segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Não somos uma fábrica de músicos. Mas, sim de cidadãos”.




Dudamel e a Simon Bolivar: um concerto inesquecível e emocionante



Tenho umas dez gravações da Quinta Sinfonia de Beethoven. Algumas mitológicas: Furtwangler, Karl Bohm, Georg Schell, Solti, Bruno Walter e Charles Munch. Vi e ouvi pelo menos umas 30 execuções ao vivo. Algumas notáveis e inesquecíveis. Mas, o que eu ouvi ontem, na sala São Paulo, foi de tal forma espetacular que me assomou a perplexidade.

Gustavo Dudamel não é apenas um regente pop star. Ele é simplesmente espetacular. Perfeito. Fez um Beethoven grandioso, romântico como deve ser, redondo e instigante. A Sinfônica Simon Bolivar soou como uma orquestra soberana: o piccolo, as trompas, as cordas, as madeiras. O que falar dos tuttis e daqueles violoncelos.

Dudamel rege com os olhos e com o coração. Sua fraseologia é perfeita e sua dinâmica impressionante. E a orquestra reage as suas entradas com entusiasmo.

Depois de uma Quinta que já teria valido a noite, veio a Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, obra que apesar do seu centenário, na minha modestíssima opinião, ainda não encontrou o seu tempo.  Primitiva e arrebatadora, marcada por um impressionismo rude e pelos ritmos múltiplos entrecortados.

Vi no palco uma vez: com Ernest Bour e a nossa orquestra do Teatro Municipal, nos anos 70. Foram necessários dois anos de preparação. Meu primo Cláudio deu um show nos tímpanos. O professor Dino Pedini arrebentou na primeira trompa e o professor Tancredi maravilhou a todos no fagote obsessivo.

Dudamel regeu de cor. Sem partitura! Exigiu dos meninos e meninas da Simon Bolivar como se estivesse diante da Filarmônica de Berlim. Cada estante era um virtuosi.

O que foi aquilo?

Como pareceu pouco,  dois extras para arrebentar corações. O prelúdio de Lohengrin e o Liebstood do Tristão de Wagner.  Até agora não me recuperei da emoção.

E dizer que tudo isso começou com um projeto do professor Jose Antônio de Abreu , 40 anos atrás, em Maculay (100 kms de Caracas), com o objetivo de dar formação musical a crianças socialmente desassistidas. “Quando estes jovens estão sobre o palco, estão mandando um recado claro. Musica clássica não e  música de nossos avós, dos nossos pais, é a nossa música também. Quando se toca ou mesmo quando se ouve música, há a percepção de uma infinidade de possibilidades, e isso ajuda no dia a dia. A arte pode ser uma forma de se conectar com a realidade” – disse o maestro Dudamel ao Estadão, no sábado, recém chegado de Buenos Aires.

“Não somos uma fábrica de músicos. Mas, sim de cidadãos”.

Aos 32 anos, ele próprio egresso do projeto El Sistema, de Abreu, Dudamel é um dos maestros mais requisitados no cenário musical internacional. Ele se apresenta à frente das mais renomadas orquestras do mundo. Seu estilo é carinhoso com os músicos, cria junto com eles. Rege com alegria, respeito e devoção a partitura.

Para acabar, com uma sala São Paulo lotada, enlouquecida, Dudamel não retornou ao podium para sorver os aplausos e afirmar merecidamente o seu mérito. Limitou-se a abraçar os músicos e se misturou com eles.

Esta foi a gota d’ água de uma noite, que eu definiria em uma palavra: eletrizante e emocionante.      

sábado, 6 de abril de 2013

Os primeiros amores



Jennifer Jones: minha primeira paixão irresistível e obsessiva






Uma das poucas coisas agradáveis da chamada “melhor idade” é poder olhar pelo retrovisor da existência e contemplar os arroubos da adolescência e da juventude. Meu primeiro grande amor, irresistível e obsessivo, foi a atriz Jennifer Jones. Nunca me esquecerei do impacto que aquele personagem eurasiano de Suplício de uma Saudade provocou no minha mente infantil.

