segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A magia de uma atriz que canta


Débora Duboc: atriz e cantora na peça "Sou toda Coração": noite de magia e música







Vamos começar definindo algumas verdades e alguns parâmetros: sou fã de carteirinha de Débora Duboc, destes de uivar para a lua na fila do gargarejo do teatro. Sempre vi nela a capacidade extraordinária de incorporar os personagens que representa. Isso e mais um raro aspecto bergmaniano, ou melhor, de estrelas bergamanianas como Bibi Vogel, por exemplo, de deflagar uma verdadeira batalha entre o interprete e o personagem. Desta guerra emerge sempre uma interpretação coerente, lúcida, teatralmente engajada.

Isto posto, a mãe do Theo e do Otto, também sempre me chamou a atenção pelo raro timbre de voz, um registro mediano entre a mezzo soprano e a contralto. Um vozeirão capaz de bambear os lustres. Ainda me lembro da primeira vez que a vi. No Teatro da Funarte em Brasília. Faz 20 anos, no mínimo, e algumas existências. Valente Débora. Sua primeira imposição no palco era a voz, como sempre compete as grandes estrelas. Sua fala era clara.

Isso me chamou muito a atenção. Lembro que comentei com a minha esposa, Rejane: “Esta menina, a esposa do Toni, daria uma excelente cantora”.

Alguns anos depois, para minha surpresa, ela montou um espetáculo dificílimo, com canções de Friederich Wiedekin, o fundador da escola de Munique. Foi o “Espírito da Terra”. Uma maravilha que felizmente me rendeu um CD que guardo com imenso carinho e gosto de ouvir quando a mordacidade e a ironia são chamadas para aplacar o meu desespero com a existência. Pois é. Aí a voz da Débora vira a de um anjo. Um anjo meio bravo a me chamar a atenção: “Galateia......”

Compartilho com a minha estrela a paixão por Pirandello. Pelos textos mais esculturais. Pelo som das palavras. E tenho agora o privilégio de partilhar também a voz da interprete, da cantora diferenciada. Débora estrela o musical “Sou toda coração”. Uma joia pura de 22 canções que se tornam mágicas, recriam climas, projetam lembranças. De Domenico Modugno e Kurt Weill a Cazuza, Chico Buarque e Lamartine Babo; de Jards Macalé a Waldick Soriano.

Debbie, você está bárbara. Maravilhosa. Obrigado por uma noite de música e magia.

E aí vai o servição:
“Sou toda coração”
Quartas e quintas as 21 horas no Teatro Itália – Avenida Ipiranga, 344;
Ingressos: R$ 40,00 (20 na meia); grátis para professores e estudantes da Rede Pública, de verdade, com comprovação e tudo. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Wagner, limpo e puro



Duas cenas de Lohengrin: acima o anúncio da chegada do Rei, com o coro na posição
 de comentarista; abaixo a cena de duelo entre Frederico Telramund e Lohengrin.



Sem entrar na discussão burra que contrapõe o maestro Giuseppe Verdi e o maestro Richard Wagner, dois gênios absolutos da ópera e do drama lírico, é forçoso reconhecer, entretanto, que o gênio alemão tem um grau de exigência que transcende aos libretos propostos. Nada em Wagner é linear. O vilão nem sempre é vilão, como em O Holandês Voador, nem o herói é tão herói como em Tannhauser. Nem vou descer as minúcias da tetralogia, onde definitivamente nada é o que parece.

Wagner é um contador de histórias, cheias de conteúdo simbólico, e onde a orquestra e a consequente música por ela executada fazem parte definitiva da trama. Mesmo quando ele ainda ensaiava o que mais tarde seria o leitmotiv, como neste Lohengrin, que estreou no Theatro  Municipal ontem, quinta, dia 8.

O comando preciso de John Neschling com os concursos de Yannis Kounellis (cenografia) e Henning Brockaus (direção de cena) culminaram com um Wagner soberbo. Puro. Sem afetamentos. E permitiram aos cantores, o tenor croata  Tomislav Muzek, a soprano suíça, Marion Ammann, a mezzo Marianne Cornetti e ao baixo barítono islandês, Tómas Tómasson, brilharem unicamente pela beleza de suas vozes e pela capacidade de dar vida aos personagens que interpretavam.

