segunda-feira, 18 de junho de 2012

A bucca del ballone, a média aritmética e a P2

 


Sarney e João Paulo II (foto do grande Gervásio Batista): arrebentar a boca do balão


Esta história é rigorosamente verdadeira. Não é lenda. O genial repórter e jornalista Dirceu Brisola, então correspondente, acho que de Veja, em Roma, acompanhava a visita do presidente Sarney ao papa João Paulo II. Entrão, foi se metendo na comitiva. Deixou os coleguinhas em uma sala e seguiu ao lado do presidente, até que prestes a entrar na câmara papal, foi convidado a voltar ao seu lugar. Quando retornou ao convívio dos colegas ouviu a pergunta:

- E aí Dirceu, o que o papa disse pro Sarney?

Dono de um humor corrosivo e maravilhoso, Dirceu não hesitou:

- Sarney, andiamo a spulcare la bucca del ballone!

Um grupo de jornalistas desatou a rir desbragadamente. Outro ficou perplexo em busca do significado de palavras tão, digamos, inquietantes.

Uma máxima do jornalismo diz que quanto mais sensacional a notícia, mais próximos estamos da barrigada. Todos conhecem a célebre história do boi-mate na revista Veja.

Para quem não sabe, a revista Science decidiu fazer uma brincadeira de 1º de abril e publicou um ensaio em que informava o feito sensacional de cientistas americanos, cujo talento havia permitido cruzamento de genes do tomate com o de bovinos. Dizia o texto da revista que isso permitiria, por exemplo, o plantio de um tipo híbrido de tomate cujo fruto seria, por exemplo, um hambúrguer ao sugo.

Atingido como um raio pelo sensacionalismo da história, o editor de Veja não deu bolas nem ao bom senso e cravou a matéria nas páginas. Foi o célebre episódio do boi-mate, assunto até hoje proibido no gigantesco edifício da avenida marginal do rio Pinheiros.

Outra questão inesquecível foi a divulgação das médias dos estudantes brasileiros no Enem de alguns anos atrás. Impressionados com a informação sensacional de que metade dos alunos estava abaixo da média e outra metade estava acima, o jornal O Globo cravou o título “Metade dos estudantes brasileiros estão abaixo da média no Enem”. Claro, a outra metade estava acima, e não poderia ser diferente.

O portal UOL incorreu no mesmo erro. Apelei ao bom senso da editora, aliás uma doce e competente criatura, que cheia de razão ainda me disse: “Consultei dezenas de matemáticos que me asseguraram que não tem nenhum problema se oitenta por cento dos estudantes estiverem abaixo ou acima da média”.

Esta semana, um repórter de O Globo implicou que os estudantes que vão se inscrever no SiSU, o sistema de seleção unificada das federais, do meio do ano, e que também tenham se inscrito no ENEM do fim do ano, deveriam ter o direito de pedir a taxa de inscrição de volta, caso consigam uma vaga agora. A tese por si é estapafúrdia, afinal uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, chega a ser hilário alguém conseguir uma vaga na UFRJ, que vai lhe assegurar seis anos de educação superior gratuita, estar preocupado com uma taxa de R$ 35. Ainda assim, o jornal do nosso companheiro Roberto Marinho cravou a seguinte frase atribuída a um estudante descontente: “O governo só pensa em nos tomar dinheiro”.

Em tempo, o ENEM deste ano coletou mais de 6,4 milhões de inscrições. Menos de um terço pagou ou terá que pagar a taxa. Todos os estudantes de escolas públicas ou que por alguma razão não tem condições de pagar estão isentos.

Por falar em barrigadas, diz a lenda que um repórter argentino foi deslocado para o interior da Bolívia em busca de uma entrevista com o mitológico Ernesto Guevara Serna. Depois de dias na mais sofrida das tentativas, ele recebeu a informação de que o guerrilheiro havia sido executado e, por baixo da porta da pensão onde estava hospedado, recebeu ainda o relato de tudo o que havia ocorrido nos últimos dias.