Curioso é que as meninas de verdade, de carne e osso, eram mesmo um transtorno. Dos 12 aos 14, nenhuma delas poderia rivalizar com uma boa pelada jogada na rua, nem mesmo com um torneio de “bafo”, ou um desafio de bolinhas de gude, de preferência jogado na terra. Tinha ainda os botões, os piões, as pipas, a bicicleta.

Não. Definitivamente elas não tinham nenhuma chance.

Mas, vieram as espinhas e a imagem angelical da doutora eurasiana começou a ser insuficiente. Uma das grandes sacanagens que eu aprontei na minha adolescência foi reescrever grandes cartas de amor, contidas em um livro que, não sei por que nem como, foi parar nas minhas mãos, e enviar pelo correio com a firma de um pseudônimo e mandar a todas as meninas da rua.

Foi um fuzuê danado. Mal sabia eu onde estava me metendo.  A maldade eu havia tirado de algumas peças da commedie dell’arte, que devorava freneticamente. Deliciava-me com as maldades de D.Giovanni ou do Tartufo.

Mas, o tiro saiu pela culatra. O que era para ser uma provocação virou um frisson. Descobri depois de acompanhar a prudente distância o trabalho do carteiro, que a chegada das ditas correspondências provocava um certo conforto nas pobres criaturas. Conseguia mesmo divisar uma ponta de orgulho. Que seres estranhos estas meninas, capazes de se reconfortar com algumas palavras tiradas de um livro barato e jogadas com algum talento em uma folha de papel.

Seria superestimar os efeitos das cartas de amor, mas o certo é que depois delas, as próprias meninas passaram a nos olhar com olhos diferentes. Não éramos mais os cafajestes da esquina. E não é que algumas delas passaram a frequentar as nossas rodas de conversa fiada. As primeiras experiências sexuais vieram do escurinho do cinema, eventualmente da garagem escura, ou da escada do prédio. Nada de sério. Apenas a descoberta dos corpos e uma avalanche de fantasias.

Este período ingênuo de relacionamentos passou muito rápido. A minha geração amadureceu muito depressa. De um dia para o outro fomos chamados a assumir responsabilidades. A bola, a bicicleta, o pião e a pipa desaparecem do nosso cotidiano. Aos 15 anos, quase todos nós tivemos que conciliar o primeiro emprego com o estudo do curso médio noturno.

Ainda dava tempo para uma partidinha de futebol, sempre contra o Sucena (nosso arquirrival) nas quadras do Distrital da Moóca; uma sessão de cinema no Moderno ou no Ouro Verde; ou todo mundo enfiado na varanda da casa do Tadeu para ver o Festival Internacional da Canção no Maracanazinho e repartir a inconformidade com a vitória de Tom Jobim.

O mundo fervia a nossa volta. Algo de muito sério estava acontecendo. O quinteto mágico do poderoso Mônaco da Leocádia parecia insuficiente para enfrentar o mundo que nos desafiava: Renato (ou André, meu irmão), Tadeu e Nunzio; Odair e Ciro.

O último relance da minha juventude veio pelas mãos delicadas de uma colega de classe: uma pianista sensível, de fartos cabelos negros e olhos suplicantes. Sem saber, ela me deu a base para uma catapulta que me projetaria para o outro lado do Tamanduateí.


A doutora eurasiana:guardada no DVD
Outro dia estava revendo Suplício de uma Saudade. Jennifer Jones e a doutora eurasiana ainda me provocam sentimentos de afeto. Felizmente o filme está guardado em um DVD e eu posso vê-lo, quantas vezes eu quiser.

As meninas vítimas das minhas cartas hoje são, com certeza, vetustas senhoras sexagenárias, avós, tias e esposas diligentes. Os meninos desapareceram. Vez por outra, meu irmão André me dá notícias. Alguns passaram desta para a melhor precocemente. Ana Lúcia, a pianista, me cobra ainda uma pizza, que eu não consigo agendar. Celina, a rainha das revelações, grita por socorro, inconformada provavelmente com a solidão.