Neschling por sua vez não deu trégua à orquestra. Exigiu as minúcias absolutas, sobretudo nos prelúdios do primeiro e terceiro ato e nos longos interlúdios orquestrais. E a brava Orquestra Sinfônica Municipal respondeu a altura. Soou com brilho e com musicalidade. O Coro Lírico Municipal foi muito bem preparado pelo maestro Bruno Facio, desde fevereiro, e serviu maravilhosamente ao papel duplo que lhe coube: o de comentarista das ações que se desenvolviam na trama e o de personagem na mesma trama.

Yannis Kounellis, o cenógrafo, é um dos fundadores do movimento Arte Povera, que prosperou na Itália, sobretudo nos anos 60, valendo-se de elementos muito simples e casuais para compor uma cenografia. Brockaus é discípulo da escola de Bertold Brecht, entusiasta do teatro mínimo. Sua concepção de Parsifal fez muito sucesso na Europa.

Lohengrin não é uma ópera fácil de ser encenada. Ela anda perigosamente no limite do kitsch e do mal gosto. Não é o caso. Em nenhum momento os diretores da versão paulistana perderam o controle da montagem. E a narrativa foi tão eficiente que houve um frisson no teatro quando da revelação do cavaleiro encantado.

Wagner já tinha concluído o seu Lohengrin quando teve de fugir para a Suiça depois de se envolver na revolução liberal de 1848. Aos 37 anos, arrancou até o último florim de Liszt para lhe entregar os manuscritos, que afinal serviram de base para a estréia em 28 de agosto de 1850, em Weimar. O compositor permanecia em Zurique e orientou o célebre maestro e professor húngaro por farta correspondência.

Foi a última das composições de Wagner ainda no modelo italiano de números. Com duetos, trios, quartetos, árias e coros. A partir daí ele mergulharia na tetralogia, no Tristão e Isolda, Mestres Cantores de Nuremberg e Parsifal. Todas consagradas ao drama lírico.

Este Lohengrin certamente fará história no Theatro Municipal de São Paulo. É uma das mais competentes montagens da gestão Neschling. 


O segundo elenco desta versão paulistana do Lohengrin de Richard Wagner conta com o concurso do jovem tenor russo Viktor Antipenko, da soprano americana Natalie Bergeron, da mezzo islandesa Johana Rusanen  e do baixo barítono alemão, Johmi Steinberg. A regência é do jovem maestro Eduardo Strauzzer, assistente de Neschling.
Primeiro elenco, dias 11, 15, 17 e 20;
Segundo elenco, dias 10, 13 e 18.
Aos domingos as 18 horas e nos outros dias as 20 horas.   

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mais um fim do mundo à vista


Seita americana diz que o mundo acaba amanhã: previsão é de um grande choque



Uma seita cristã americana refez os cálculos e chegou à conclusão de que o mundo, como o conhecemos, acaba amanhã. Quarta-feira dia 7.

A previsão anterior, 21 de maio de 2011, evidentemente não se concretizou. Mas, o líder da seita, Chris McCann, agora garante que não tem jeito mesmo. “O mundo se irá para sempre. Será aniquilido. E destruído pelo fogo”.

Há uma certa lógica nisso. Afinal, da outra  vez que o Todo-Poderoso se indignou com a humanidade, liquidou com tudo, ou quase tudo, na base de chuvas torrenciais que provocaram uma inundação total e aniquiladora. Desta vez, para que não pairem dúvidas, o melhor mesmo e torrar toda a humanidade e o planeta junto.

No passado, uma visionária missionária do Meio-Oeste americano também teve uma visão do fim do mundo. Obrigou a comunidade a cavar uma fortaleza nas montanhas, forrar tudo com chumbo. Ah! Sim, nessa visão o mundo acabava por força de uma reação nuclear. Na data aprazada, encheram o refúgio com comida até a tampa e levaram todos para dentro. Passados sete dias, os primeiros voluntários saíram para conferir os estragos provocados pela ira do Senhor. E, surpresa, constataram  que não havia acontecido nada.

Eu mesmo certa vez fui alvo de uma visionária. Uma tarde comum, quente, estava eu fechando a edição de IstoÉ, quando me avisaram que uma senhora fazia questão absoluta de falar comigo e só comigo. Arrumei uma sala e fui recebê-la, sem ter a menor idéia do que se tratava.

