terça-feira, 16 de maio de 2017

O preço da verdade


Brizola de volta ao Brasil: Lula era agente da OIT




Escrevo ao som do concerto 1 para piano de Chopin, que acredito ser uma das peças musicais mais inspiradas que eu conheço. Um exercício de virtuosismo gigantesco. Mas, é claro que alguém pode dizer que se trata de um peça melosa demais, romântica demais, cheia de arpejos e acordes que remontam um contemplativismo ultrapassado. E, por que diabos, um italiano turrão como eu se embeveceria com o gênio polonês¿

Aprendi ao longo de 45 anos de profissão, 46 agora em maio, que jornalistas nunca são bem-vindos. Se forem, alguma coisa está errada. Não. Não somos donos da verdade. Mas, estamos cheios delas. E, invariavelmente, somos incômodos.

Certa vez, provoquei um desconforto danado porque relatei que dois dirigentes sindicais importantes tratavam de questões fundamentais para o movimento trabalhista e para o país, enquanto sorviam doses de conhaque português. Um Macieira, se não me engano.

Não inventei. Também tomei uma ou outra dose. E, confesso que esta informação não tinha nenhuma importância. Usei apenas para reportar que o ambiente era fraterno.

Ficaram ofendidos.  

Tive mestres extraordinários. Parceiros competentes. Formei mais de uma geração de jornalistas e repórteres. Sempre fui um divisor de água. Muita gente adorava trabalhar comigo, outros odiavam. Recebi muitas críticas pelo meu temperamento, pelo meu jeito de ser. Mas, nunca me acusaram, nem eu acusei, quem quer que seja de estar a serviço disso ou daquilo.

Nos períodos de transição entre um emprego e outro, várias vezes fui prejudicado por ser ideologicamente identificado com um lado da moeda. E outras tantas por ser identificado com o outro lado.

Fui acusado de ser corporativista por defender meus colegas. Sei que alguns deles são maus. Cruéis. Invejosos. Ciumentos. São humanos.

Fico revoltado quando presencio críticas infundadas contra repórteres que apenas estão cumprindo o dever de apurar informações e torna-las públicas. E que não raro são acusados de participar de notáveis conspirações. É cruel.

Conheço muitos repórteres que mesmo diante da constatação de que a informação base da sua reportagem é falsa, fazem vista grossa e aprofundam especulações e conclusões equivocadas. Dá um trabalho danado corrigir depois.

No papel de assessor de comunicação, defini duas verdades que norteiam o meu trabalho: 1) Existem dois tipos de notícias: as verdadeiras e as falsas. 2) No processo de comunicação é fundamental ter conteúdo e verdade. Fora disso, não tem salvação.

Minha vida seria muito mais confortável se a cada notícia desconfortável ou equivocada eu a atribuísse a uma notável conspiração. É muito mais difícil tentar entender o desconforto, ou admitir que o equívoco pode ter sido falha minha ou da assessoria, que não deu a importância devida ao repórter. Errou ao avaliar a sua importância ou subestimou o profissional.

Quando Brizola voltou ao Brasil, no dia 7 de setembro de 1979, eu ouvi ele dizer que Ulysses Guimarães servira aos militares e que Luís Inácio Lula da Silva era um agente da OIT. Ele foi questionado por suas declarações e reiterou-as. Estava embevecido pelo retorno, convencido de que iria mudar o país, entusiasmado pela recepção de seus conterrâneos. Sei lá. Mas, falou o que falou e repetiu.

Um tempo depois negou. E disse que tudo era uma conspiração do general Golbery. Tá legal, como diz o grande Elio Gaspari, é jogo jogado.

Outra coisa que me irrita é a fulanização da notícia. Tal repórter é mau intencionado. Admito que simpatias não são vendidas na rua 25 de março. Podem procurar à vontade. E isso é recíproco. Entrevistei gente que eu não tolerava e assessorei muitos que ou se imaginavam simpáticos e populares ou discriminados. O antídoto a isso é uma fórmula comum: educação, respeito e transparência. Nenhum repórter resiste a isso.