Pena que as paixões do passado, a amizade, a ingenuidade e os sentimentos juvenis não possam ser guardados em um dispositivo eletrônico qualquer. Não há caminho de volta.

sábado, 23 de março de 2013

Os primeiros sinais de Francisco




Francisco com Bartolomeu I: final de um cisma que data de 1025




O papa Francisco já está operando milagres. D.Odilo Scherer viajando de classe econômica, na poltrona do meio, de Roma para Guarulhos por 12 horas, parece coisa mesmo do Espírito Santo. Piadas a parte, entretanto, o cura argentino deu mesmo ar de sua graça e já transcendeu o óbvio ineditismo: primeiro jesuíta, primeiro latino-americano, primeiro torcedor do San Lorenzo.

A reação da direita ultra conservadora católica, a Sé Vacante, formada por saudosistas de Pio XII, da Santa Inquisição e adversários contumazes do Concilio Vaticano II, foi outro sinal claro que o colégio cardinalício acertou em cheio na sua escolha. Estes senhores que consideram a Opus Dei e a TFP organizações progressistas tem um problema sério com o ecumenismo.  Entusiastas dos templários das grandes cruzadas, eles entendem que a fé católica apostólica romana, aquela inspirada pelo Vaticano, é a única que tem linha direta com o criador. Todas as demais, portanto, são hereges e devem ser banidas ou corrigidas. Aí se incluem os budistas, os hindus, os islâmicos e todos os cismas e reformas.

Roma não erra!

Enquanto cardeal de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, iniciou interessante diálogo com a comunidade judaica, influente e preponderante na Argentina. Meus melhores amigos portenhos  são judeus e foram os primeiros a celebrar a sua eleição.

Convém ressaltar que desde Paulo VI e o espetacular Vaticano II, Roma empreendeu um extraordinário trabalho em direção aos cultos orientais e, sobretudo, na busca de uma aproximação com árabes e judeus. O cardeal Bergoglio, portanto, seguiu apenas o caminho que o Vaticano apontava pós João XXIII.

À parte as cenas midiáticas de andar de ônibus, pagar a conta do hotel, ajoelhar-se à frente dos fiéis e pedir a benção do povo, Francisco já inseriu o seu nome na história de forma indelével quando recepcionou para sua primeira missa, como papa, o patriarca ortodoxo da igreja de Constantinopla, Bartolomeu I. Para quem não sabe, trata-se da reconciliação de um cisma que data de 1025.  

Claro, a direita urrou. Sinal que o jesuíta está no caminho certo.

sábado, 9 de março de 2013

O badalar de um tempo que passou




O relógio da Luz: não indicava nada. Apenas as horas



Uma taça de Chablis bem fresco, algumas reminiscências e, de repente, as lembranças de um tempo que, com certeza, não volta mais. Barbara Tuchow, Pullitzer de 1962, no monumental Guns in August, diz que as badaladas do Big Ben no féretro de Eduardo VII, representavam o fim de uma era no Velho Mundo. E lá se foi mesmo a Belle Epoque para o ralo, superada pela atrocidade da Grande Guerra.

Lembrar do João Sebastião Bar e do Riviera é lembrar de uma São Paulo sonhadora, romântica e acolhedora, que também não existe mais.  É buscar o reflexo de uma cidade que correu na enxurrada por sobre os paralelepípedos, ao som de um piano nostálgico tocado ao ritmo de notas espaçadas como o Road to Zion, de Adrian Iaies.

Não se enganem os mais jovens. Eram tempos bicudos, difíceis, como sempre são. O dinheiro era curto, como sempre é. A noite em São Paulo se dividia entre a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, cuja fronteira, imperceptível ficava em algum lugar entre os Campos Elíseos e a Vila Buarque. Os burgueses endinheirados sorviam doses enormes de White Horse no Lalicorne. Estudantes mais pobres se bastavam no Drurys e depois no Old Eight do Le Masque, do La Vie en Rose, ou em alguma casa obscura onde se podia ouvir Cyll Farney, Pedrinho Mattar e Claudete Soares. Com sorte até Cauby Peixoto, cuja eterna decadência cedia lugar a um interprete mágico ao som de Conceição ou de Cole Porter.

No João ou no Riviera, o vinho quente aquecia idéias políticas. Debates acalorados. Utopias irrealizáveis. A revolução parecia estar na calçada.

