domingo, 30 de setembro de 2012

Uma receita do Vico D'Oscugnizzo




O ambiente radicalmente napolitano do Vico: receitas simples e saborosas




Diante do sucesso da receita do Spaghetti al Limone, recebi uma série de mensagens  com comentários sobre a simplicidade da receita e outros que pediam novas receitas assim, digamos, tão fácil de fazer.

Meu irmão Sílvio Lancellotti, gênios das panelas e um dos jornalistas mais competentes do planeta, ensina que a qualidade dos ingredientes é fundamental e que a mistura de temperos exige mais que intuição, conhecimentos mínimos de alquimia. Assim, o melhor é mesmo não misturar. Querem um exemplo?

Receitas tradicionais, algumas centenárias, misturam alho e cebola. Ainda que a minha mãe fique brava comigo, quando os dois ingredientes e misturam, invariavelmente tudo vira alho. Outra temeridade, misturar ervas ou pimentas.   Não é recomendável.   Quando uso uma erva, como rosmarinho ou basilicão ou orégano, uso apenas uma delas.

Isso posto vou reproduzir aqui uma receita mágica do meu amigo Beto Vizzone, do Vico D’Oscugnizzo, de São Paulo, uma agradável casa napolitana, na rua Arthur de Azevedo, quase na esquina com Henrique Schaumann. Trata-se de um clássico.

Spaghetti Corre e Fuge

1 pacote de spaghetti de grano duro;
500 gramas de carne moída de primeira, alcatre ou coxão mole;
Pimenta vermelha ou verde a gosto; peperoncino, dedo de moça, calabresa;
1 cabeça de alho, descascada e cortada na vertical;
1 galho de alecrim fresco
1 copo de azeite de oliva extra-virgem;
Sal a gosto

Modo de fazer

Atenção para cozinhar um bom macarrão é fundamental ter água abundante, mesmo que isso implique em ter paciência para esperar que ela ferva. Um pacote de spaghetti, apenas para se ter uma base, requer dois litros e meio de água, duas colheres de sal e uma de óleo de cozinha.

Aqueço o azeite, frito o alho até amorenar, coloco o rosmarinho (alecrim) a pimenta e frito a carne. Ao final corrijo o sal.

Escorro o macarrão, coloco em uma travessa, coloco a carne por cima e pulverizo com queijo parmesão ralado em lascas grossas. Cubro a travessa pelo tempo suficiente para chegar a mesa. Sirvo com um vinho de uva sangiovese ou um chianti. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A transgressão do conhecimento






Glenda Jackson em Mulheres Apaixonadas: ver o filme era uma transgressão 






Recebi no início da noite de sexta-feira a sempre iluminada visita do meu mestre Tão Gomes Pinto. Voltou a chover em Brasília, enfim. A primavera chegou com ventos de incerteza e o anúncio de um futuro incerto. O Brasil pelos dados do PNAD, apurados pelo IBGE, vai muito bem. Há mesmo uma nova classe média, os indicadores de miséria absoluta são residuais; o analfabetismo recua; as crianças estão na escola; quase todo mundo leva a vida com trabalho e perseverança.

Claro, estamos longe de ser uma Dinamarca ou uma Coréia. Ainda bem. Há problemas com a faixa dos 15 aos 17 anos. A molecada anda meio perdida. Nem estuda e nem trabalha. Anda sem saber para onde, premida por um volume gigantesco de informações. É um problema grave, que precisa de um estudo mais apurado. Não se pode menosprezar o drama existencial dos adolescentes modernos. Trabalho, estudo, ou os dois? Autonomia, independência, futuro, hormônios a mil, uma sociedade individualista que se anima cheia de novidades, materialista. O universo atual dos adolescentes é aborrecido. Urge criar uma utopia, uma nova versão de Woodstock, uma primavera de Paris, sei lá...

Outro dia, Fernando Haddad estava em campanha na periferia de São Paulo e defendia a educação integral. Ou seja, jornadas escolares de dia inteiro. Alguns adolescentes quando entenderam do que se tratava saíram de fininho. A gente se esquece de que a escola é uma prisão. Pode ser linda, cheia de atrativos, com professores maravilhosos. Mas, sempre será um porre. A não ser que este sacrifício temporário tenha um significado futuro. Tem?

A minha geração, e já se vai meio século, era marcada pela transgressão. Ultrapassar a barreira do permitido. Chocar. E assim aos trambolhões atravessamos os anos 60 e 70. Ficamos deslumbrados com as descobertas. Fomos para frente e para trás, num movimento intenso de busca de uma resposta singela: que diabos estamos fazendo aqui?