Arrogância, jactância e presunção normalmente acabam mal. Ainda me lembro de um episódio que eu vivi com a minha amiga Leila Suwwan, no MEC. Ela repórter de O Globo queria, e tinha este direito, uma entrevista com o responsável pela logística da primeira prova do Enem, aquela que foi roubada. O personagem em questão era um professor da Universidade Federal do Pará. Quando falei com ele, demonstrou confiança.

- Não quer repassar alguns pontos polêmicos, que ela com certeza vai lhe perguntar¿

- Não é preciso. Ela é apenas uma repórter.

- Professor, o senhor não acha que talvez a sua posição não seja tão sólida como queira transparecer¿

- Não.

Reportei o diálogo ao ministro Fernando Haddad, que me orientou: faça a entrevista na sua sala, fique ao lado dele, se ele está tão seguro, deixe falar.

Foi um dos maiores desastres que eu presenciei. Na terceira pergunta, o tal professor foi acometido de um acesso de tosse tremendo. Recolhido ao banheiro, providencialmente, me cobrou:

- Você não me avisou que as perguntas seriam tão específicas. Esta menina é mal intencionada!

- Como assim¿ Tudo que ela lhe perguntou é rigorosamente procedente. Se você não tem as respostas, a culpa é sua, não dela.

Mas, tem o outro lado também. Assessorava o então prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, em visita a Prefeitura de São Paulo.

- Dr.Macri há um exército de jornalistas que querem ouvi-lo¿

- Nunzio talvez não seja o caso.

- Como assim, o prefeito de uma das maiores capitais do mundo visita seu colega em São Paulo, isso é notícia.

Depois de muita insistência, ele concordou.

Primeira pergunta: “Como que um dirigente do River Plate se tornou prefeito de Buenos Aires e o que isso pode influir na sua gestão¿”

Entrevista nem começou; Macri saiu da sala. Me olhou com aquele olhar do tipo “eu te falei”.

Macri foi presidente do Boca Júniors.

Um ministro que eu assessorei, na verdade, consultei, ainda no Governo Sarney, certa vez me chamou em desespero:

- Tem uma matéria que vai sair no Globo amanhã e você tem que tirar.

- Como assim¿

- A matéria é ruim para o governo, é ruim para mim.

Quando eu me inteirei da reportagem, conclui que o ministro tinha razão. Ia lhe custar o cargo, na melhor das hipóteses.

- Mas, como esta repórter teve acesso a todas estas informações¿ Tem até um ping-pong com você confirmando tudo.

- Pois é. Fui tomar um uísque com ela no Piantella e me animei além da conta.

A matéria saiu. O ministro perdeu o emprego.

Outra notável foi uma manchete também do Globo: Metade dos estudantes estão abaixo da média das notas do Enem. Informação foi confirmada pelo INEP.

Não era uma barriga. Era um ventre inteiro de dinossauro.

Mas, o melhor ainda viria. Uma colega, muito querida, do UOL, me liga:

-Preciso repercutir a manchete do Globo. Quem no INEP pode falar sobre isso¿

- Meu Deus! Preste atenção. Se é uma média aritmética, é evidente que metade tem que estar abaixo e metade tem que estar acima.

- Não é bem assim. Falei com especialistas que me disseram que isso é um absurdo e que a eficiência e a credibilidade do Enem estão abaladas.

Pode parecer absurdo. Mas, tive que convocar uma entrevista coletiva com o Luiz Cláudio, então secretário de Ensino Superior, professor, doutor em Matemática, para dar uma aula sobre médias aritméticas.

No dia seguinte, pelo menos um grande jornal publicou: MEC confirma, metade dos alunos estão abaixo da média do ENEM.

