao seu redor como os últimos 50 anos da vida romana, vale dizer do mundo ocidental. Não sobra pedra sobre pedra.

Gambardelli, na minha opinião, é o mesmo personagem de Fellini em La Dolce Vita, em Oito e Meio e, em menor escala, em Cidade das Mulheres. Mas, agora, envelhecido, ele mostra o sexismo dos tempos atuais, o vazio dos discursos da classe média, a caricatura dos personagens vivos que estão ao nosso lado e o nada, absolutamente nada, que ressurge da reflexão neste mar de mediocridade do século XXI.

Alguns momentos são inesquecíveis: a atriz que se lança contra uma pedra e de rosto sangrando se dirige a plateia aos gritos de “Eu me odeio”. Mais tarde, confrontada pelo jornalista que queria entender a sua motivação diz: “Tenho uma vibração interior”.

Muito bem, diz o jornalista. Mas, que vibração é essa¿ Gambardelli insiste, mas não consegue arrancar um único suspiro racional.

Outro personagem notável é o cardeal que só consegue se expressar através de receitas culinárias, que ele recitava como um mantra.

E, finalmente, a mais hilária e comum de todas: a personagem burguesa que defende sua militância esquerdista e a publicação de diversos livros sobre o movimento operário italiano: “Stephania querida. Nós gostamos muito de você. E nunca confrontamos o seu desempenho progressista. Mas, vamos combinar que seus livros são ruins e que você só os publicou porque era amante do editor”.

Sorrrentino tirou meu sono. Não porque tenha feito uma revelação. Mas, porque organizou numa história ambientada no cenário mais bonito do mundo, a cidade de Roma, o desastre absoluto de um mundo de faz-de-conta, cujas referências se desmancham  a um simples sopro racional.

Gambardelli lembrou-me uma passagem curiosa que eu vivi em Helsinque, em meados dos anos 90. A capital da Finlândia é uma cidade fria, cinza, como de resto o país inteiro, parece uma maquete de trem elétrico, onde tudo funciona azeitadinho, direitinho. Um saco!
A única nota fora do diapasão era uma boate, que explodia durante a noite com a apresentação de uma bomba sexual chamada Anita, vendida como brasileira, cujas fotos difundidas por toda a cidade e todos os hotéis, mostravam uma negra escultural, de formas delirantes e generosas.  Decidi conferir os poderes da minha compatriota, até porque imaginei que poderia haver uma boa história ai.

De fato, a boate fervilhava. Havia uma ansiedade incontida no rosto de homens e mulheres que se aglomeravam no ambiente. Aquele sorriso cúmplice de quem estava rompendo a barreira do permitido e do proibido.

Por fim, depois de litros e litros de álcool e outras cositas mas, servidos nas mesas e nos balcões, apareceu a moça. Definitivamente linda. Suas formas não eram tão esculturais, nem tão generosas como a propaganda fazia crer. E sua performance não acrescentava nada que não pudesse ser visto num cabaré brasileiro qualquer.

A moça se esforçava e muito, com caras e bocas, e se enrolava naquele pau de sebo de uma maneira quase anti-natural.  Chegar até ela depois de duas de suas performances, quando a noite já acabava, não foi nada fácil. Mesmo tendo me identificado como jornalista italiano, o que o meu nome, para um gerente finlandês, era um atestado suficiente.

A tal Anita, num primeiro momento, em uma cena perfeitamente ensaiada, respondia em inglês atrás de um biombo em seu camarim, as obviedades previsíveis. Que havia nascido em uma favela no Rio, que a sensualidade era natural nas mulheres brasileiras e assim por diante.