Sentou-se na máquina de escrever, redigiu várias reportagens e, por final, consegui transmitir para a redação em Buenos Aires. O editor, um boludo juramentado, ao ler o despacho comentou: “Este é um caso típico de um repórter que enlouqueceu”. E jogou o texto no lixo. Em seguida mandou telegrafar: “Vuelva por que estas loco!”

Quem publicou com primazia, furo mundial, a morte de Guevara foi o pequeno e provincial diário Gazzetta de Antofagasta.

A morte de Guevara era uma notícia sensacional. E logo os editores em todo o mundo queriam sites exclusivos e informações novas. A melhor de todas foi do correspondente do Corriere della Sera, no Brasil, que cravou, desde a avenida marginal do rio Tietê, a manchete do dia seguinte: “Ho visto Guevara morto!”

No texto, discretamente podia se entender que a visão do guerrilheiro morto houvera se dado ao contemplar uma fotografia. Mas, a reportagem era cheia de detalhes e de minúcias aventurescas, como se o repórter estivesse embrenhado nas matas bolivianas.



Um despacho inquietante sobre o paradeiro de um criminoso



Gelli, hoje condenado, e com Ortolani; tempos do fascismo




Num final de sexta-feira, eu e o grande Hélio Campos Mello estávamos destacados para viajar no domingo para a enésima reportagem sobre a ascensão da classe média paraguaia. Eis que um discreto telegrama da Associated Press entregava que o poderoso Lício Gelli, homem forte da loja maçônica Propaganda Dois, o homem mais procurado na Itália por crimes que iam desde a bancarrota do Banco do Vaticano até chantagem a Sua Santidade, havia desembarcado em Montevidéu.

Numa tarde fria de domingo, descemos em Carrasco de um 727 da Cruzeiro e nos entregamos à inglória tarefa de encontrar o cara.

Foi uma saga, com lances rocambolescos de perseguição nas ramblas, informações confidenciais transmitidas por fontes que se protegiam por sombras. Mas, na terça-feira não só sabíamos o paradeiro dele -- uma mansão no bairro de Carrasco, atrás do Cassino – como tínhamos desvendado toda a rede da Propaganda Dois na América Latina, que passava, entre outras coisas, pela Soberana Ordem de Malta, cujo chanceler, Umberto Ortolani, era o principal mentor de toda a organização criminosa.

A história dos dois é digna de um romance. Esbirros de Benito Mussolini ficaram com o ditador até os últimos dias da República de Saló. De lá saíram com várias barras de ouro arrebatadas aos empresários e as grandes famílias italianas pelo Fascio e se refugiaram em Lima, no Peru, onde fundaram o Banco Financeiro Sudamericano (BAFISUD), uma espécie de sucursal do famoso Banco Ambrosiano. Este foi o gérmen, o ovo da serpente de uma gigantesca rede de intrigas e de extorsão, que culminou com a desgraça do sistema financeiro do Vaticano (um buraco de nada menos do que US$ 1,4 bilhões) e do cardeal Paul Marcinkus, pelo menos dois suicídios (Roberto Calvi e Michele Sindona), um deles por enforcamento sob a ponte de Londres. Claro, haviam ramificações por regimes autoritários latino-americanos, sobretudo no Uruguay, onde se dizia que o general Gregório Goyo Álvares, títere de plantão, era ligado a loja, e na Argentina.

Quando tivemos esta informação, eu e o Hélio nos entreolhamos e chegamos à brilhante conclusão que de caçadores, iríamos, se já não éramos, transformar-nos em caça. E diga-se, uma caça fácil.

Sair do Montevidéu foi uma operação de guerra. Estávamos sendo seguidos e tínhamos certeza de que seríamos presos quando tentássemos embarcar para o Brasil. Entramos na galeria Puerta del Sol, Hélio com uma cópia da matéria que eu já havia escrito e os filmes, escondeu-se enquanto eu servia de isca. Tomei um taxi na saída e fiquei mais tranqüilo quando vi que o Peugeot preto me seguia.