A vida de repórter não é fácil. A de assessor de imprensa também não. Mas, certamente eu não iria querer outra vida. Entre “conspirações” e incompetências ainda confio e muito nos meus colegas. Aprendi e aprendo muito com eles.  


Em tempo, o concerto de Chopin já acabou, estou ouvindo agora o quinteto para clarinete de Mozart, o K.581, chamado Stadler. Uma obra prima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Minha diva predileta faz 90 anos


Leontyne Price: deusa dos palcos, deixou seu legado em várias gravações




Não há como negar que a indústria fonográfica facilitou, em muito, o surgimento no século XX dos grandes cantores de ópera. Sobretudo as divas. Maria Callas, Kirsten Flagstad, Cláudia Múzio, Joan Sutherland, Elizabeth Schwarpkof, Kathleen Ferrier, apenas para citar as mais famosas. E, em homenagem as minhas amigas Camila Tittinger e Maria José Siri, deusas do século XXI, quero falar sobre a minha soprano predileta, Leontyne Price. Uma senhora que em fevereiro passado completou 90 anos  de idade.

Nascida no Mississipi, ela estudou na Julliard School em Nova York e fez seu debut em palcos em 1950 como Alice Ford do Falstaff de Verdi, em uma montagem escolar. No ano seguinte, arrebentou a boca do balão com a criação de uma Bess impressionante e uma consagrada turnê pela Europa. A partir daí sua carreira decolou e ela começou a compor grandes personagens, com sua voz potente e sua absoluta presença de cena. Se apresentou no Alla Scala, no Convent Garden, em Berlim, Paris e Viena. Em Salzburgo compôs uma Donna Anna do D.Giovanni, inesquecível. E, finalmente, em 1960 estreou no Metropolitan como Lenora de Il Trovatore. E, se não bastasse, fez a primeira Cleópatra, em 1966, na première mundial de Antonius e Cleopatra, de Samuel Barber.

A primeira vez que eu a ouvi foi em um grupo de ouvintes de música, que se reunia um sábado por mês, para se deleitar com as novidades. Foi na década de 60 e era uma gravação em disco, se não me engano da DECCA britânica, de Il Trovatore ao vivo em Salzburgo. Herbert Karajan era o regente. Giuletta Simionatto, a contralto (ou meio-soprano) fazia Azucena, Franco Corelli (nos estertores) fazia Manrico e o grande barítono italiano Ettore Bastianini fazia o Conde Luna. Claro. Leontyne Price, esta negra maravilhosa, fazia Lenora.

Confesso que, embora os especialistas não a incluam entre as grandes obras do maestro Giuseppe Verdi, eu tenho uma fascinação enorme por esta ciganada. Toda a segunda cena do primeiro ato é muita, mas muita música. O segundo ato, por sua vez, é muito teatro, muito drama. Stride la vampa é uma narrativa de horror, impressionante. Não há quem não se arrepie. O Miserere do quarto ato e o desfecho da trama são impressionantes.

Verdi não poupa os quatro cantores principais. Arranca a pele e exige uma performance teatral imensa. Ele faria igual com o Otelo no final da carreira.

Pois bem. Na gravação, dava para perceber que Price teve uma aclamação enorme ao final do Tacea la notte plácida, ainda no primeiro ato. E isso em Salzburgo, um dos públicos mais exigentes do planeta. Eu ouvi a ária aterrado. Preso contra a parede. Era um novo padrão de cantora. Podia-se ver o seu desempenho teatral pela forma como abordava as notas.

Anos mais tarde ouvi a Aída que Leontyne Price gravara em estúdio em Roma, com o maestro Georg Solti, e com ninguém menos que Jon Vickers, o célebre tenor canadense, como Radamés. Confesso que tive a impressão que os dois criaram os personagens de uma forma que Verdi jamais sonharia. Tal a perfeição.