A senhora sem nenhum constrangimento, nem preparação logo me fuzilou com a sentença:

- Olha o mundo vai acabar no dia 23 de maio. Uma nave siriana vai pousar na Paulista e destruir todos os humanos. Não vai sobrar ninguém para contar a história.

Não havia ciclovia na Paulista e portanto os sirianos (para quem não sabe, habitantes da estrela Sirius) teriam todas as facilidade em estacionar a sua poderosa nave destruidora.

A convicção da mulher foi tanta que só me restou a pergunta:

- E o que a senhora espera que eu faça?

Nada. Mas, eu vim aqui porque o senhor foi escolhido entre os 50 humanos que sobreviverão à catástrofe.

- Puxa! Quanta honra. E por que eu?

A mulher gaguejou um pouco mas seguiu: “O senhor é muito conceituado no outro mundo”.

- Pois bem e como a senhora imagina resgatar estas 50 pessoas?

- No fundo do Lago Titicaca na fronteira entre o Peru e a Bolívia está submersa uma nave espacial, que foi colocada pelos sirianos quando estiveram aqui pela primeira vez, cujo objetivo é justamente dar continuidade a humanidade.

Claro que a pergunta que emergiu imediatamente na minha cabeça foi: “E como a senhora sabe disso?”

Não sei até agora porque eu perguntei, mas a resposta foi dramática.

- Eles falaram para mim.

- Eles? Quem? Os sirianos? A senhora fala com os sirianos?

Depois de ouvir as respostas afirmativas que eu temia, balancei a cabeça e disse para ela que sem os meus filhos eu não iria. Ela me pareceu inconformada.

- Mas, o senhor é fundamental no ressurgimento da humanidade.

- A senhora tem certeza que está falando com a pessoa certa? Eu não sou fundamental para coisa nenhuma. Não tenho nenhum prestígio e nunca vi um siriano nem em sonhos.

A mulher finalmente se deu conta que eu não acreditava na história dela e que, ainda que acreditasse, não iria pagar o mico de mergulhar no Lago Titicaca atrás de uma nave perdida e largada lá pelos sirianos há mais de dois mil anos. Acompanhei-a até a saída. E ela se despediu avisando que me ligaria uns dias antes de iniciar a jornada para a Cordilheira dos Andes.

Mas, nem todas as experiências míticas sobre o fim do mundo tiveram uma solução parecida com essa. Certa vez mandei a Kiki (que saudades!) entrevistar uma médium baiana que prestava serviços para o CENIPA, o órgão da FAB que investiga acidente aéreos.

Quando ela voltou, a médium veio junto, teria tremendas revelações a nos fazer.

Convidamos ela para almoçar no restaurante da revista Manchete, no Rio, onde eu era editor executivo.

- Olha eu queria dizer para vocês que tudo isso aqui vai ruir. Esta empresa vai acabar. Vai dar um calote genial em todo mundo. Seus donos vão fugir para os Estados Unidos.

Confesso que engasguei com aquela maldita feijoada koecher que o Jaquito fazia questão de servir as quartas-feira. Uma coisa insuportável.

- A senhora se deu ao trabalho de vir de Salvador aqui para nos dizer isso? Nós estamos carecas de saber que é isso mesmo o que vai acontecer.

O meu jeito peninsular as vezes não ajuda muito. Mesmo assim, a mulher me olhou com carinho, nem no fundo dos meus olhos, e sentenciou.

- Você não quer. Mas, vai voltar para Brasília. E ainda vai ficar um bom tempo lá. De quebra ainda vai ganhar mais um filho. Na verdade uma filha.


Foram 15 anos e a Nina de quebra. O mundo não acabou. A Manchete sim. Entre curvas, perspectivas e não-perspectivas, minha vida só mudaria mesmo em 2013.

domingo, 13 de setembro de 2015

Bem-vindo à ópera Fernando Meirelles








Montagem de Meireles para Bizet: um desafio bem resolvido




Caro amigo Fernando Meirelles, seja bem-vindo ao mundo da ópera.

Nesta altura do campeonato você já deve ter percebido que a linguagem operística é uma evolução da linguagem teatral. Para quem admitiu que só conhecia uma meia dúzia de árias, até que você foi bem demais.

É verdade que você enfrentou um desafio e tanto. Esta Pescadores de Pérolas, de Georges Bizet, não é uma obra qualquer.  Composta ainda na fase de maturação do compositor, que mais tarde se tornaria famoso pela Carmem, ela confronta claramente o modelo francês da segunda metade do século XIX. Não tem balé, não tem trios, quartetos ou quintetos. Tem muito coro, muita música, muito exotismo.