Tinha a sensação de estar falando com uma máquina. Foi quando decidi perguntar em português: “Mas, que diabos uma negra carioca está fazendo aqui no fim-do-mundo¿”

Olhei para os seguranças que permaneciam à porta do camarim e eles continuavam impassíveis. O silêncio que vinha de trás do biombo era prenúncio de um desastre. De repente, o monstro brasileiro do sexo apareceu como se fosse uma criança surpreendida em sua traquinagem e me respondeu em espanhol: “Voce é brasileiro, não é¿”

A partir daí veio a história real: ela era caribenha, nunca tinha colocado os pés no Brasil, como tantas meninas, bem dotadas ou nem tão dotadas, havia deixado a terra natal para se prostituir na Europa. Um inglês louco havia tirado ela das ruas, criado um personagem para ela, treinado a sua performance, e desde então ela fazia muito sucesso no Bas-Fond de países nórdicos. Com os olhos cheios de lagrimas, ela me disse que depois do inferno das ruas, ela levava agora uma vida digamos menos atribulada. Ganhava muito dinheiro e dizia que o único equipamento que ela possuía era o próprio corpo, que usado de forma apropriada e apoiado em alguma campanha de marketing e muito diz-que-diz, trabalhava com a imaginação de homens e mulheres.

“Voce gostou da minha apresentação¿”

Gostei muito, respondi. Você é linda. Desculpe ter me metido na sua vida.

Sai da boate e fui caminhando umas seis quadras até o hotel onde estava hospedado. Fazia muito frio, coisa de cinco graus abaixo de zero. Alguns flocos de neve pareciam pendurados no ar. Que diferença fazia o fato de Anita ter nascido em Trinidad ou no Rio. Nada disso interferiria na realidade de ninguém.

Muitos anos antes, tive meu momento de Gambardelli. Mas, só agora, depois de ver o filme de Sorrentino, ficou claro para mim que a resposta de tudo está na origem, nas raízes que nos alimentam.


Quanto ao mundo, vai se alimentar da ficção e dos factoides, e continuará mergulhado na sua própria mediocridade. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Eternamente Roma


A Fontana de Trevi ao meio dia: descrição imponente de Respighi






Meu querido avô postiço, mestre e arquiteto da minha personalidade, teria coçado os bigodes fartos e dito: “Mas seria preciso¿ Respighi não teria bastado¿”.

Tenho que admitir, o impacto do concerto de abertura da temporada 2014  da Orquestra Sinfônica Municipal, ontem, foi muito grande. Perturbador mesmo. Repassei cada compasso da tríade romana de Respighi e poucas vezes na minha modesta vida de apreciador de música, contemplei uma apresentação tão perfeita.

Que orgulho!

Um ano depois de catar os cacos do mais tradicional conjunto sinfônico da cidade, o maestro John Neschling derrubou o mito de que uma orquestra precisa de décadas para se afirmar, mas confirmou outro: liderança é tudo, como diria o grande regente Herman Scherchen, mestre de toda uma geração do passado.

Dos três poemas sinfônicos que Respighi escreveu para a Cidade Eterna confesso a minha predileção pelas Festas Romanas, o último a ser composto e o primeiro apresentado ontem. As dificuldades apostas no pentagrama, na orquestração, o contraste de ritmos, a exigência dos solos de trombone, trompa e, sobretudo, das madeiras estão entre as partituras mais complexas que eu conheço. E tudo isso resulta leve, envolvente e sedutor.

Minhas referências são as versões mágicas de George Schell e de Eugene Goosens. Neschling fez uma leitura fraseológica distinta. Segurou um pouco o andamento, marcou mais os compassos do Circus Maximus, e depois fez com que os acordes jorrassem naturalmente. Na parte central da peça permitiu que os solistas brilhassem sem jamais encobri-los. Respirou fundo para atacar a Epiphania e a orquestra atenta correspondeu. Acatou os comandos com precisão e enfrentou aquela loucura sinfônica com garbo e elegância.

Vô querido, foi perfeito. Você teria se orgulhado.

Nas fontes, sobretudo na descrição da Fontana de Trevi ao meio dia, as trompas deram um show ao arrancar o carro de Netuno no meio das águas. E os trompetes, mágicos, insistentes. Que beleza!

Finalmente os Pinheiros, a mais intimista das três, com  vento entre as suas folhas, a sombra, os pássaros e finalmente a marcha das hordas na via Appia.

A diferença deste concerto foi a apresentação de um espetáculo vídeo-cênico criado pelo grupo catalão La Fura dels Bals, com imagens selecionadas e captadas pelo fotógrafo francês Emmanuel Carlier. A ideia é induzir o público na compreensão da música e compor um espetáculo multi modal.