Em 1985, Leontyne Price abandonou os palcos. Nos deixou registrada a sua produção musical, tremenda, em várias gravações. Para mim, ela foi uma das maiores.      

sábado, 22 de abril de 2017

As efemérides históricas de abril

Luís de Camões: escrivão de Vasco da Gama

Tomas A.Gonzaga: ouvidor em Vila Rica

Cumpriu-se ontem a efeméride da Inconfidência Mineira, na data em que Joaquim José da Silva Xavier subiu ao patíbulo, 225 anos certo¿, e cumpre-se hoje a do achamento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral, 517 anos, com certeza.
O Joaquim José, chamado Tiradentes, virou figura mitológica apenas no primeiro período getulista. O culto patriótico do movimento, aliás, ganhou mesmo popularidade graças ao Estado Novo.
De fato, trata-se, os gaúchos que me perdoem, do mais importante movimento político em terras brasileiras. É bem verdade que o cabeça do movimento, Cláudio Manuel da Costa, era pupilo de Sebastião Carvalho, o Marques de Pombal, que naquele momento histórico experimentava grande ostracismo na corte de D.Maria I.
Thomas Antônio Gonzaga também. Aliás, os dois principais trabalhos literários do movimento são de autoria dele: as Cartas Chilenas e o monumental poema Marília de Dirceu.
Aliás, o romance dele com Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, representado no poema, é nas palavras de Manoel Bandeira, basilar no arcadismo lusitano.
O livro foi publicado em Lisboa no mesmo ano em que Thomas partiu para o exílio em Moçambique.
Há relatos confiáveis de que, anos mais tarde, Maria Doroteia, já casada com um oficial do exército colonial português, encontrou-se com Thomas em Angola. O poeta, sonhador, terminou seus dias casado com a filha de um escravocrata, de quem cuidava dos negócios, em Maputo. Triste fim. Seria melhor o patíbulo.
Bem. Engana-se quem acha que a população no Rio de Janeiro consternou-se com a execução do Tiradentes. Na verdade, os portugueses que habitavam e comandavam a colônia, preferiam mesmo viver sob jugo de Portugal. E mais. Em pagar um quinto de tudo que fosse produzido na colônia para a metrópole.
Quanto a Cabral. Trata-se de um fracassado assumido. Saiu de Lisboa no dia 9 de março, sem nunca antes ter navegado, com uma frota enorme de navios de guerra, com destino às Índias.
Não era uma expedição de descobrimento, muito menos de relações comerciais. Cabral assumiu a posição de Vasco da Gama, considerado naquele momento, tíbio pelo rei D.Sebastião, o mesmo que negou recursos para Colombo descobrir a América.
Cabral perdeu-se nas calmarias africanas e não fosse o continente americano estaria navegando até hoje em busca de um porto seguro.
Achou o Brasil, mandou seu escrivão Pero Vaz de Caminha escrever uma carta ao rei, comunicando o ocorrido, mandou Gaspar de Lemos de volta a Lisboa com a correspondência. E sem maiores consequências, seguiu viagem.
Sabe-se que na passagem do Cabo da Boa Esperança, metade de sua frota soçobrou e que seu escrivão pereceu. A carta desapareceu. Cabral voltou a Portugal com apenas três das treze caravelas com que partira, sem grandes resultados comerciais. O achamento do Brasil rendeu apenas duas expedições subsequentes, estas sim de descobrimento, comandadas por Americo Vespúccio, financiada por banqueiros florentinos, quase com certeza judeus, que não queriam saber de um português no comando de qualquer expedição.
Cabral nunca mais voltou ao mar. Vasco da Gama, este sim o grande herói português do período das navegações, foi resgatado.
Sem saber que um dia seria nome de um clube de futebol no Rio, o almirante Vasco da Gama tinha como escrivão e amigo, ninguém menos que Luís de Camões, o autor da epopeia que serviria de base para a língua portuguesa, Os Lusíadas.