Atos simples como assistir a Mulheres Apaixonadas, de Ken Russel, significava por si um ato de transgressão. Deixar a barba ou o cabelo comprido era mais um ato político de que um gesto de estética. Podia-se ver a transgressão em Mozart ou nos Beatles. Em Schiller ou em Plínio Marcos. No Redondo ou no Blue Riviera. No sexo grupal ou num arroubo romântico a la Cyrano. Os punhos de Marcelus Cassius Clay, mais tarde Muhammed Ali, representavam uma transgressão tremenda. Malcolm X, Martin Luther King, Miriam Makeba, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Chico Buarque, o esporte transgredia, o cinema transgredia, a música transgredia. Não vivíamos para conformar. Vivíamos para confrontar.

Não. Não era apenas um movimento contra os militares brasileiros ou latino-americanos, ou contra a Guerra Fria. Era uma forma de enfrentar o determinismo: as coisas são assim e sempre foram assim. A utopia? Sei lá, um estado de liberdade absoluta, onde cada um de nós pudesse fazer o que quisesse, sem amarras políticas ou sociais, onde todos fossem felizes. Não haveria fome ou exploração, nem um estado opressor ou um rol de obrigações.

Nos anos 90 veio o yuppismo e nos transformamos exatamente naquilo que tanto combatíamos. Colocamos uma gravata e começamos a valorizar a forma, o politicamente correto, os valores e a ascensão social. Castramos o poder de transgressão de nossos filhos e passamos a envolvê-los em uma bolha de proteção. Sob o manto do politicamente correto, passamos a impor normas de comportamento e conduta, que nós tanto combatemos.

Alguém pode me dizer, pelo amor de deus, que graça tem em transar com a namorada na casa dos pais, com a família toda reunida assistindo ao Faustão? Qual é o sentido de participar de uma jornada ecológica para coletiva seletiva de lixo no bairro, ou uma pedalada ecológica? Ou passar horas e horas em uma academia de ginástica?

Certa vez, lecionava para alunos de classe média em Brasília, e me submeteram um jornal “clandestino”. Muito bem feito, tratava de questões de convivência e de aprendizagem. Fiquei chocado. Não havia uma única maldade. Não se falava da professora gostosa, do professor alcóolatra, nem havia uma coluna de fofocas e de fuxicos.

- Ninguém come ninguém nesta escola? – indaguei.

Os alunos me olharam com ar de profunda perplexidade. Notei mesmo uma ponta de vergonha.

Será possível?

O novo está no inusitado ou no inesperado. No Beijo no Asfalto de Nelson Rodrigues, na prostituta que se perde em um orgasmo do Abajur Lilás, de Plínio Marcos. Ou se quiserem na inveja doentia que Elizabeth I sentia de Maria Stuart, no texto brilhante de Schiller. Meu amigo Helvécio Raton, gênio mineiro do cinema brasileiro, repartiu comigo um prato de pappardelle no Luca esta semana. E me disse: “As pessoas hoje gostam mesmo é de acompanhar histórias previsíveis, onde os personagens façam apenas o que se espera deles. Sem sobressaltos, sem novidades”.

Isso explica porque as pessoas ficam imbecilidades com estes modernos seriados de tevê, em sua maioria de uma mediocridade brutal. Ou ainda o sucesso destes panfletos novelescos medíocres. Tudo é previsível. Tudo é medíocre.

Uma vez perguntaram a John Huston porque os filmes dele não tinham um final clássico, onde o bandido, ou malvado se ferrava, e o herói ou o bom moço, acabava feliz da vida. Ele deu de ombros e respondeu: “O final não é importante. A forma como chegamos a ele é que conta”.

Aprendi ao longo dos meus 60 anos, que quando tudo está certinho, arrumadinho, alguma coisa está errada. O avanço se dá no caos, jamais no consenso. Apenas para citar mais uma vez o velho Nelson: “a unanimidade é burra”. E eu acrescentaria: e manipulada.

Transgredir pode ser sinônimo de questionar, de criticar ou de discordar.  Trata-se, portanto, de um exercício bastante complicado e desconfortável. É muito mais cômodo ceder à mediocridade, deixar-se levar pelos ventos do politicamente correto e seguir a manada.

A tendência natural da humanidade a mediocridade em contra-partida deixa claro que a principal transgressão é o conhecimento. Não é difícil entender. Se a maioria prefere orelha de livros, finais previsíveis e novelas globais, a forma de confrontar é contrapor a visão mais ampla, mais profunda e mais complexa. Se as pessoas não pensam, aquele que pensa choca.