Este modelo foi apresentado em Caracalla e em outros teatros da Europa. A concepção de Carlier com La Fura sob a música de Respighi foi considerado um dos melhores espetáculos apresentados no ano passado. Ontem, dividiu opiniões.

Tá legal vô. Também acho que o Respighi não precisa disso. Nem o Orff, nem o Holst e muito menos o Richard Strauss. Mas, vamos combinar: o teatro estava lotado. Os ingressos para o concerto de hoje estão esgotados e teremos que fazer uma apresentação extra na terça. E é só o começo da temporada. Estamos todos ansiosos pela 4ª. Sinfonia de Mahler, sem La Fura.

A nossa orquestra vô está, como dizem os gaúchos, nos trinques.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Acendam a luz, por favor!










- Alo, alo, alguém me ouve¿ Ola, ola, tem alguém ai¿

Em meio ao nada. Perdido no espaço, sem referência conhecida. Apenas com um celular nas mãos, cuja luz é a única que lhe ilumina o rosto.

Parece uma cena de Brecht e não faltariam uns acordes dissonantes de Kurt Weill, no fosso. Consigo ouvir até o trinado irritante do trompete abafado.

O non sense e a solidão serão mesmo as marcas do milênio¿ As vezes fico imaginando se os portentosos avanços tecnológicos, sobretudo da revolução digital, não impuseram um padrão de convivência insuportável. A privacidade foi para o ralo. A infovia abriga hoje todo o exibicionismo e demais desequilíbrios psicológicos de comportamento possíveis.

Outro dia me deparei com uma situação rigorosamente inusitada. Levantei o telefone para corrigir uma informação, cuja fonte era eu mesmo. Ouvi do outro lado: “Legal, mas você pode me mandar um email¿”

Ontem, no sentido contrário ao que eu estou dizendo, um órgão do Judiciário distribuiu um press-release no qual lamentava e denunciava a ausência de representantes da Prefeitura, do Governo do Estado e da União, em audiência pública onde se pretendia discutir o tema crack. Zelosa, a assessoria de imprensa deu-se ao trabalho de anexar a ata do encontro.

Qual não foi a minha surpresa ao constatar que secretários do Estado e do Município não só haviam assinado a ata, como registraram intervenções importantes no debate.

Questionado, o órgão saiu-se com essa: “O procurador mantém as informações porque estes secretários não apresentaram uma procuração que os autorizassem a falar em nome do prefeito ou do governador”.

Por favor não riam. É engraçado, mas é dramático.

Ninguém lê mais nada. Ainda ontem um repórter de um importante jornal da cidade publicou um título equivocado sobre declaração do prefeito. Preparei-me com todos os argumentos possíveis para derrubar a chamada. Do outro lado da linha me atendeu o editor. Chamei a atenção dele para o equívoco estampado no portal. Ouvi do outro lado: “Você tem razão. Não tinha lido o título”.

Como assim¿

Gostaria muito de acreditar que há de fato uma grande conspiração contra tudo e contra todos. Não há. O que existe é uma onda, um tsunami de mediocridade, um sentimento desesperador de solidão, uma falta de referência e um sem sentido nas coisas. Um desejo incontido de ser protagonista de alguma coisa, ainda que por alguns segundos.

E o ridículo¿


Isso não existe mais. As pessoas perderam esta noção. Perderam a vergonha.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

E a burguesia virou o ano sem tomar banho!


Queima de fogos na Brava: 2014 chegou sem água


Salve 2014! 2013 se despediu da forma que se desenvolveu, imprevisível. Aqui em Florianópolis por volta das 20 horas despencou um pé d’água de respeito. E como de costume, não faltaram raios e relâmpagos para atemorizar a todos. Pobres dos meus anfitriões, Ítalo e Ivone, que perderam três computadores, o roteador da rede de internet, de televisão a cabo e o alarme da pousada.