Em meio aos tempos conturbados em que vive a nação luso-brasileira. Mais a brasileira do que a lusa. É bom lembrar que mesmo diante de fracassos, como a Inconfidência Mineira e a busca de uma rota alternativa para as Índias, sobraram obras de peso, relatos impressionantes, como os de Camões e Thomas Antônio Gonzaga.  

domingo, 16 de abril de 2017

Por falar em História


Vladimir Putin: nova versão de Guilherme II 






Mais do que os bilhões da propina das empreiteiras. Mais do que a constatação de que o tecido político brasileiro esgarçou, para dizer o mínimo, ou simplesmente desapareceu. O que me preocupa sobremaneira é como a história vai registrar estes dias doidos que este planeta vive. Sim, porque esta tragédia não é brasileira. É global.
O filósofo francês Alana Baidou na Ilustríssima de hoje compara o momento atual com o primeiro semestre de 1914, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Vladimir Putin desempenharia o papel que coube ao Kaiser Wilhelm II. Pode ser. Até porque um dos motivos daquele conflito – apenas um deles – era o fato de que os alemães e austríacos não se conformavam com a proeminência de Paris sobre Berlim e Viena.
Claro, o mundo é e foi mais sofisticado que isso. Não se pode esquecer as razões econômicas. Principalmente a eterna tentativa teutônica de dominar a Europa; o projeto de construção da ferrovia Berlim-Bagdá; o desejo de expansão colonial de alemães e austríacos e uma centena de outras razões.
Me chamou a atenção também uma nota, na verdade três, na coluna de Sônia Racy no Estadão: pais de alunos do colégio Santa Cruz, uma escola de elite ( e põe elite nisso) redigiram documento, que vazou em grupos de WhatsApp, com críticas a versão ideológica pró-esquerda de muitas aulas, em especial de História Geral e do Brasil. Teve resposta da escola e depois na tréplica até um recuo.
Em seu absurdamente competente livro, Sem Novidade no Front, Erich Maria Remarque revela que a doutrinação belicista alemã era fervorosa dentro das salas de aula. Defendia-se abertamente que os ingleses se constituíam em um povo bárbaro, por muitos anos dominado por uma mulher (a rainha Victoria) e que comiam carne crua. Os franceses, decadentes, incapazes de se defender militarmente, permitiam que o debate de idéias novas corrompesse a sociedade ocidental. E os russos e os sérvios, vistos como povos primitivos.
Milhares de jovens entre 16 e 20 anos abandonaram a banca escolar e se engajaram na propaganda oficial de que a guerra seria rápida, em nome da modernidade e da defesa dos valores civilizatórios. Foram mais de 10 milhões de mortos, quase cinco anos de batalhas, e o mundo nunca mais seria o mesmo.
No meu tempo de escola, aprendi que os Bandeirantes eram heróis que interiorizaram o desenvolvimento do Brasil. Que a Inconfidência Mineira foi um movimento de amplo apoio popular, desgraçadamente dominado por um tirano, o Visconde de Barbacena. Que a Independência do Brasil, longe de ser um acerto entre as elites comerciais portuguesas, foi um brado da nacionalidade brasileira. Que o imperador Pedro II era um bom velhinho. Que a abolição da escravatura permitiu a vinda dos imigrantes. E, por ai vai....
Fiz o ensino médio bem no meio do Ame-o ou Deixe-o. Do AI-5 e da 477. Mas, aí a coisa virou.
Felizmente.
Mesmo na banca de uma escola pública, tive o apoio de professores extraordinários que passaram a me orientar na busca de outra versão da história. A maturidade fez o resto.
O que querem estes pais preocupados com a doutrinação nas escolas¿ Que seus filhos sejam uns autômatos, alienados, robóticos¿

Aí estaremos mesmo encrencados.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Será o fundo do poço?

Há exatos 11 anos eu saia da Infraero e atravessava o Oceano Atlântico para dar minha contribuição ao esforço eleitoral que pretendia colocar o professor Romano Prodi novamente no comando da Itália. Foi uma aventura dramática, que culminou com a nossa vitória por uma diferença tão insignificante, quanto pode ser a eleição de um deputado argentino no parlamento italiano.