Hélio foi para Carrasco e embarcou em um vôo para Buenos Aires, sem ser molestado.No fim daquele dia, quando cheguei ao Hotel Internacional, o gerente, o senhor Lopes, me chamou a sua sala e calmamente me informou que eu não devia dormir no hotel, pois dois agentes do Estado haviam me procurado e revistaram todo o meu apartamento.

Naquela noite dormi na casa de meu compadre Raul Ronzone, em Malvin, e de manhã depois de conversar com o gerente da VARIG, o senhor Gonzáles, pai do zagueiro Daniel Gonzáles do Vasco, me preparei para embarcar no vôo da tarde, vestido como tripulante.

O editor de Istoé não emprestou grande importância a nossa aventura. Publicou duas singelas páginas no corpo da revista. Já o editor de Panorama, em Milão, foi à loucura. Deu capa: GELLI FORAGIDO NO URUGUAY!

Algum tempo depois, descobrimos que Gelli havia fugido para o Chile e Ortolani para o Brasil. Antes que eu começasse a pesquisar os negócios da P-2 no Brasil, houve um providencial incêndio em um único arquivo do Banco Central, em seu escritório de São Paulo. Justamente onde estava o dossiê do Banco Financeiro Sudamericano.

O juiz Falcone veio a São Paulo para interrogar Ortolani, que se escondeu atrás de uma cidadania brasileira e não respondeu a nenhuma pergunta. Um dos meus perseguidores no Uruguay, Hugo Rivas, decidiu mudar de lado e recorreu a Comissão de Direitos Humanos da Cúria Metropolitana de São Paulo. Queria um asilo, de preferência na Suécia. Na sala do advogado José Carlos Dias, no edifício Itália, perguntei-lhe se nós dávamos muita dor de cabeça ao sistema de inteligência do regime militar uruguaio.

 - Muita disse ele. No caso Gelli nós recebemos ordens de matá-los. Só que vocês foram mais rápidos.

Ou seja, eu e o Hélio poderíamos ter sido mortos pela ditadura uruguaia e o meu editor de Istoé, na melhor das hipóteses achou que esta história valeria apenas duas páginas.

Meu editor italiano, entretanto, pensou diferente. Gelli até onde eu sei está em prisão domiciliar em sua vila na Toscana. Tem 93 anos.

O cabeça da operação P-2, Umberto Ortolani, viveu um inferno em São Paulo, onde se refugiou. Até que, doente acabou se entregando em 1992 no Aeroporto de Milão. Condenado na Itália, morreu em 2002.

A P-2 esteve envolvida em operações para-militares da OTAN, no mercado clandestino de petróleo, na conspiração contra vários gabinetes europeus e financiou a repressão na América Latina. Descobrimos a ponta do iceberg por conta de um singelo telegrama da AP, informando em três linhas que Lício Gelli estava em Montevidéu. Ninguém acreditou. Nós acreditamos.

sábado, 9 de junho de 2012

Um terremoto que mudou a história



O apocalipse chegou aos portugueses: 1o. de novembro de 1755



No dia 1º de novembro de 1755, a população crente e pia de Lisboa, a capital do reino de Portugal, estava quase toda recolhida nas dezenas de igrejas da cidade para a missa do Dia de Todos os Santos. Eram 9 e 30 da manhã. Como se estivessem sincronizados, os sacerdotes haviam acabado de proferir a homilia, sempre dura voltada aos impiedosos e hereges, e iniciavam a preparação da eucaristia.

Eis que um terremoto de proporções inimagináveis assolou toda a cidade. A bela Lisboa transformou-se em três minutos em um amontoado de escombros. Matou quase todos os devotos nas igrejas. Alguns sobreviveram por sorte ou pela habilidade de escapar ao desmoronamento dos templos. Quinze minutos depois, entretanto, um outro tremor na mesma intensidade, acabou por destruir toda a cidade. Mais quinze minutos e um tsunami vindo pelo Tejo, fez um strike com os barcos que estavam no porto e invadiu a cidade pela praça do Comércio, com tal intensidade que as águas passaram fácil pela Cidade Baixa e chegaram onde hoje é o início da avenida Liberdade (que naquele tempo não existia).