Quando Beethoven se apresentou para o rei da Áustria, no começo de sua carreira, foi severamente criticado porque estava desalinhado e sujo. Apenas um atento Mozart sentenciou: “Este será o maior de todos!”

O gênio de Bonn era um genial transgressor. Arrasou com um andante no segundo movimento da Terceira Sinfonia, a chamada Marcha Fúnebre. E quando poderia ser cultuado pela originalidade, preferiu a discrição e a solidão.

O que é preciso fazer os jovens entenderem é que o segredo da transgressão é o conhecimento. E que a sua busca é a maior transgressão possível. Do contrário é melhor mesmo cuidar do corpo, porque a mente não vai ter jeito mesmo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fraternidade na desgraça


Dilma e Cristina: problemas de câmbio e de crescimento




Recentemente acompanhei o ministro Mercadante à reunião dos ministros da Educação do MERCOSUL, em Buenos Aires. Ao chegar, fomos tomar um café com um alto funcionário da embaixada, que discorreu com um desdém tremendo sobre a crise no país vizinho. Não é a primeira vez que isso ocorre.

Desta vez, entretanto, confiado no saber econômico do meu chefe, tasquei de cara: “Meu chapa, você me desculpe, mas na economia global e de blocos, a crise de um afeta a todos".

Reportagem de O Globo publicada no sábado corrobora meus argumentos: a crise na Argentina afeta mais o Brasil do que a turbulência na Europa.  Os argentinos foram responsáveis por 32% da redução das exportações brasileiras, com o encolhimento de US$ 1,67 bilhão menos, ou 27% do total  da queda das vendas brasileiras.

As perdas mais nítidas foram sobretudo em bens de capital (-14%) e de consumo duráveis (-12%) – dos quais os principais compradores são os argentinos com 60% do total exportado pelo Brasil.

A crise argentina é sobretudo cambial. Sem reservas em dólares, Cristina Kirchner e seu ministro Guillermo Moreno querem segurar a moeda norte-americana de qualquer jeito, nem que para isso tenham que criar barreiras aos produtos brasileiros ou incentivem o mercado negro de uma forma jamais vista no país. Uma das alternativas que está sendo estudada, pelos dois governos, é alimentar o comércio com as moedas locais, o real e o peso argentino.

Sem o comércio com a Argentina, o crescimento do PIB brasileiro fica comprometido. E se o Brasil não crescer a taxas superiores a 3%, morremos todos abraçados na recessão ou assistimos a disparada da inflação. Por esta razão, meu caro hermano Gustavo Iaies, Dilma está suportando todos os desaforos de Cristina e ainda busca encontrar uma saída: entre os males da economia em bloco está a máxima que quando cai um, caem todos. Vide o que ocorre na Europa, né?

Dá série meu-saco-rompe-com-ruído-de-lataria alguém poderia me explicar por conta de que eu tenho que pagar mais caro para viajar na janela de emergência (tem mais espaço) ou na primeira fila de um avião da TAM, se não pago menos quando viajo na última fila e a cadeira não reclina?







domingo, 16 de setembro de 2012

O zippo, o desodorante e as velhinhas contrabandistas



O clássico isqueiro Zippo: uma séria ameaça a segurança aérea



Alguém já disse que atividades de inteligência não combinam com a ação burocrática da polícia do Estado. Por esta razão, a entrada ou saída de um aeroporto – e esta não é necessariamente uma característica latino-americana – é sempre uma surpresa. Por exemplo, qual a razão para que se tire um lap top ou um tablete na hora de passar no raio-x. Ou, porque um isqueiro tipo zippo é considerado um perigoso instrumento que atenta contra a segurança de um voo internacional?

Como dizem os argentinos, nada!

Não há uma maldita explicação para isso. Apenas algum gênio do alto da sua sabedoria e da sua postura burocrática, decretou que um isqueiro é um perigo, mesmo que seja um bic. E pronto.

Certa vez, embarcava em Brasília e durante o raio x implicaram com um tubo de desodorante. Tomaram. Andei menos de 10 passos. Entrei na Free-Shop e comprei exatamente o mesmo frasco, com o agravante que estava cheio, e embarquei sem nenhum problema. Qual é a lógica?

Não há lógica. Há sim uma clara intenção de criar constrangimento. Se o meu tubo de desodorante era um atentado de tal maneira violento que permitia ao agente do estado se apropriar dele. Por que o mesmo tubo comprado na free-shop não era?