A noite terminava numa pequena kitchnete da rua dona Veridiana, onde olhos verdes, azuis ou castanhos apertados imploravam para que o escuro e a intimidade não dessem importância ao fim do glamour. Na maioria das vezes o que começara como uma relação comercial acabava em cumplicidade. Em uma fusão de almas em desespero.

Mas, isso era em noites raras, bafejadas pela sorte. Na quase esmagadora totalidade daquelas madrugadas, restava apenas a caminhada pela cidade deserta, onde os sons pareciam uma sinfonia dodecafônica. Uma fantasia e o velho negreiro, o 27, que circulava toda a noite, entre a Praça Clóvis e a Vila Oratório.

O cotidiano não dava tréguas. A fantasia cedia lugar à realidade. A vida não permitia intervalos contemplativos. Tudo seguia igual ou pior. O relato da noite revelava o massacre do dia. Alguns mudavam de vida, mudavam de noite. Outros desapareciam, outros sumiam, muitos se despediam. Para alguns o exílio acomodava, para outros apenas o anonimato restava.

Numa noite, Claudete, com sua voz pequena e cristalina, quase sussurrava o velho Lupicinio. Ninguém ousava produzir o menor ruído. Era uma noite como todas as noites, que misturava sonhos, solidão e utopia. “Estes moços, pobres moços. Ah se soubessem o que eu sei....”

Eu não sabia. Queria muito saber, mas não sabia. O relógio da Luz não apontava nada. Dizia apenas que era hora de tomar o 27. O novo dia serviria para que todos se reinventassem.


domingo, 3 de março de 2013

A música e a Guerra Fria



Wolfgang Sawallisch: regente competente, morto em 22 de fevereiro 






Na árida leitura dos jornais dominicais, cada vez mais cáustica, chamou-me a atenção uma reportagem de João Marcos Coelho, competente crítico de música erudita, com o registro de três passamentos terríveis: o da organista francesa Marie Claire Alain, do pianista americano Van Cliburn, e do excepcional regente alemão Wolfgang Sawallisch.

 O artigo está publicado no Estadão de hoje, no Caderno 2. Não conheço João Marcos pessoalmente. Mas, costumo corroborar suas críticas. Na leitura de hoje, me chamou a atenção o seu cuidado em definir o que foi a Guerra Fria: “ Conflito político-ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, as duas superpotências do pós-guerra, que usou armas atômicas como um cutelo pairando sobre todos os habitantes do planeta por quase meio século, entre 1947 e 1989”.

E eis que, de repente, me dei conta que as novas gerações realmente precisam destas informações. Tão mal informadas que são, poderiam por exemplo imaginar uma guerra comercial entre fabricantes de refrigeradores.

João Marcos diz que os três músicos desaparecidos recentemente afirmaram suas carreiras durante a Guerra Fria. E ele tem razão. Van Cliburn, por exemplo, foi chamado de o Sputinik americano. Nunca apreciei suas performances. Sempre as considerei pirotécnicas. E admito que não estou preparado para falar de Marie Claire, embora tenha ouvido algumas interpretações dela, sobretudo de Bach, onde mostrou talento e perfeição técnica. Já do bávaro Sawallisch, posso arriscar aqui algumas linhas.  

Grande regente. Sobretudo na discrição e diria até na humildade. Não se deixou levar pelo sucesso efêmero. Sua interpretação para a Segunda Sinfonia de Brahms está entre as mais perfeitas que eu conheço. Também merece destaque o ciclo das quatro sinfonias de Robert Schumann, uma notável leitura de O Navio Fantasma, de Richard Wagner. Honestamente, nunca vi nele qualquer ponto de tangência política. Mas, acho muito feliz o contraponto que ele estabeleceu entre reger ópera e música sinfônica em entrevista ao João Marcos, em 2003: “Pessoalmente, sempre gostei dos dois gêneros. Cada um tem desafios diferentes: as longas frases das óperas de Wagner, Mozart, Strauss e Verdi, com longas respirações, me ajudaram a fazer o mesmo na música sinfônica de Bruckner e Mahler. Por outro lado, a performance muito mais concentrada nas sinfonias me ajudou a ser mais preciso durante uma ópera”.