Claro que a Celesc, a empresa de distribuição de energia, como sempre acontece, mandou avisar que não tinha nada a ver com nada. O bicho vai pegar na segunda-feira, dia 6, porque o festival de raios  praticamente deixou toda a praia Brava sem água. Um deles fez o favor de destruir a bomba d’água que abastece todos os condomínios. Dá para imaginar, juízes, desembargadores, deputados, gente sofrida que pagou com o suor do rosto, seus apartamentos de luxo na mais badalada praia da Ilha de Santa Catarina, comemorando o revellion sem tomar banho¿

Em plena madrugada do dia 1º. , era grande o fluxo de caminhões-pipa. Mas, a esta altura a festa de 2014 já ia alta.

Foi divertido. Os fogos estavam lindos. A praia apinhada de gente. Minha companheira, Rejane, como sempre, não abriu mão de subir na cadeira na passagem, e de pular as setes ondas. É um ritual meio sem sentido, mas bem divertido. Havíamos ceiado uma bela anchova marisqueira, um dos meus modestos cuscuz caiçara, receita que herdei de minha mãe, que aliás nos deixou neste ano que passou.

Meu irmão André ligou um pouco antes. Disse que se sentia como em meio a um êxodo de tutsis, no Congo. Tal era o volume de gente na Praia Grande, em São Paulo.

Nós aqui também não estamos diferentes. Demorei mais de três horas quando cheguei no dia 28 para percorrer os 40 quilômetros entre a velha ponte Hercílio Luz e a Praia Brava. Aliás, as praias mais badaladas, tipo Daniela ou Barra da Lagoa, estão tão lotadas que se estuda a distribuição de senhas. Número 35, quatro pessoas, pode se instalar naquele guarda-sol junto das pedras. Número 36, seis pessoas, atrás da barraca de bebidas.

Esta ilha já foi linda e calma. Isso antes da invasão de argentinos, gaúchos, paulistas e paranaenses. Nem a guerra da Tríplice Aliança reuniu um volume tão grande de depredadores. Um terreno de 600 metros quadrados na Lagoa da Conceição está a venda por parcos R$ 1,6 milhões de reais. Uma bobagem! Apartamentos com 150 metros quadrados superam US$ 1 milhão.

Bem, como dizem os catarinenses: “Se queres, queres, se não queres, dizzzzzzzzzz”.

Gosto daqui. Desta ilha carrego grandes lembranças. Nem mesmo uma segunda-feira com Vento Sul é capaz de me deprimir.

E também não me incomoda tanto o volume de gente que vem para cá compartilhar este paraíso. Dia 6, o pessoal começa a ir embora e a ilha volta para a tranquilidade dos ilhéus. Neste meio tempo, todo mundo ganha um dinheirinho e a vida segue.

Mas, um engenheiro de tráfego faria maravilhas por aqui. Todos os problemas se resumem ao controle dos cruzamentos. Nada mais.

Por falar nisso, qual é a lógica da tristemente famosa Serra do Cafezal¿ Se alguém souber, por favor não me responda. É óbvio que a sua duplicação, a passos de cágado, deveria estar pronta antes do verão. Agora dividi-la ao meio, com duas pistas que descem e se transformam em uma e duas que sobem e igualmente se afunilam, é de uma imbecilidade campeã. Não seria muito mais eficiente colocar uma fila indiana nos dois sentidos nos 30 quilômetros da estrada¿

Desde tempos imemoriais que eu digo e repito: a ligação do Sudeste com o Sul não pode ser feita apenas pela Régis Bittencourt. Não há estrada que dê conta. São centenas de carretas com dez eixos, mais o tráfego local, mais os turistas, mais os ônibus. Uma insanidade! A região entre Juquitiba e Miracatu é ambientalmente preservada. Mas, nada impede que se faça uma ligação, pelo menos entre Sorocaba e Jacupiranga ou até Curitiba mesmo.

Neste primeiro dia do ano, aqui em Florianópolis, a chuva veio inclemente. Todo mundo já saiu das praias, ficou horas no congestionamento, mas já voltou para seus hotéis, casas, pousadas e assemelhados. Consigo ouvir o som da água batendo nas folhas e com algum esforço o quebra-mar da Brava.