Nunca vou me esquecer de uma cena que testemunhei na ponte da amizade, em Foz do Iguaçu, na fronteira com a República del Paraguay. Uma excursão de avós caiu provavelmente no mau humor do delegado de plantão, que decidiu que as velhinhas seguramente estavam atentando contra a economia nacional. Todas desceram do ônibus já escoltadas por agentes com coletes a prova de bala, bombas de efeito moral, metralhadoras e fuzis de repetição. Levadas para uma sala foram obrigadas a abrir todos os presentes que compraram no comércio de Ciudad del Leste, para netas, noras, genros, filhos e assim por diante. Os agentes com uma delicadeza jamais vista, rasgavam os pacotes e os embrulhos. Certamente imaginaram ver nas páginas dos jornais a manchete: Polícia Federal descobre conexão sexagenária na fronteira.

Que pasó? Nada.

As velhinhas voltaram para o ônibus com seus presentes totalmente decompostos. A maioria com a pressão arterial bem alterada e o alívio da sensação de que seriam condenadas a viver seus últimos dias em um presídio sobre a acusação de contrabando.

Aliás, são comuns as batidas em ônibus fretados exclusivamente em São Paulo, Curitiba, Rio ou Brasília para transportar as famosas sacoleiras. Enchem os bagageiros com bagulhos de toda a sorte, para revender com pequeno lucro e desconto das despesas de viagem. Os valentes agentes da Receita Federal, defensores intransigentes da equidade republicana, não raro confiscam tudo. Como se estas pobres famílias suburbanas, muitas das quais sem encontrar outro meio de subsistência, fossem perigosos contrabandistas, tentáculos de máfia ou dos cartéis colombianos de drogas.

Em Brasília, capital da República, existe uma célebre Feira de Importados, também batizada de rua do Paraguay, onde se pode comprar desde uma cafeteira italiana, lap tops e todos os produtos made-i n-paraguay que se pode imaginar. Tudo muamba! Mas, curiosamente há até uma agência do Banco do Brasil, praça de alimentação, os lojistas são bem organizados, etc... É uma das grandes atrações turísticas da capital. Assim, bem medido, instalada a cinco quilômetros da sede da Receita Federal.

Nada contra.

O problema é que a minha mãe ou a minha tia podem ser suspeitas de promover contrabando em Foz do Iguaçu. E ao mesmo tempo podem comprar o mesmo produto na rua do Paraguay em Brasília. Eu posso ser confundido com um perigoso terrorista árabe porque tentei embarcar com um tubo de desodorante ou com um zippo, instrumentos que certamente me permitiriam sequestrar um avião e lança-lo contra, vejamos, pelo meu humor atual, o centro de treinamento do Palmeiras na Barra Funda.

Quando trabalhava na Infraero dei de frente com um projeto inspirado pelo glorioso comando da Força Aérea Brasileira que pretendia colocar barreiras especiais nos portões dos aeroportos brasileiros. Estas engenhocas, quando acionadas, fariam surgir pontas de aço cujo propósito seria dilacerar os pneumáticos de qualquer viatura.

Não lembro exatamente quanto dos recursos públicos seria investido nesta indispensabilíssimo equipamento que permitira, por exemplo, impedir que sequestradores do Al-Queada, muito frequentes nos aeroportos brasileiros, pudessem ganhar as seguríssimas ruas e avenidas das cidades brasileiras. Mas, era uma baita grana. Outra coisa que me chamava à atenção era que a metragem dos portões nunca batia. Coisa que, aliás, parece recorrente na administração pública: a eterna dificuldade em conviver com o sistema métrico-decimal.


sábado, 25 de agosto de 2012

Histórias surpreendentes que falam ao paladar




Salão de refeições do antigo Cad'Oro: presença marcante de Emílio Locatelli






Faz algum tempo que eu não escrevo sobre comida. Então, para atender uns poucos seguidores e amigos deste blog, vou expressar aqui alguns conceitos que desenvolvi e aprendi com grandes mestres da cozinha como Emílio Locatelli, Isaac Corcias, entre outros.

A primeira coisa a fazer é derrubar o mito de que a cozinha do dia-a-dia é marcada por grandes tempos de preparo, altas temperaturas, etc...Isso podia ser verdade no tempo de nossas mães e avós, quando a indústria alimentícia ainda gatinhava. Hoje, com produtos semi-prontos e ingredientes concentrados, não há mais razão para isso. Além do que, ninguém tem tempo disponível para passar horas e horas na cozinha constantemente.