Duas ou três árias do trio de personagens centrais: Leila, Nadir e Zurga. Dois duetos, um masculino (Nadir e Zurga) e outro de amor (Leila e Nadir).

Os franceses do século XIX sempre apelaram para o exotismo. Meyerbeer, Massenet, Gounod,  Saint Saens e Delibes entre outros adoravam os grandes balés e os cenários exóticos, da Índia, do Ceilão e até de Madagascar. Bizet flertou com o perigo em sua primeira ópera ao aceitar musicar o libreto de Michel Carré e de Eugene Cormon, que trata de um triângulo amoroso em meio a uma comunidade brahmani de pescadores de pérolas do Sri Lanka. Apelou para os coros e para muita, mas muita música. 

E aí, amigo, dá para entender que você sentiu falta de um coral lírico mais preparado, de uma orquestra mais refinada e de um regente mais aplicado.

Por outro lado, você contou com um trio maravilhoso de cantores: Fernando Portari é de longe o melhor tenor brasileiro da atualidade, Camila Titinger é uma de nossas melhores promessas e Leonardo Neiva fez um Zurga primoroso. Verônica Julian teve o mérito de fazer figurinos desojados, como convém a pescadores. Tenho certeza que você também encontrou respaldo no trabalho de Gilberto Chaves e de Mauro Wrona.

Foi uma grande noite a da estréia. E aqui vale fazer uma referência ao Teatro da Paz, de Belém. Foi construído em 1870, quando nem a Capital, Rio, nem São Paulo possuíam teatros deste porte. Era a época da borracha, dinheiro não faltava. Por alguma razão, quando voltou da Itália, consagrado como um dos maiores compositores do verismo, Carlos Gomes foi exilado na capital da Província do Grão Pará.

A borracha minguou e o Teatro da Paz, que ganhou este nome para comemorar o fim da Guerra do Paraguai, caiu no mais absoluto ostracismo. Ressurgiu agora.
Fernando não recuse novos desafios como este. O mundo da ópera precisa de talentos como o seu. Seria ótimo que diretores brasileiros de cinema e de teatro criassem coragem para montar óperas no Brasil.

domingo, 30 de agosto de 2015

A volta triunfal da Siri ao Theatro Municipal





Maria José Siri no camarim: preparando-se para o primeiro ato




Mais uma estréia coroada de êxito. A Manon Lescaut de Puccini, a sexta produção deste ano do Theatro Municipal de São Paulo subiu ontem, sábado dia 29, e terá récitas ainda hoje, e nos dias 1, 3, 5, 6, 8 e 10 de setembro.

Trata-se de cara de uma produção marcada por dois gênios indiscutíveis da música e do teatro: o maestro John Neschling e a soprano uruguaia Maria José Siri. O profissionalismo dos dois impressiona de uma forma indelével e absoluta.

Neschling, veterano de tantas orquestras e de tantos teatros que dirigiu e formou, nunca esteve tão bem, como agora, à frente do Theatro Municipal de São Paulo e da Orquestra Sinfônica Municipal. Ele transmite segurança, competência e faz com que orquestra, coros e solistas entreguem o melhor.

Siri em Manon, primeiro ato: domínio perfeito da cena
Quanto a Maria José Siri, esta menina de olhos vivos e a força da personalidade charrua, quem a viu como Aída aqui mesmo em 2013, matou saudades de sua voz aveludada, firme, um instrumento perfeito. Como atriz esbanjou talento no difícil segundo ato e, sobretudo, no quarto. É bom que se registre: Manon Lescaut não é das óperas mais frequentes no Municipal de São Paulo. Siri foi antecedida, em 1928, pela mitológica Cláudia Muzio, e por uma pérola, em 1978, a delicada Gabriela Cigolea.

Que trio!

Manon Lescaut teve sua première no Brasil no Teatro São José, em 29 de agosto de 1893, com o mesmo elenco da estréia mundial em Turim, em fevereiro daquele ano. Em setembro de 1911 estava entre as óperas da primeira temporada do Theatro Municipal de São Paulo.   