Mas, a desgraça não parou por ai. Um incêndio de grandes proporções tomou os escombros e durou dias. Mais de 80 por cento da população foi praticamente dizimada. A descrição impressionante está no livro do escritor e jornalista americano Nicholas Shrady, The Last Day, traduzido e editado no Brasil pela Objetiva.

No meio de tanta desgraça, o reino de Portugal que vivia encravado no século XIV, com o Estado misturado com a Inquisição e o poder praticamente nas mãos dos jesuítas, assistiu ao proselitismo cristão de que a mão de Deus havia castigado a cidade por sua licenciosidade e por seus pecados. O rei, D.José I, temente e inseguro imaginava mudar a capital para Coimbra ou para a Cidade do Porto, enquanto abrigava a família real em tendas de pano em Belém.

O conde de Oeiras no auge do poder: o estado positivista 

Eis que surge do nada, a figura mirrada e desgastada de um político, na verdade uma espécie de primeiro ministro, que ninguém dava importância. Sebastião José de Carvalho e Melo, filho de um militar medíocre, dedicado a diplomacia e ao comércio exterior, com passagens por Londres, Paris e Madrid, em tempos de obscurantismo e absolutismo, havia conseguido a proeza de ler mais do que um livro na vida.

D.José literalmente sem ação confiou a Sebastião todas as ações para salvar o reino. E aí surgiu o estadista, o gênio político, o visionário.  O então conde de Oeiras, dobrou as mangas rendadas de sua camisa e a partir de um objetivismo raro lançou-se a missão de enfrentar a desgraça. Sua primeira ordem foi: “Enterrem os mortos e alimentem os vivos”.  

A situação era tão séria que não havia gente suficiente para enterrar os mortos e os corpos putrefatos provocavam epidemias, doenças e saques. Sebastião então, confrontou a santa madre pela primeira vez e ordenou que os corpos fossem lançados ao mar, como forma de apressar a limpeza da cidade.

A reconstrução de Lisboa, ainda que tenha sido uma obra maiúscula, foi o pretexto para Sebastião enfrentar o anacronismo de Portugal, separar a Igreja do Estado, abolir a escravatura (que só foi tolerada nas colônias)e acabar com a separação entre judeus novos e judeus convertidos.

O conde de Oeiras tornou-se um verdadeiro “príncipe” no sentido maquiaveliano. Assumiu o estado, perseguiu os inimigos, protegeu os apaniguados, acabou com a Inquisição, expulsou os jesuítas e inseriu Portugal no século XVIII.  Com a morte de D.José I, em fevereiro de 1777, ascendeu ao trono D.Maria I, que a história consagrou como Maria Louca.


Pombal: monumento vislumbra a cidade

Sebastião já com o título de Marques de Pombal foi torpemente perseguido. Destituído, processado, acabou em desgraça. Antes, articulou com seu amigo o Ouvidor Geral da Colônia, Cláudio Manuel da Costa, as bases do que seria a Inconfidência Mineira. Seu pupilo direto, Thomas Antônio Gonzaga foi enviado a Vila Rica, como reforço intelectual para o movimento que pretendia a independência da colônia.

Em menos de 30 anos, Sebastião criou o que se chama de Era Pombalina. Tinha simpatia pelos positivistas franceses e pela independência americana. Morreu em profunda solidão, abandonado por todos. Sobrou dele um impressionante monumento em Lisboa, onde ele vislumbra a Cidade Baixa, ao lado de um leão (símbolo de poder).

domingo, 3 de junho de 2012

O embargo da maior notícia do século



Oficiais alemãs assinam rendição incondicional em Reims: a notícia estrava embargada



“Se você dá a alguém uma caneta e a autoridade de um censor, estranhas coisas acontecem”. Edward Kennedy.

Impressionante o artigo de Dorrit Harazin no Globo de hoje. Faz a gente pensar. Sobretudo nós jornalistas. Reproduzo um trecho:

“Eram 3h24 da tarde de 7 de maio de 1945, quando o escritório da agência de notícias Associated Press (AP) em Londres recebeu o telefonema que acabou com a guerra antes do combinado. A ligação chegara através de um canal militar não sujeito à censura, e tinha o chefe do escritório de Paris da AP do outro lado da linha. “Aqui é o Ed Kennedy. A Alemanha capitulou incondicionalmente. Repito: capitulou incondicionalmente. É oficial. Coloque Reims, França, como procedência e solte a notícia já”.