Tá bom! Também ninguém precisa fazer como aquele personagem de “A Assassina”, que enche um carrinho de supermercado de raviólis em lata. Nem a exuberância de Bridget Fonda seria capaz de segurar uma barbaridade destas.

Todos os chefs de cozinha são unânimes e o bom senso também. Não há a menor possibilidade de se encontrar um bom resultado na cozinha sem os ingredientes certos e de boa qualidade. Cozinheiros são alquimistas, não mágicos.

Isaac Corcias, amigo querido, mestre das paellas, dos assados, da cozinha do improviso, conta que certa vez dois espanhóis se encontraram e um cobrou do outro:

- Aquela receita de paella que você me deu, fracassou retumbantemente.
- Como assim?
- Ficou muito ruim. Ninguém comeu.
- Não é possível. O que será que você fez errado? Usou arroz de primeira.
- Não. Não encontrei, usei uma quirela que comprei no armazém.
- Usou camarões graúdos e descascados?
- Não. Eram muito caros. Usei sete barbas cinza e não tive tempo de tirar as cascas.
- Usou um bom azeite de oliva extra-virgem?
- Não. Preferi usar óleo de soja.

Outro desastre previsível é tentar enganar a pessoa para quem se cozinha. Certa vez, fiquei tremendamente aborrecido numa casa do Dânio Braga, no Rio. Não por nada. Havia pedido um prato de raviólis e recebi um prato de capelettis. Estava até saboroso. Mas, decididamente não era o que eu tinha pedido. Será que ele achou que eu era um imbecil que não sabia a diferença entre as duas pastas? Custava ter me alertado para o fato de que os raviólis haviam acabado?

Certa vez, num dos meus restaurantes prediletos de Brasília, que infelizmente não existe mais, pedi um coelho a Lionesa. Alguma coisa deu errado no preparo. Veio duro como pau, impossível de ser mastigado. Como eu tinha paixão pela chef, fiquei na minha, cutuquei o bichinho e deixei-o de lado.  

Pobre da minha chef querida. Não dormiu naquela noite. No dia seguinte, me ligou preocupada e com desculpas. Convidou-me para uma revanche e aí com garbo preparou um dos melhores coelhos que eu já comi.

O que dá errado na cozinha, na maioria das vezes é um detalhe tolo. Uma bobagem. Certa vez recebi um casal de amigos queridos em casa, a Paula e o Eugênio Bucci. Programei-me para servir arengue suavemente assado e um ratatouille a minha moda. Nossa! Que fiasco. O peixe se desfez em pó. Sobrou só o ratatouille. Até hoje estou devendo uma revanche para eles. O que aconteceu? Provavelmente a temperatura do forno, sei lá.

Outra coisa. Na cozinha, a máxima do marques de Itararé – de onde não se espera nada é de lá que não vem nada mesmo – não se aplica. As melhores práticas, não raro, vem de onde menos se espera. A melhor fritada de siri que eu comi na minha vida – lembra Deborah? – foi num barracão em Nossa Senhora do Ó, em Pernambuco. O melhor filhote ao tucupi foi num almoço despretensioso em Marajó, quando o prato principal era carne de búfalo e o peixe era a opção. A melhor muqueca de namorado comi na mesa do então governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, no Palácio Anchieta, em um jantar de trabalho com Fernando Haddad. A melhor paella de pato (ressalvada a obra prima do mestre Corcias) comi em um posto de caminhoneiros na Catalunia. A melhor Coda a Vacinara em um restaurante no bairro judeu em Roma.

Uma vez, percorria o Estado de Rondônia, então Território Federal, com meu irmão João Bittar, a bordo de uma caminhonete do INCRA. Quando chegamos em Presidente Médici (naquele tempo a estrada não tinha um metro de pavimentação) eu estava morrendo de fome e decidimos parar em um refeitório (restaurante seria demais) embaixo de uma ponte, onde se lia: Servem-se refeições.

No caso, refeições era um eufemismo. Era mesmo um prato feito com arroz, feijão, bife, batata e salada. Bom repórter, o João enquanto eu lavava as mãos, meteu-se na cozinha e descobriu que a casa de pasto era conduzida por um alemão, ex-engenheiro da Volkswagen, que por alguma razão houvera abandonado tudo e se metido naquele fim-de-mundo.

O proprietário veio trazido pelo João, começamos a conversar enquanto a mulher trazia os pratos já montados da cozinha. Pode parecer insólito, mas enquanto deglutíamos um bife duro como pau, um arroz empapado e uma salada murcha, falávamos sobre as maravilhas da cozinha alemã. Em determinado momento, o alemão ficou colérico, recolheu os pratos que comíamos e falou com aquele sotaque inconfundível:

- Por favor, me dê uma meia hora e parem de comer esta porcaria!