Outro dia, meu chefe disse que se ele é um D.Quixote, eu sou o Sancho Pança. E que vamos juntos nessa até o fim. Não me incomoda o papel de armeiro do cavaleiro louco de La Mancha. Mas, prefiro outra visão: a do sonhador rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. E nesta loucura, prefiro mesmo o papel do mago Merlin.

2013 foi duro. Difícil. Cheio de barreiras que pareciam intransponíveis. Marcado pela ansiedade e pela incompreensão. Mas, mesmo sabendo como seria, eu jamais deixaria de vive-lo com a mesma intensidade, no papel do rechonchudo armeiro espanhol ou no do velho mago sonhador inglês.


Feliz 2014 para todos.   

domingo, 15 de dezembro de 2013

Liberdade ou libertação?




Nina, 15, graduada: dilema de uma geração em busca de afirmação






Taí uma discussão que não tem fim: qual é o limite da liberdade e do libertário¿

Fui criado e desenvolvi um conceito primário de que os limites da liberdade estão nela mesma. Ou seja, a liberdade de um cidadão acaba onde começa a de outro. Ou ainda um conceito mais rudimentar de que a liberdade coletiva tem preponderância sobre aquela individual.

E o libertário¿ Como se ensina alguém a ser livre¿

Esta reflexão me assomou diante da cerimônia de formatura da minha filha mais nova, a Nina, que sabe Deus como, atingiu a graduação no ensino fundamental e ainda de quebra me descadeirou com um impressionante trabalho sobre O Alienista, de Machado de Assis. Foi o melhor presente de Natal que ela poderia ter me dado.

Minha filha é uma guerreira. Este ano ela enfrentou a mudança para São Paulo e recebeu um impacto tremendo com as manifestações de junho, que como um tsunami na mente das pessoas, sobretudo nos adolescentes, arrasou o bom senso e impôs a idéia estapafúrdia de que a democracia se faz pela via direta, nas ruas, e que nós dirigentes públicos, com mandato ou sem, somos seres desprovidos de qualquer compromisso social.

Muita gente boa, não só a minha filha, começaram a dar tratos a esta bobagem. Um amigo querido a quem respeito profundamente, chegou a me chamar a atenção para o fato de que as ruas estavam por indicar um novo caminho e que a juventude estava se manifestando. Bull shit!

Sem liderança, o caminho a ser trilhado é o da barbárie e da confusão, que só interessa as classes dominantes. Quem ensina isso é ninguém menos que Vladimir Ilitch Ulianov, o Lenin.

Tá legal. Graduação de ensino fundamental é muito mais uma babação de pais e avós do que qualquer outra coisa. Mas, se vamos fazê-la, é justo que a façamos direito. Não tive o privilégio da minha filha. Não me graduei no fundamental numa escola libertária. Lembro-me que ajudei na celebração da missa e depois todos nós vestidos com o uniforme habitual que nos havia acompanhado e torturado durante os longos quatro anos do ginásio, participamos da cerimônia de “colação de grau”, diante de nossos pais.

Foi a única que o velho Nunzio participou e me lembro vivamente que ele não cabia de tanto orgulho. O paraninfo da minha turma foi o professor Max, de Ciências. Um alemão que não falava português e ensinava em inglês. Como ele se entendeu com o papai que só falava italiano e se fazia entender como o Juó Bananieri, é um mistério.

Tá bom. Foi há muito tempo. Mais de meio século. Éramos pobres.

Mas, alguma coisa se perdeu não só na relação dos estudantes e de suas famílias com a escola. Como da própria escola em relação a sociedade e ao conhecimento. Se educar é formar cidadãos, há que se mostrar o norte e a responsabilidade do futuro. Rebeldia é saudável. Romper os paradigmas (desculpem pela expressão) da sociedade, também. Por outro lado, é bom saber por que, para quem e a quem interessa fazer isso. Caso contrário, a sociedade vai se conformar em 140 caracteres e um bando de gente defendendo uma utopia indefinida.

A família, a escola, e até a Igreja, porque não, cumprem o papel de organizar esta barafunda.