A notícia explodiu como uma bomba. E menos de 60 minutos depois, distribuído pelo escritório de Nova York, as principais rádios do mundo passaram a reproduzir o despacho de Ed Kennedy.  Milhões de almas em todo o planeta se aquietaram com o final, pelo menos de parte, da maior carnificina que se tem notícia. Somados os números da guerra no Pacífico e com a desgraça de Hiroshima e Nagasaki, que ainda não havia ocorrido, a Segunda Guerra Mundial ceifou mais de 50 milhões de vidas.

Qual jornalista no mundo não gostaria de dar esta notícia?

Ed Kennedy quebrou o embargo: censura para que?
Mas, a ousadia de Ed Kennedy custou muito caro. A ele e a instituição do jornalismo como um todo. É difícil acreditar que havia um “combinado” de 17 correspondentes de guerra de segurar a informação. Eles haviam assinado um termo de sigilo a bordo do avião militar que os levou de Paris a Reims para testemunhar a assinatura da rendição alemã.  Havia sido acordado que a notícia só seria divulgada depois que os alemães participassem de ato semelhante em Berlim, com a capitulação perante os russos, 36 horas depois.

Kennedy burlou a censura militar aliada e ao avaliar que o estrago da sua divulgação era político, não provocaria a morte de ninguém, ao contrário, salvaria vidas, porque ainda havia combates na Iugoslávia e na Itália, na Tchecoslováquia e na Costa da Escócia, mandou o acordo para o espaço. Certamente levou em conta a demarcação feita pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt: a censura só é justificada se estiver a serviço da proteção das forças aliadas em combate.

Ed Kennedy se arrebentou de verde-amarelo-azul e branco. Foi expulso da Europa pelo comando supremo aliado. Virou redator-chefe no Santa Barbara News-Press, depois tentou como publisher do Monterrey Peninsula Herald.  Morreu em um acidente de automóvel aos 58 anos de idade.

Concordo com a Durrit, o livro Ed Kennedy’s War: V-E Day, Censorship and the Associated Press é leitura obrigatória para todo jornalista no planeta. Espero que o Luiz Fernando Emediato, dono e editor da Geração Editorial, não perca tempo e lance logo a versão em português.  O episódio se deu em maio de 1945, mas o assunto é mais do que atual. Atualíssimo diria.

Como assim segurar a informação de que a Segunda Guerra Mundial na Europa tinha acabado? Que diabos de cartório é esse? Nada menos do que 16 jornalistas concordaram com esta bobagem e apenas um a violentou e só agora 67 anos depois se resgata isso? 

terça-feira, 22 de maio de 2012

O protagonismo dos misters

Felipão com aquele ar de satisfação e entusiasmo: prazo de validade vencido


Quem me conhece sabe que o futebol é uma das minhas paixões. Ainda continuo apaixonado pelo esporte, apesar do mercantilismo, das marmeladas, do excesso de mascarados e pela falta de brilho nas partidas. Raramente se vê um confronto emocionante, um lampejo, uma jogada inusitada. Mas, tudo isso se releva e pode se atribuir a um certo saudosismo da minha parte.

Agora o que não dá mais para suportar é este protagonismo dos super-treinadores: Felipão, Leão, Tite, Mano Menezes, Joel, Abel, Cuca, Luxemburgo e assim por diante. É de matar. Ganham salários espetaculares para esgrimir respostas esfarrapadas e mostrarem-se craques na auto-ajuda. No campo mesmo, só atrapalham.

Felipão, por exemplo. Faz tempo que o seu prazo de validade no Palmeiras acabou. Eu até simpatizava com seu jeito italianado, de gauchão politicamente incorreto, o que é uma redundância. Mas, não dá para negar que ele, foi ele mesmo, jogou o campeonato paulista pela janela. Foi incapaz de comandar uma reação contra o poderoso Mirassol em pleno Pacaembu, deu sopa para o azar, e se arrebentou contra o Guarani, este sim dirigido por um grande técnico, Vadão, que deu um nó na sua cabeça.