Simples assim!

Com relação à Guerra Fria, uma análise histórica vai provar que a humanidade perdeu o seu tempo e jogou boa parte de suas riquezas em um confronto ridículo Leste-Oeste, quando desde sempre o dualismo foi Norte (rico) e Sul (pobre). Hoje sabemos que nem o american-way-of-live avançou em coisa nenhuma, muito menos a onda vermelha revolucionária tinha muito a dizer. Parece que foi tudo uma grande trama dos militares dos dois lados para manter seu poder de influência nos dois regimes e assegurar investimentos absurdos em tecnologia.

A história dirá. Com certeza. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

As cotas e a reação esperada



Com vagas garantidas: e se os estudantes pobres começarem a formular? 




Uma das mais estranhas sensações que eu senti nos 10 anos em que trabalhei no governo federal deu-se por conta da sanção presidencial ao projeto que garantia as cotas nas universidades e institutos federais. A proposta de iniciativa legislativa tramitou por mais de 14 anos no  Congresso Nacional e por estes meandros místicos , que ninguém explica, subiu para o Planalto com uma redação sensata e objetiva. Ou seja, em cinco anos, 50% de todas as vagas públicas federais universitárias deverão ser preenchidas por estudantes oriundos da rede pública, preservadas as características raciais em todas as vagas e os níveis de baixa renda familiar, para as quais se reserva um quarto.

O impacto nas universidades foi tremendo. Chegou ao ponto de um reitor de universidade do Rio de Janeiro propor a desobediência civil. Até a agência de propaganda que atende ao MEC chegou a me aconselhar que o governo não deveria abrigar semelhante iniciativa, por considera-la impopular. No momento da sanção, recebi ordens de importante assessor palaciano para que não se desse publicidade ao fato: “Vamos provocar a classe média e gerar inconformidade nestes setores”  - me dizia.

Com efeito, a sanção se deu de forma burocrática, sem maiores alardes. A regulamentação, entretanto, teve o dedo decisivo da presidente Dilma: “Quero isso aplicado ainda este ano”.

Não se negue o chamado poder de confronto da classe média brasileira. Mas, se uma coisa nós devíamos ter aprendido nestes anos todos de Lula e agora de Dilma é que eles não gostavam, não gostam e jamais gostaram de um governo popular democrático. Nunca nos deram e jamais nos darão uma procuração. Esta história de se misturar com o povo é muito legal no Carnaval, mas acaba na quarta-feira de Cinzas.

 Educação pública de qualidade é um imperativo, sobretudo para formar mão de obra qualificada , que vai ajudar na acumulação de capital das empresas nacionais. Mas, para por ai. Que história é essa do filho ou filha da empregada ou do motorista ter vaga garantida na  universidade! E se esses meninos e meninas chegarem à conclusão de que o glamour da modernidade, dos discursos vazios e politicamente corretos,  só servem mesmo para obstruir a visão do que realmente está por trás de tudo: a luta de classes.

Hummm! Realmente é preocupante. Já imaginou se estes meninos e meninas deixarem de sonhar com a glória nos gramados de futebol, com uma aparição no BBB ou na revista Caras, e passarem a formular uma sociedade diferente que transforme a realidade deles e de seus pais e vizinhos.

Muita gente ficou desconfortável com o Prouni, o programa que concede bolsas – mais de um milhão – para alunos de baixa renda em instituições privadas de ensino superior.  Também não gostaram da expansão das universidades e dos institutos federais e da multiplicação dos câmpus em todo o país. Não gostaram do ENEM e decididamente ficaram contrariados quando viram que o Plano de Desenvolvimento da Educação, o PDE não era apenas retórica ou um destes planos estatisticamente insignificantes que massageava levemente a consciência de uma classe abastada.