Um estudo patrocinado pelo Partido de la Democracia Sinistra, o antigo PCI, nos mesmos moldes deste que foi feito pela Fundação Perseu Abramo, agora, apontou que os jovens italianos de 18 a 35 anos não davam a mínima para o tal estado de bem-estar social.  Entendiam que a ascensão se daria unicamente pelo mérito de cada um. Luta de classe era uma coisa perdida no tempo. Coisa de velhos comunistas.

Quando me debrucei sobre a pesquisa qualitativa do Instituto Perseu Abramo, recém divulgada, feita com 63 eleitores da periferia de São Paulo, que votaram no PT entre 2000 e 2012, mas não votaram nem em Dilma (2014) nem em Haddad (2016) me invadiu a mesma sensação de desconforto de 11 anos atrás.

Principais constatações da pesquisa:

·         Não existe luta de classes. Não há cisão entre trabalhadores e patrões. São diferentes, mas não existe a relação clássica de exploração: todos estão no mesmo barco.
·         Ninguém quer ser tratado como “os pobres”. A ascensão social é importante no processo de diferenciação. Com esforço individual tudo pode ser superado.
·         As políticas públicas, como quotas, podem ser consideradas como uma desvalorização individual.   Bolsa Família, Prouni, FIES são consideradas importantes. Mas, vistas como insuficientes e falhas.
·         O grande vilão dos tempos modernos é o Estado. Não há confronto entre pobre e ricos, entre corporações e trabalhadores. O embate é entre Estado e cidadãos, entre sociedade e governantes.
·         Todos são vítimas do Estado, que cobra impostos excessivos, cria entraves burocráticos, administra mal o eventual crescimento econômico e acaba por sufocar a atividade das empresas brasileiras.
·         Lula ainda é admirado. Ele é um bom exemplo de ascensão social. De superação de adversidades. E se equipara a Silvio Santos e João Dória.

Taí. Um prato cheio para inteligência nacional. De tal sorte que o presidente da Fundação Perseu Abramo convidou as fundações ligadas ao PSDB, ao PC do B e ao PSOL para debater os resultados. O ponto de partida: os entrevistados apontaram a corrupção como o principal problema do país e consideraram a política uma atividade suja.

Como diria aquele personagem de Claude Rains em Casablanca, prendam os suspeitos de sempre. Ou seja: faltou um projeto de cidadania ao governo Lula para vacinar as ascensão de mais de 30 milhões de brasileiros à sociedade de consumo; o coletivismo caiu com o Muro de Berlim, o que vale agora é o papel do individuo. Claro, a mídia e os meios de comunicação, a revolução digital; o bombardeio sistemático dos sindicatos patronais na defesa de suas teses; o oportunismo contumaz das novas lideranças sindicais laboriais; a falta de apoio dos políticos de esquerda ao empreendedorismo.


Ou a esquerda brasileira nos seus mais diversos matizes toma um banho de humildade e se senta em busca de uma solução (como aliás ocorreu na Itália) ou o cenário profetizado pelo professor Fernando Haddad, de que o Brasil vai se dividir entre as aspirações da direita e da extrema direita, vai superar o embate eleitoral e se instalar nos corações e nas mentes tupiniquins.  Pior: quando o individualismo se sobrepõe ao coletivismo o modelo que emerge não é liberal, é fascista. 

sexta-feira, 31 de março de 2017

A história revelada do Ulano do Reno






Schmeling com Joe Louis antes da luta de 1936;
com vocês sabem quem e a esposa na volta triunfal a Berlim
e como paraquedista kamikaze na Grécia




Meio assim de bobeira, peguei ontem na HBO um filme alemão dirigido por Uwe Boll, que me trouxe à lembrança o grande lutador alemão Max Schmeling, o Ulano do Reno, campeão mundial dos pesos pesados entre 1930 e 1932.

