![]() |
Beppe Grillo: exemplo maior do cualcunismo italiano |
Qualunquismo é um neologismo italiano que, ao pé da letra, quer dizer que qualquer um serve
para qualquer coisa. Traz consigo a descrença, o desalento, o enfado e, quase
sempre, o desatino. Surgiu em 1948 fruto do movimento dell'uomo qualunque.
Na
Itália dos meus ancestrais o qualunquismo chega a ser uma doença, mesmo antes de se materializar como um comportamento político organizado. Desde jovem
ouço uma anedota que explicita bem este sentimento. É aquela do grupo de velhos
em torno de uma mesa de scoppa que não sabe eleger entre uma canção socialista,
Bandera Rossa, ou uma fascista, Faceta Nera. Então alguém sentencia, “Merda por
merda, toca a Marcia Real”.
O qualunquismo já produziu na Itália barbaridades e insanidades graves como Benito
Mussolini (para quem governar o país era inútil) e seus camisas negras, Silvio
Berlusconi e o gunga-gunga, Cicciolina e agora Beppe Grillo.
Mal
comparando, seria como se no Brasil, Renato Aragão, a quem reverencio como um
grandíssimo artista, postulasse a candidatura à presidência da República.
Foi
o que aconteceu na Itália nas últimas eleições, o que gerou uma crise no singular
parlamentarismo italiano, de tal sorte que o país ficou sem governo por dois
meses e buscou uma solução numa insólita aliança entre direita e esquerda.
Aliança que tem tudo para dar errado, embora qualquer coisa que ocorra naquela
península mediterrânea seja possível.
Apesar
da crise europeia, da fragilidade do euro, da dívida previdenciária, da inércia
na economia, a Itália deu-se ao luxo de dar de ombros à crise do seu governo. E
é aí que o qualunquismo tem sua característica positiva. Aos italianos pouco
importa se seus políticos se matam nas câmaras e seus intelectuais, ou
especialistas para usar jargão brasileiro, queimam seus neurônios para
encontrar um novo modelo. E pouco importa se vai para a direita ou para a
esquerda, para cima ou para baixo.
É
vida que segue. Na rotina do trabalho, de todos os dias, na pasta ou no rizzo
nosso de cada dia. De vez em quando uma coda como secondo. Um pedaço de formaggio
e um copo de San Giovese. O calcio dominicale, a Ferrari, o Giro de Itália.
Esta segurança dos italianos chega a provocar calafrios e desdém em seus
parceiros europeus e incompreensão do resto do mundo.
Esta
postura se deve, sobretudo, ao fato de que primeiro os italianos não se levam a
sério e não levam nada a sério. Opa, nada não. Levam muito a sério o Estado
italiano e algumas conquistas adquiridas nos últimos 150 anos, que poucas
civilizações atingiram. Qualquer tentativa de atentar contra o Estado, une os
italianos do Friulli a Sicilia numa velocidade espantosa. Experimente um
desavisado empresário peninsular, por exemplo, soltar um passaralho em suas
linhas de montagem para ver o que acontece. O trabalho e sobretudo os postos de
trabalho na Itália são mais sagrados que as colinas do Vaticano. O Estado
italiano investe com fúria em defesa dos trabalhadores. Isso é uma certeza.
Sempre
conto uma cena que testemunhei na Piazza Venezia, em Roma, muitos anos atrás, e
que me parece emblemática do espírito italiano. Numa esquina de cinco vias, um
guarda de trânsito sobre um praticável controlava pacientemente o trânsito,
eternamente confuso desde os tempos das bigas. Um motorista inconformado com o
tempo de espera descontava na buzina de seu Lancia, o tempo que aguardava para
sua passagem. E mesmo diante da postura do oficial que lhe pedia paciência,
mantinha a mão sobre este apetrecho tão ruidoso.
A
insistência foi tanta, que o guarda largou sua posição e sentou-se numa mesa do
Café Brasile e pediu um ristretto.
Claro,
todos os motoristas sem a ordem, ainda que precária do guarda, avançaram ao mesmo
tempo, estrangulando completamente a esquina e tornando qualquer passagem
impossível. Seguiu-se violenta discussão entre os condutores, ao mesmo tempo em
que o guarda mexia displicente o seu café e assistia a tudo impávido.
Depois
de alguns minutos de discussão, os motoristas chegaram à conclusão que para
chegar a seus destinos era fundamental que o guarda voltasse ao seu praticável
e decidiram ir em comitiva implorar ao oficial que retomasse sua função.
O
guarda parecia alheio a tudo. Fitava com olhar perdido o pavoroso monumento ao
Estado, construído com o mal gosto dos fascistas, que os romanos chamam de Bolo
de Noiva, ou máquina de escrever. Depois de muita insistência, pediu aos
motoristas que pagassem o café e reassumiu suas funções. Acabou com a confusão e retomou o caos
anterior, como se nada tivesse acontecido.
Só
dá certo mesmo na Itália, com qualunquismo e tudo.
![]() |
Primeiro de maio da Força: eta pelegada danada |
Hoje
é primeiro de maio e acabei de voltar da festa da Força Sindical. Uma pelegada
danada. Até o senador Aécio Neves estava lá. E, a favor dele, preciso registrar
sua honestidade. Disse com todas as letras que o Brasil não pode se dividir
entre capital e trabalho. E que juntos o país deve seguir rumo ao
desenvolvimento. Esqueceu de dizer que quando o partido dele estava no poder
tentaram de todo jeito enterrar a CLT, que hoje completa 70 anos. Também não
disse que esta história de conciliar patrões e trabalhadores só favorece mesmo
os detentores do capital.