Há luz no fim do túnel. É tudo uma questão de ir ao encontro dela. O jornalão dos Mesquita, o vetusto O Estado de S.Paulo publica em sua edição de hoje, domingo, dia 17, pesquisa realizada pelo IBOPE que comprova que 62% da população apoia a adoção de cotas pelas universidades públicas para negros, pobres e alunos de escolas públicas. Nada menos que 77% apoiam as cotas para estudantes de baixa renda. E, 32% são contra as cotas raciais. Apenas 16% são contra qualquer tipo de privilégio. Segundo a pesquisa, em nenhum estrato social a oposição ás cotas nas universidades públicas é maior que o apoio a elas.

Vou terminar com uma frase de frei David dos Santos, diretor da Educafro: “Quando a sociedade passou a ter informações qualificadas, equilibradas, sem a emoção de militantes a favor ou contra, o povo passou a entender a verdade da causa”. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

É difícil ser católico no século XXI




Bento XVI: decisão de profunda humildade, coerente com sua objetividade




Confesso que fiquei bastante surpreso  com a decisão do papa Bento XVI de apresentar sua renúncia, na última segunda dia 11. Depois ao refletir melhor, cheguei à conclusão de que foi uma atitude muito própria da racionalidade e do pragmatismo inerentes a essência de Joseph Ratzinger. Difícil mesmo é suportar o festival de asneiras que pensadores proto-ateus, não católicos, neófitos de uma maneira geral, derramaram na rede social e nos meios de comunicação.

Certa vez, conversando com d.Helder Câmara em Itaicy, em torno de uma chávena, ele me dizia que um dos problemas do catolicismo residia no fato de que boa parte de seus fiéis queriam na verdade mudar a essência da doutrina. “Isso será o fim da Igreja”, proclamava ele.

É bem verdade que o Concilio Vaticano II, convocado por João XXIII e aprofundado por Paulo VI deu uma arrumação importante na Igreja pós revolução francesa. O rito deixou de ser em latim, instituíram-se as pastorais, abriram o espaço para os leigos, a opção preferencial pelos pobres, o ecumenismo deixou de ser uma teoria. Mais recentemente, até por obra do próprio Ratzinger, então eminência parda de João Paulo II, chegamos a um impensável pedido de desculpas pelos erros históricos, os equívocos sanguinários, a segregação da ciência e outros absurdos.

A Igreja romana evoluiu entre a morte de Pio XII e a renúncia de Bento XVI, ou seja pouco mais de meio século,  muito mais do que em dois milênios de existência. Tornou-se mais social, mais atuante, mais viva e mais presente. Para isso contaram a coragem de João XXIII, a firmeza de Paulo VI, o poder midiático de João Paulo II e a lucidez de Bento XVI.

Entretanto, este avanço não inclui aspectos doutrinários fundamentais: a igreja católica estuda o marxismo, mas não é materialista, nem dialética; preocupa-se com a fome no mundo e com os imensos contingentes populacionais, mas é contra o controle da natalidade; não aceita nenhuma revisão dos seus sacramentos, por isso, ainda sustenta que o matrimônio é indissolúvel; entende que o homossexualismo é um desvio de comportamento e não aceita o sacerdócio feminino.

Pessoalmente acho que a Igreja erra, sobretudo na questão do controle da natalidade e na indissolubilidade do casamento. Mas, quem sou eu para confrontar dois mil anos de sabedoria¿

Bento XVI queria uma igreja menor e mais centrada no que chama de fundamentos. Em outras palavras: ninguém é obrigado a ser católico, mas se for tem que aceitar o dogma como base. Roma não vai se curvar ao mundo.  É, exatamente o contrário, e não foi ele quem inventou isso, mas o apóstolo Paulo quando fundamentou a Igreja.

É claro que o Vaticano sabe os problemas que enfrenta: a crise vocacional, a pedofilia, os desmandos em suas finanças, a pressão de uma sociedade em crise e, por isso mesmo, em evolução perene. Mas, também não é a primeira vez que passa por isso, nem será a última.

Ratzinger tomou uma decisão de profunda humildade. Concluiu, por qualquer razão, aparentemente por questões físicas, que não tem condições de enfrentar estes desafios. E que a indicação de um sucessor poderia poupar milhões de fiéis de uma agonia imensa e de um imobilismo indesejável. Foi coerente e objetivo:  não é fácil ser católico no século XXI.