Schmeling tem um cartel de respeito: 56 lutas, 40 vitórias por nocaute, 10 derrotas e seis vitórias por pontos. Tornou-se símbolo do regime nazista, sem ser nazista, e foi ingênuo o suficiente para trabalhar contra um eventual bloqueio dos Estados Unidos às  Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Naquele ano deixou-se usar como símbolo da raça ariana, ao vencer de forma surpreendente uma luta contra Joe Louis, em Nova York. Curioso é que o regime nazista com temor de que o Ulano do Reno seria massacrado tentou de todas as formas impedir o embate.

Schmeling trabalhou muito para enfrentar o “Demolidor de Detroit”. Chegou à conclusão de que se conseguisse se segurar no ringue até o décimo assalto, teria uma chance pelo cansaço de Louis. Deu certo, no 12º assalto, conseguiu colocar dois cruzados de sua potente direita e derrubou o flamante mito americano.

Mas, o Schmeling que voltou para Berlim vitorioso era muito diferente do que partira. Os nazistas não se conformavam com o fato de que ele era empresariado por um judeu Joe Jacobs. E também torciam o nariz para o fato dele ser casado com a atriz e produtora tcheca Anny Ondra.

Os nazistas queriam que a vitória em Nova York fosse emblemática e como tal deveria continuar. Mas, Schmeling entendia que Louis tinha direito a uma revanche.

Em 1938, a revanche se deu no Yankee Stadium. Schmeling aguentou no ringue pouco mais de dois minutos. Louis aprendera que a arrogância e a pretensão da vitória a qualquer momento poderia custar caro. Quebrou uma vertebra e danificou um rim do alemão e retomou o título.

Hitler ficou furioso. Ainda mais porque descobriu que Schmeling fazia parte de uma organização clandestina que dava fuga aos judeus alemães e austríacos. Com os olhos do mundo sobre o Reich e sem poder tocar no ex-símbolo da raça, o Ulano do Reno foi convocado como paraquedista e destacado para as missões mais perigosas possíveis.

O filme aliás é um flash back muito criativo. Dado como morto na Grécia, já no fim da guerra, Schmeling reaparece ferido em um hospital de campanha. Os alemães recuavam e estavam sendo batidos pelos britânicos. O comandante alemão ordena então que o lutador-paraquedista escolte um oficial inglês até um posto alemão, que já não existia mais, através das linhas inimigas. Uma caminhada de 15 quilômetros, quase intransponível para alguém que mesmo com uma preparação atlética invejável, ainda tinha uma bala nos joelhos.

Desgraçadamente para os alemães, entretanto, o oficial inglês era fã do esporte dos reis, reconheceu o Ulano do Reno, e durante o percurso provoca o paraquedista alemão a contar sua história.  O filme é de 2010, dirigido por Uwe Boll e foi batizado em português de “O Campeão de Hitler”. Está disponível no Now.


Max Schmeling foi casado com Anny Ondra até a morte da esposa em 1987. Ele morreu com 99 anos em 02 de fevereiro de 2005.  Com o fim da guerra, tornou-se o primeiro distribuidor de Coca-Cola na Alemanha. Fez fortuna de novo, tornou-se um filantropo, ajudou muita gente no boxe. Inclusive a um certo lutador americano, deus do ringue, que morreu na miséria, chamado Joe Louis.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Noite de pesadelo!



Yoda ao me despertar:"Acorda  e leva sua filha na escola"


Não. Não foi o jantar. Nem a solidão. Talvez tenha sido o cenário descrito por Jan Swatford, na monumental biografia de Beethoven, que ganhei de presente (e que presente!) do meu amigo Luís Massonetto. A imagem do gênio acuado, em um canto da sala de seu pequeno apartamento em Viena, enquanto a artilharia francesa despejava bombas e mais bombas. Fiquei com pena do maestro. Aquele bombardeio atingia diretamente o seu coração e derrubava seu sonho republicano.