No tempo aprazado, a criatura teutônica voltou com os ingredientes para fazer  um Steak Tartar, preparou na nossa frente, como manda o figurino. Trouxe ainda batatas fritas sequinhas e amarelas e torradas quentes.

Nem o grande Werner Herzog poderia imaginar isso: um Steak Tartar perfeito no coração de Rondônia!

Outra coisa importante. A marca de uma boa cozinha invariavelmente é de quem inspirou as receitas. Certa vez, cheguei a São Paulo tarde da noite, acompanhava o falecido senador Carlos Wilson, então presidente da Infraero, e outras pessoas – tenho impressão que o Lalá também estava – e decidimos fazer uma refeição rápida no restaurante do hotel. O que não era nenhuma loucura, porque estávamos hospedados no antigo Hotel Cad’oro.

Todos pediram uma canja ou uma salada. Lembrei-me com saudade do mestre Emílio Locatelli que emprestou fama aquela cozinha maravilhosa, uma das melhores, se não a melhor de São Paulo.

Emílio já cozinhava nas panelas do paraíso há uma década. Mas, eu senti a sua presença, como no tempo em que íamos para lá no meio do fechamento da revista Istoé, nas noites de quinta-feira, com outro craque do paladar, mestre Mino Carta. Lembrei-me do carinho e do prazer que ele transpirava ao nos receber, jornalistas famélicos e ansiosos.

Chamei o maitre e perguntei: “Nos tempos do Emílio, ele fazia uma polenta com queijos cremosos, você se lembra?”

- Claro! Respondeu-me o maitre.

- Será que você consegue me repetir aquela combinação?

- Vamos tentar.

Minutos depois enquanto meus amigos alimentavam-se com canjas e saladas, eu degustava uma polenta quente, amarelinha, cujo calor servia para derreter pedaços de queijo brie, gorgonzola e camembert. Não me fiz de rogado e acompanhei isso tudo com um bom San Giovese toscano.

Ah! O Velho Cad’Oro, quem comeu, comeu. Quem não comeu, não come mais. Não é Silvio Lancellotti, meu irmãozinho?

Para terminar vou publicar uma receita campeã, que eu aprendi em Roma com Albino Castro Filho e Isa Freaza, muito anos atrás e que até hoje faz um sucesso danado:


Spaghetti Al Lemone (quatro pessoas)

Ingredientes

1 Limão Siciliano
1 pacote de spaghetti italiano (Di Ceccho é o melhor!)
1 maço de salsa e cebolinha
1 pedaço de 150 gramas de queijo Grana Padano
Sal e pimenta do reino a gosto
Azeite de oliva extra-virgem
Óleo de cozinha neutro (girassol, canola, milho)

Modo de fazer

Fervo dois litros de água em uma panela, coloco uma colher bem cheia de sal e um pouco de óleo de cozinha. Enquanto a água ferve, ralo a casca do limão e reservo e ralo também o Grana Padano em lascas bem generosas ( no ralador mesmo). Espremo o limão com o cuidado de tirar as sementes e coloco em um liquidificador. Lavo a salsa, com o cuidado de cortar os caules, e a cebolinha e também coloco no liquificador. Acrescento 150 ml de azeite de oliva, sal e pimenta a gosto. Bato tudo. Exatos oito minutos de cozimento, com a massa al dente, portanto, escorro o espaghetti e coloco numa travessa. Por favor não lavem o macarrão. Jogo o resultado da batida no liquidificador, acrescente as cascas raladas, mexo bastante e por fim acrescento o Grana Padano. Sirvo com um San Giovese ou Cabernet Savignon.


sábado, 18 de agosto de 2012

A montanha russa da vida



Guernica de Picasso: "Que diabos é essa Guerra Civil Espanhola?"





Numa semana em que se discutiram os indicadores de aprendizado de crianças e jovens brasileiros me assaltaram algumas diferenças e algumas lembranças, que confirmam a minha tese de que a busca do saber tem a ver também com uma questão geracional e ideológica.  Saber para que e por quê?

Tive um professor na gloriosa Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, o genial romancista José Geraldo Vieira, que era surdo como uma porta. Ele tivera a felicidade de, filho de abastada família cafeeira, ser mandado para estudar Medicina em Paris nos anos 30. Ou seja, pegou em cheio a chamada geração perdida.