Tá bom! Acontece.

Mas, ai veio o jogo da Portuguesa e não é possível que ele não soubesse que de tanto cruzar na área, uma hora eles iriam acertar o cruzamento.

Ora, se o Felipão quer ir embora. Muito obrigado por tudo. Não é possível que a diretoria do Palmeiras vá se submeter a isso. Vadão, Mancini, Dorival são bons treinadores, não custam tão caro e não são estrelas.

Duro é esperar o confronto com o Grêmio ou com o São Paulo para esperar pela crise. Que ela vem, vem.  

Mano Menezes é outro maluco. Como não convocou o melhor jogador brasileiro da atualidade, o meio-campo Ramirez, do Chelsea? E o Lucas Leiva? Não entendo. Aliás faz tempo que eu não entendo as convocações da seleção. Honestamente, nem quero entender. Imaginem uma linha média com Ramirez, Lucas e Hernanes, Ganso na ligação e Neymar e Lucas, do São Paulo. Pode até dar certo! Credo.

Leão é outro. O que ele já fez de lambança, dá uma enciclopédia. A diretoria do São Paulo ajudou bastante nesta última. Tomar de quatro do Botafogo é mesmo de matar. O São Paulo tem três jogadores fora de série: Casemiro, Lucas e Luis Fabiano, o resto serve para compor o elenco. Que conversa!

Faz tempo que estes senhores técnicos não dizem a que vieram.

Exceção é claro ao grande Tite, símbolo de uma geração. Vejam a explicação dele: “Com a flutuação dos alas e a penetração dos meias, ganho mais consistência no passe. E aí com Jorge Henrique solto, posso segurar os volantes na proteção da zaga e permitir que a bola chegue com mais qualidade para o Emerson”.

Gostar do Corinthians eu até gosto. Suportar a Fiel, eu até suporto. Mas, definitivamente as explicações do Tite são insuportáveis.

  

sábado, 19 de maio de 2012

Surrealismo matinal



Guerra e Paz no Memorial da AL em S. Paulo: orgulho de ser compatriota de Portinari






Manhã fria de sábado, escuto o ciclo Die Schone Mullerin, de Franz Schubert, na voz do barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau, quando leio no jornal que ele morreu. O cantor é claro! Aos 86 anos, em sua casa na Baviera.

Dieskau não era um barítono tonitroante, como Titta Rufo. Ao contrário era discreto, tinha uma voz pequena, muito bem moldada tanto para a cena como para o concerto. Sua versão para o ciclo Das Knaben Wunderhorn, de Mahler, é definitiva. Assim como todos os personagens mozartianos que ele interpretou com brilho.

A tecnologia é capaz de fazer um morto cantar na minha sala. Que bobagem! Como a minha filha Bianca me disse hoje de manhã: “Pai você está perigosamente perto do surrealismo”. O comentário se deveu ao fato de que eu a acompanhei ao aeroporto vestido de pijamas e de roupão, o que a levou ao conto célebre de Cortazar.

O frescor da manhã me fez pensar na minha amiga Pilar a tomar café com cuscuz de tapioca em Serra Grande, uma pequena localidade na Costa do Cacau da Bahia, feliz com o flerte da vida alternativa, que foi uma marca ponderada da nossa geração. Surrealismo, sem dúvida!

E daí?

Meu irmão Luiz Massonetto, por outro lado,  feliz da vida, saboreia uma Paris primaveril e me informa de lá: “Em dois dias de Hollande aqui já se sente uma mudança de humor e de conteúdo dos franceses, que não se via há muito tempo”.

A caminho de Roma, Luiz controla a ansiedade para sua primeira viagem para a cidade eterna. Mais surrealista que os romanos, impossível! Ainda mais que um italiano, Nanni Moretti, preside o júri do mais importante festival de cinema do mundo, o de Cannes. Toni está na Riviera e Waltinho Moreira Salles é o cineasta mais badalado do certame.