A Manon de Puccini é a primeira das grandes óperas que transformou o gênio toscano no verdadeiro e principal herdeiro de Giuseppe Verdi. E é nos detalhes, tão caros ao verismo, que reside o perigo de sua montagem. Pode escapar a um diretor e até ao público, mais jamais a um perfeccionista como Neschling: o barítono brasileiro Paulo Szot, no papel do sargentão Lescaut, o Edmondo de Valentino Buzza e o Geronte de Saulo Javan e, sobretudo, a delicadeza com que a mezzo Malena Dayen fez um simplório músico no segundo ato, mostraram rigor e eficiência.


Siri em dois momentos: a futil do 2o. ato e a condenada do 3o.
Se Múzio foi acompanhada pelo não menos mitológico Beniamino Gigli e Cigolea pelo então flamante tenor argentino Nicola Martinucci, Siri teve como seu Des Grieux o tenor italiano, Marcello Giordani, estrela de ponta do Metropolitan de Nova York.    

Foi uma grande noite! Mais uma deste nosso teatro, que jamais viveu uma temporada igual em sua centenária existência. Não vai dar nem para respirar. Em outubro, o místico Lohengrin, de Richard Wagner e, depois, o humor e a picardia de Wolfgang Amadeus Mozart e sua Cosi fan tutti.





Siri brilhante: domínio da cena no 4o.ato foi brilhante 

sábado, 29 de agosto de 2015

Planalto em chamas



Soldados paranaenses de partida:defesa de território contestado


A semana foi marcada pela chegada da correspondência de meu amigo Paulo Ramos Derengoski, que me mandou seu último livro, A Sangrenta Guerra do Contestado, tema de obsessão dele, e de uma certa forma, meu também.

O texto apaixonado do Paulo me trouxe a reflexão as barbaridades perpetradas pelas elites brasileiras, sempre covardes, egoístas e prepotentes.

Outro amigo meu bastante ligado ao assunto, e que aliás anda sumido, é o cineasta paranaense Silvio Back, que rodou no passado até um longa-metragem sobre o assunto.

O Contestado tem elementos fantásticos de uma história verdadeira, dramática e reveladora. Batalhas de guerrilha e campais, cerco, romance, sedução, misticismo. Tudo isso em um dos cenários mais bonitos do país, o vale do rio do Peixe, em cuja margem direita começa a região contestada por Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Embora a questão fronteiriça fosse apenas periférica, ela é imperativa no início do conflito. Eternamente preocupados com a ameaça de uma aventura militar castelhana no Sul do país, os militares do Rio de Janeiro entenderam como fundamental a construção de uma estrada de ferro que ligasse São Paulo ao Rio Grande do Sul. Seria uma forma de deslocar tropas para a região da fronteira com velocidade.

O governo Prudente de Morais (1894-1898) decidiu então por uma negociata. Cedeu ao Sindicato Farcquar 15 quilômetros de terras em cada margem da ferrovia, que atravessaria o Paraná, cruzaria Santa Catarina pelo vale do rio do Peixe e desembocaria no Rio Grande do Sul. As terras catarinenses eram marcadas sobretudo pela existência de pinhais e madeirais centenários.

A ferrovia evidentemente foi traçada de forma a abarcar toda esta madeira. O Sindicato entre outras coisas logo instalou ali uma serraria, à época uma das maiores do mundo, chamada Lumbert.



Ataque de colonos: ferrovia era alvo da guerrilha
Claro, havia uns poucos diabos, posseiros e colonos, que viviam na região da lavoura de subsistência. A estas criaturas sobrou a expulsão e para os que resistiram se raspava a cabeça, colocava-se sal em suas bocas, e dá-lhe chibata.

Esta gente andou perambulando sem destino pelo Oeste do Estado, até que ouviram falar que na cidade de Curitibanos, mais precisamente em seus arredores, um monge arregimentava almas sofredoras e defendia o reino do Altíssimo.

O monge auto-batizado José Maria, seguia a tradição dos profetas que se multiplicavam pelo interior do país, a exemplo de Antônio Conselheiro, na Bahia, pregando um mundo novo e abjurando o novo regime, a República, que havia expulsado os colonos de suas terras.

Zé Maria não era um Conselheiro. Na verdade era um desertor da Força Pública do Paraná. Não queria saber de briga. Tanto que quando o governador de Santa Catarina, Hercílio Luz, mandou tropas do Estado para dispersar os colonos que se agrupavam em sua volta, não teve dúvidas. Juntou a todos e atravessou o rio do Peixe em direção as colinas do Irani.