Claro, ele poderia ter passado seu tempo com meretrizes em Pigalle, ou nas mesas de jogo em Monte Carlo, ou ainda em companhia de playboys europeus, contemplativos e niilistas. Mas, Vieirinha preferiu entender o seu tempo e conviveu com aquela turma toda de malucos e visionários, que está maravilhosamente descrita no filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen.

José Geraldo Vieira se formou médico radiologista em Paris. A exposição ao raio-x  custou-lhe a audição. Mas, ele inscreveria seu nome na história com romances espetaculares. Cito dois que me impressionaram muito: A Túnica e os Dados e Ladeira da Memória.

Vieirinha: mestre e romancista 
As aulas de Vieira eram programadas sempre para as sextas-feiras, no período noturno, das 19 e 30 as 23 e 30. Mesmo assim eram concorridíssimas, salas apinhadas, ninguém nem respirava. Usávamos uma técnica absolutamente insólita. Escrevíamos o tema que queríamos naquela noite no quadro. “Ah! Vocês querem uma aula sobre Malraux” – dizia o velhinho. E tome quatro horas ininterruptas. E assim se seguiram Eisenstein, Buñuel, Hemingway, Jean Renoir e etc...

Duas das lições do Vieirinha, jamais me esquecerei. Em uma ele me cumprimentava por um texto sobre Dolores Ibaburri, La Pasionária, e me dizia: “Ficou muito bom. Mas, faça melhor, faça mais curto”. Em outro ele dizia: a frase perfeita tem sujeito, predicado, complemento e ponto. Nada mais.

Quando cheguei ao Ministério da Educação,  diante de uma equipe de jovens e talentosos profissionais de comunicação, recém aprovados em concurso público, todos eles graduados com brilho, sobretudo na UnB, procurei ensinar que o poder de síntese de um período ou de um acontecimento histórico pode resultar em um único livro ou em uma pintura, ou ainda em uma escultura. Citei como exemplo Guernica, de Pablo Picasso, síntese absoluta da Guerra Civil Espanhola.

Voltei para a minha sala e alguns minutos depois, fui interrompido em meus afazeres por um casal, rigorosamente inconformado, que me questionou: Guernica nós conhecemos, mas o que diabos foi a Guerra Civil Espanhola?

Menos mal que a inquietação aflorou. Mas, nem sempre é assim.

Certa vez, em uma aula na FIAM, tentava ilustrar que não se podia desprezar a capacidade documental do cinema. E conclamava os alunos a assistirem o clássico Uma ponte longe demais, um belíssimo trabalho sobre a arrogância britânica e o desastre da frustrada tentativa de invasão da Holanda, na Segunda Guerra Mundial.

Alguns dias depois, um aluno me procurou  e comentou que havia visto o filme, mas não entendera nada. Como assim? Respondi incrédulo.
              
“Eu não entendi quem brigava com quem, o que os alemães faziam na Holanda. Aliás, não sei dizer quem eram os alemães e quem eram os ingleses”.

No desespero, expliquei que os alemães falavam alemão e os ingleses falavam inglês. E o aluno me respondeu: “Mas, eu vi uma versão dublada”.

A busca do conhecimento tem uma relação clara de causa e efeito. Saber para que? Para poder transformar, para poder entender, para ganhar mais dinheiro e viver mais confortavelmente, para ser reconhecido socialmente, para seduzir, para se afirmar, para justificar uma existência. Mas, a sociedade moderna não entende assim.

Esta sociedade do século XXI é por demais pragmática. Quer apenas a oportunidade e restringe o saber unicamente a etapa de produção que cabe a cada um. Discrimina aqueles que se sobressaem na busca do inusitado, do novo, ou do antigo. Tem horror ao sedentarismo físico, mas não se incomoda com o sedentarismo intelectual. Busca as emoções de uma montanha russa. Mas, não reflete que a vida, a existência, é toda ela uma montanha russa, com altos e baixos, com sucessos e com fracassos, com avanços e com recuos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Esta bobagem tremenda de fazer rankings


Cidadão Kane e Um corpo que cai: quem é melhor? Brincadeira! 