Por aqui, Lula se encontra com Dilma em São Paulo. Comem bacalhau cozido acompanhado pela análise da crise na Europa. Depois abrem a exposição da obra maiúscula de Cândido Portinari, Guerra e Paz, no Memorial da América Latina. Não dá para ver na foto do Ricardo Stuckert, mas dá para sentir aquele riso debochado do mestre Leon Tolstoi. Quem diria que um filho de Brodowsky iria representar tão magnificamente a saga napoleônica na Rússia.

Há momentos em que ser brasileiro me provoca um orgulho tremendo. Portinari é um destes momentos. 

domingo, 6 de maio de 2012

Por falar em cachoeiras, cataratas e cascatinhas






Cachoeira: o o que está por trás disso tudo?
Ninguém é tolo o suficiente para duvidar que grandes e não tão grandes interesses tem a incrível capacidade de moldar a opinião pública, conduzi-la de acordo com sua pretensão, seja ela política ou econômica. Os brasileiros de uma maneira geral costumam ser levados, e a história prova isso, a formar opiniões, criar mitos, derrubar outros e acreditar em verdades não tão verdadeiras.

Este episódio do contraventor goiano Carlos Cachoeira é um exemplo claro de que a grande mídia se curva a quaisquer interesses, desde que eles concorram para um objetivo comum. Vamos deixar claro uma coisa: repórteres não são treinados a analisar o pedigree das informações. Reconheço que a melhor lição de jornalismo que eu recebi foi a famosa In qui Prodest (a quem interessa) de Carlinhos Castelo Branco e depois de Mino Carta.

Há muita controvérsia nesta história. Qualquer jornalista que tenha dois neurônios sabe que o crime organizado, aqui, na América, na Europa, na Coréia ou no Japão, trabalha para assegurar o seu negócio, seja ele o jogo do bicho, a prostituição, o tráfico de mulheres, o comércio de drogas, o contrabando e assim por diante.

Poder político, claro. Poder econômico, também. Diversidade de negócios, evidente. Mas, o foco de tudo é sempre proteger o negócio principal, o negócio mãe: o crime.

Como é que um contraventor de Anápolis arregimenta tanto poder, contrata todos os arapongas desempregados de Brasília, estende suas atividades para uma empreiteira e coloca todo o seu poder de influência no Congresso Nacional e no Judiciário, influencia decididamente pelo menos dois governos estaduais, Goiás e Rio, e interfere diretamente na edição da mais influente das revistas nacionais e indiretamente em toda a mídia? E vai saber o que mais, no varejo do quotidiano.

Será possível que um gangster goiano tenha conseguido a proeza de quebrar um dos mais antigos paradigmas do crime organizado? Não creio.

Alguma coisa muito estranha está acontecendo. O que ninguém conseguiu ver ainda é o crime principal. Ou seja a verdadeira ação organizada que está por trás de toda esta história. Com certeza não é o jogo do bicho em Anápolis. Muito menos a ação depredadora de uma empreiteira, a Delta, que sequer inovou no sua forma de atuação.

Temo que à medida que as revelações aflorem, se é que isso vai acontecer, caminhemos para o mesmo desaguadouro de sempre: a boa e velha pizza. Punem-se uns esbirros quaisquer e preserva-se o verdadeiro crime organizado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A história dos Irmãos Villas Boas


Cláudio (João Miguel) em Xingu: interpretação para ser inserida entre as maiores




Sobre os irmãos Villas Boas já ouvi disparates os mais absurdos: de colaboracionistas do regime militar e exterminadores de índios a criadores de uma nova civilização indígena, que substituiria os brancos e acabaria por mandar os portugueses de volta ao Tejo. Conheci Orlando pessoalmente ainda na década de 70. Conversamos muito sobre os krenakarores, que eles haviam acabado de contatar, nas margens do rio Peixoto de Azevedo, no traçado da Cuiabá-Santarém.