Mas, o meu pesadelo me levou para bem longe da Viena do início do século XIX. Na verdade, eu estava em um país do hemisfério sul, em tempos atuais. Parecia um cenário de Ray Bradbury, em Farenheit 451. A comunicação se dava por mensagens curtas, duas ou três frases. Aprofundar era proibido, considerado chato e enfadonho. Aqueles que pensavam na história, na filosofia ou na política eram discriminados e apartados da sociedade. Só não havia bombeiros incendiando bibliotecas. Pelo menos naquele momento.

Nos escombros de uma sociedade que buscara o conhecimento, predominavam agora a auto-ajuda, o evangelismo e as soluções voluntaristas e pragmáticas. O passado era como uma praga. Pensar no futuro era considerado crime por enfado. Só existia o presente.

O quotidiano era um grande reality show, onde os derrotados eram execrados e apartados da sociedade. A utopia era a emoção. Uma montanha russa eterna, que nunca parava. Esse era o ideal daquela sociedade, onde a intimidade era constantemente devassada e exibida em uma espécie de arena romana, para delírio de todos.

Como numa Metrópolis futurista, os trabalhadores eram iludidos por um robô que os comandava para a extinção lenta e segura. Os mais jovens e mais ambiciosos eram poupados. Guindados a sociedade do consumo a partir de um ingresso em um parque de diversões constante onde colocariam sua capacidade de se emocionar à medida que as atrações se sucediam.

Era uma sociedade de normas severas. Estava proibido tratar de questões raciais, embora grassasse a discriminação. Gênero, diversidade, luta de classes nada disso podia ser questionado. Mas, também era um meio social limpo. Não havia chaminés, nem fábricas, muitas árvores. Ninguém comia carne. Nem mesmo de frango. Os capitalistas haviam descoberto uma forma de multiplicar seu capital sem lançar mão do trabalho ou da produção.

Aos velhos, como eu, era permitido a contemplação dos cenários da natureza. E na remota hipótese de algum jovem reclamar de enfado, estavam liberados para arguir da beleza do cenário natural, as montanhas, as praias, o jeito pacífico e malemolente  do povo, a música, a poesia, a sexualidade. Tudo continua lindo!

Não havia mais barreiras morais. O limite era se dar bem. Não importa se para isso fosse necessário transformar-se em traficante de drogas (o que era proibido) ou rufião.

No comando desta sociedade havia uma dualidade, cujos integrantes se alternavam. Um era um profissional do marketing e da propaganda. Um vendedor de sonhos que bajulava e era sustentado por uma cadeia de empresários, sempre insatisfeitos, absolutamente obcecados por limpeza, emoção e consumo. De outro, um antigo âncora de televisão, papa da auto-ajuda, bem-sucedido formador das opiniões mais rasteiras.

No meio dos ruinas do que parecia ser uma Nuremberg pós Segunda Guerra, encontrei lembranças de uma outra sociedade, que perecera depois de cinco séculos de patrimonialismo e que sonhara com a busca do conhecimento, a igualdade, a tolerância e o respeito. Havia sido triturada pela luta do poder.

Não. Não era o Planeta dos Macacos. Era o Planeta dos Medíocres.

De repente me vi em um interrogatório. Eu era o interrogado. E o interrogador, à medida que se tornava mais agressivo insistia em obter respostas: quantos livros você leu¿ Quem eram os autores¿ Quais eram os seus objetivos¿

O interrogador aproximou o seu rosto ao meu e em voz murmurante ainda me questionou: É verdade que você ouve sinfonias de Beethoven¿

Com o pavor que estava sentindo, finalmente despertei. O meu cachorro, Mestre Yoda, lambia a minha cara com ares de sapeca.

Fiz o café. Levei minha filha Nina para a universidade. Passeei com o Yoda pela vizinhança, para alívio inconteste dele. Voltei e arrebentei a vizinhança com o som da Quinta Sinfonia. No último volume.