Tenho reiterado que esta mania de comparar e ranquear talentos e aptidões é uma imbecilidade. Por exemplo: quem é o atleta do século XX? Escolha Pelé ou Mohammed Ali. Outro exemplo: qual escritor marcou mais indelevelmente a literatura latino-americana no século passado? Gabriel Garcia Marques ou Jorge Luís Borges?
Recentemente, alguém teve a brilhante ideia de questionar alguns críticos sobre as mais importantes produções cinematográficas em todos os tempos. E, surpresa geral, o campeoníssimo Cidadão Kane de Orson Wells foi desbancado por Um Corpo que Cai de Alfred Hitchcock.
Ai,ai,ai,ai,ai. Podemos presumir que depois de 70 anos consecutivos no topo da lista, o clássico de Wells foi superado pelo drama psicológico-policial de sir Alfred? Que bobagem!
Ainda bem que o genial diretor inglês, cabotino e vaidoso, já foi para o paraíso ou para o inferno. Até porque não considerava O Corpo seu melhor trabalho. Pessoalmente, embora tenha uma reverência a toda a sua produção cinematográfica, o meu preferido é Janela Indiscreta. Quanto a história de Charles Foster Kane, ainda reputo como um dos melhores trabalhos já feitos em celuloide.
Nesta bobagem de listas etc, sempre faz muito sucesso a divulgação dos melhores westerns e dos melhores filmes de guerra, ou ainda das melhores comédias, e assim por diante.
E os absurdos são impressionantes. Pois vejamos: numa lista de dez dos mais marcantes e bem sucedidos cowboys, John Ford teria pelo menos três filmes: No Tempo das Diligências, Rastros de Ódio e O Homem que Matou o Facínora. Sérgio Leone é obrigatório com Era uma vez no Oeste. Não podemos esquecer de Os Sete Magníficos, Da Terra nascem os Bravos, Matar ou Morrer e ainda A Árvore dos Enforcados. Pois bem, como comparar estas verdadeiras obras de arte e eleger uma como a melhor de todas?
No segmento filmes de guerra, dificilmente alguém deixaria de citar o genial e caótico trabalho de Francis Ford Coppola, Apocalipse Now. Coppola usou tudo que tinha direito, quebrou um mundaréu de gente, mas fez um filme irretorquível. Mas, o que dizer de filmes anteriores a Segunda Guerra Mundial, que tinham recursos limitadíssimos. Me refiro a  trabalhos como A Grande Ilusão, de Jean Renoir, Sem Novidade no Front, de Lewis Milestone, ou Anjos do Inferno, de Howard Hughes.
Há ainda as versões dos derrotados como o japonês Yamato ou os alemães Stalingrado e O Barco. Os documentais: Tora!Tora!Tora!, O Mais Longo dos Dias, Uma Ponte Longe Demais ou A Queda. Claro, não posso esquecer o genial trabalho de David Lean, A Ponte do Rio Kwai. Ou o tonitroante Canhões de Navarrone, ou ainda a versão de Kubrick para o Vietnam em Nascido para Matar.
Por favor, fiquem à vontade e podem acrescentar suas preferências pessoais. Mas, dizer que este é melhor que aquele ou ranqueá-los é perder tempo.
Um de meus diretores prediletos, o austríaco Billy Wilder, por exemplo, costuma frequentar as listas dos melhores com dois dos seus mais marcantes trabalhos: Quanto mais quente Melhor (sempre considerada a melhor comédia de todos os tempos) e Crepúsculo dos Deuses. São dois filmes completamente diferentes e absurdamente geniais. Eu ainda acrescentaria A Montanha dos Sete Abutres. Outro gênio, Fritz Lang, está imortalizado por sua obra prima, Metrópolis, mas, seguramente não dá para desprezar sua incursão pelo cinema noir americano no início dos anos 50, com Blue Gardenia, por exemplo.
Voltando ao futebol, dez entre dez apreciadores do esporte bretão, dirão que a melhor seleção brasileira de todos os tempos é a de 1982. Aquela da Espanha. Respeito. Mas, ainda considero a de 1958, a mais efetiva, mais compacta, etc... Avaliação subjetiva? É claro. Como comparar, por exemplo, Falcão com Didi, Zico com Pelé, Toninho Cerezzo com Zito, Garrincha com Eder?
Considero Ulysses, de James Joyce, seguramente um dos maiores livros já escritos em todos os tempos. E de quebra aviso que jamais abri ou folheei um trabalho do Paulo Coelho. Mas, não dá para esquecer de Zola, de Umberto Eco, de Lampedusa, de Fernando Pessoa, de Saramago, de Hemingway e tantos outros.
Mais importante do que ficar fazendo rankings e perder tempo com esta bobagem, talvez valesse mais a pena revisitar todas estas obras. Há muitos Charles Foster Kanes por ai e, seguramente, ainda se tenta mudar tudo para que as coisas continuem do mesmo jeito que sempre foram. Finalmente, sempre surgirá um menino pretensamente melhor que Pelé ou Ali.