Ainda me lembro que seus olhos se encheram de lágrimas e embaçaram os grossos óculos quando lhe perguntei sobre o futuro dos índios-gigantes. “Se eles não forem para o Parque Nacional do Xingu, certamente deixarão de existir”. Orlando lembrou-se do irmão Cláudio e, naquele momento, ainda com a voz embargada, me descreveu a angústia que o irmão mais novo vivia no sertão.

Confesso que também fiquei emocionado. Diante de um dos maiores sertanistas do mundo, eu fui confrontado com um drama imperceptível a olho nu e que parecia completamente deslocado naqueles tempos de euforia nacional: com os militares riscando o sertão com estradas e mais estradas, esquecendo-se que aquelas terras já tinham donos.

Orlando, o verdadeiro: dilema do sertanista

Ontem, depois de conferir Xingu, de Cao Hamburguer no cinema, e rever estes personagens tão marcantes da minha geração, me veio à lembrança aquela figura irreal que eu conheci nos anos 70. Um aventureiro de verdade, um apaixonado pelo sertão, que como os irmãos, tornara-se indianista por acaso. E cujo papel na história moderna do Brasil jamais foi reconhecido: não pelo feito de demarcar o Brasil-Central, construir mais de 1,5 mil quilômetros de picadas, centenas de campos de pouso, nem mesmo por ter criado o Parque Nacional do Xingu, a maior reserva indígena do mundo. Mas, por ter trazido à sociedade uma reflexão inusitada: a relatividade do progresso, para que e para quem?

O filme é, sem dúvida, uma obra-prima. Clique aqui e confira o trailer e as informações do site oficial do filme. É o que eu chamo de uma história muito bem contada. Sem exageros, sem falsos dilemas e sem pretender arrastar hordas de brasileiros arrependidos para dentro das matas. A atuação de João Miguel, no papel de Cláudio Villas Boas, é impressionante. Seguramente se insere na galeria dos maiores performances cinematográficas do cinema nacional. Não via algo assim desde que Leonardo Villar interpretou o Zé do Burro, no clássico de Dias Gomes, ou Anselmo Duarte fez o PM torturador em O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person.

Felipe Camargo, quem diria, faz um Orlando Villas Boas perfeito, no contraponto exato do irmão. Mais político e mais midiático. E Caio Blat, no papel de Leonardo, compõe o trio de aventureiros que saíram de Santa Cruz do Rio Pardo, órfãos, recusaram o apelo urbano de São Paulo, fizeram-se passar por analfabetos para poder cerrar fileiras entre os mateiros da expedição Xingu-Roncador no início dos anos 40.

Cao, amigo, que show. Que mostra brilhante de talento e sensibilidade. Que câmera! Enquadramentos perfeitos, sem exagero. A fotografia de Adriano Goldman é perfeita, sem aquele contemplativismo chato. E o roteiro Elena Soarez, Anna Muylaert e do próprio Cao faz as duas horas passarem num piscar de olhos e mantém a atenção todo o tempo.

Talvez, e aqui vale uma certa polêmica, o confronto com os latifundiários, com os seringueiros e com os garimpeiros pudesse ser mais explorado. Muita gente no Mato Grosso queria mesmo acabar com a raça dos Villas Boas. Pode parecer absurdo, mas além da demarcação da reserva, eles enfrentaram ainda a ira da civilização porque tiraram os índios da escravidão a que eram submetidos. E isso, no século XX!

Mas, concordo que talvez se o assunto tivesse mais destaque, poderia ser um filme inserido dentro de outro filme, o que convenhamos seria um desastre.

De volta ao João Miguel. Ele tem origens circenses. Dedicou-se e aprendeu muito nos picadeiros do interior do Nordeste. Chamou a atenção em Cinema, Aspirinas e Urubus e em O Céu de Suely. Foi um dos primeiros atores que eu convidei para fazer um filme para o Ministério da Educação. E nesta condição foi o primeiro garoto propaganda da Prova Brasil. Na época, os publicitários que me atendiam torceram o nariz. Para ele e para Hermila Guedes. O tempo mostrou que eu estava certo. Modéstia à parte.
Clique aqui para ver o filme que João Miguel fez para o MEC

Festa dos kaiakurus no Parque Nacional do Xingu: ação dos Villas Boas