O monge não tinha a menor idéia da encrenca que estava a criar. Ao atravessar o rio do Peixe entrou na região contestada pelos três estados. O Paraná queria sua fronteira no rio Canoas-Uruguai, o Rio Grande no Iguaçu e Santa Catarina queria chegar até o rio Paraná.

Para os paranaenses, liderados por um governador estúpido como Affonso Camargo, tratava-se da incursão de catarinenses em território do Paraná. Motivo mais do que suficiente para uma aventura militar. E, assim, dentro de um enredo que se mostraria macabro, armou um exército com canhões e metralhadoras austríacas para, como diziam na época, “trazer amarrados os invasores catarinenses para Curitiba”.

Os soldados foram confiados a um garboso oficial do exército brasileiro, comandante da Força Pública do Paraná, o coronel João Gualberto (nome de uma avenida em Curitiba). Partiram sob vivas e gritos embarcados nos trens da São Paulo-Rio Grande.

Ao chegar na região, o coronel mandou uma patrulha avançada propor a rendição a Zé Maria. Por alguma razão, o desertor da Força Pública do Paraná não aceitou. Ao contrário, arregimentou os colonos mais experientes. Alguns armados com velhos mosquetões, refugos da Guerra do Paraguai, outros com facas de madeira apropriadas apenas para quebrar a erva mate. Privilegiado pela questão geográfica, encastelou-se com duas linhas de defesa no alto da Serra do Irani. E decidiu esperar pelo ataque.

Na noite da vigília da batalha, sentados em torno de uma fogueira e sob um céu estrelado, Zé Maria profetizou que a batalha se daria embaixo de chuva, embora não houvesse uma única nuvem no céu. Ele e o coronel João Gualberto tombariam mortos. Mas, os colonos seriam vencedores. Ciente, agora, do equívoco que havia perpetrado, orientou seu exército a atravessar de volta o rio do Peixe para terras de Santa Catarina e se entrincheirar em uma localidade chamada Taquaruçu do Bom Sossego e aguardar, pois ele voltaria do além à frente do exército de São Sebastião para enfrentar as tropas invasoras e garantir um reino de felicidade para aquela pobre gente expulsa de suas terras.

Desgraça pouca é bobagem. O dia amanheceu sob tremendo aguaceiro. Os soldados paranaenses literalmente atolaram no barral. As metralhadoras engasgaram. Os colonos caíram sobre os soldados com uma fúria impressionante. Zé Maria e João Gualberto tombaram e os paranaenses foram repelidos.

Como o monge orientara, os colonos catarinenses atravessaram o rio do Peixe de volta para terras de Santa Catarina e construíram um reduto, formado por um quadrado de 40 quilômetros de lado no município de Campos Novos, onde a cabeça era Taquaruçu do Bom Sossego.


O enterro de João Gualberto: vítima dos colonos catarinenses
Em  Curitiba a euforia e os gritos entusiasmados da partida dos soldados foram substituídos pelo desespero das famílias quando o trem chegou transportando os corpos dos soldados mortos. Affonso Camargo, o governador genial, providenciou um enterro jamais visto na cidade para João Gualberto. E na borda do túmulo não se conteve e descreveu com detalhes como milhares de soldados paranaenses foram vítimas de um grupo de covardes colonos catarinenses.

A batalha do Irani ocorreu em outubro de 1912 e deu início a Guerra do Contestado que terminou quatro anos depois em 1916. Mais de 90% de todas as tropas do Exército brasileiro foram deslocadas para enfrentar os colonos e jagunços catarinenses. Um avião foi utilizado como arma de guerra pela primeira vez, muito antes das célebres batalhas da Primeira Guerra Mundial da Europa.


O primeiro aeroplano usado como arma militar
O presidente Cleveland, dos Estados Unidos, foi chamado a mediar o conflito de fronteiras no sul do país. Prevaleceu a tese sempre defendida pelos catarinenses, que ganharam sua fronteira com a Argentina. O esdrúxulo é que a divisa entre as cidades de Porto União (SC) e União da Vitória (PR) até hoje é a linha férrea da antiga São Paulo-Rio Grande. Como tributo a sua contribuição, o Estado do Paraná nomeou uma cidade da região Norte como Clevelândia.


Voltarei ao assunto no futuro. Parabéns Paulo pelo novo livro, realmente emocionante.