sábado, 14 de outubro de 2017

C H U R C H I L L

Churchill: em uma de suas maiores habilidades, como comunicador de rádio


As vezes a omissão de uma informação, ou a análise de um conceito, pode deformar de forma irremediável uma história. Fui ver ontem o filme Churchill de Jonathan Tepliak com roteiro de Alex Tunzelmann. Como ocorreu com Dunkirk, de Christopher Nolan, parece claro que os britânicos pretendem rever alguns episódios militares do século XX, pelo menos cinematograficamente, com a visão do retrovisor da História.

Em Churchill, Tunzelmann mostra a figura do mitológico primeiro ministro britânico como de um homem inseguro, autoritário, rude mesmo. Uma interpretação maiúscula de Brian Cox. Mas comete um pecado irremediável sob o ponto de vista histórico, mas tolerável sob o cinematográfico. Não é novidade para quem se aprofundou no estudo da personalidade de Winston Leonard Spencer Churchill (1874-1965) seus traços de autoritarismo e rudeza. O erro está em atribuir a sua insegurança com relação a Operação Overlord, ou a invasão da Europa, unicamente por conta das lembranças do desastre da batalha de Gallipoli, na Turquia, na Primeira Guerra, da qual o então First Sea Lord foi apontado como um dos responsáveis.

Tunzelmann dá de barato que todo mundo sabe o que ocorreu em Gallipoli. E para quem não é versado sobre as grandes batalhas da Primeira Guerra, fica tudo no ar. Com efeito, a arrogância britânica, associada a um sentimento de subestimação da resistência turca, lançou em 19 de fevereiro de 1915, uma ofensiva que pretendia tomar a Península de Dardanellos e assegurar um corredor marítimo até a Rússia, como forma de manter uma linha de abastecimento. Nada menos do que 480 mil soldados da Entente, a maioria formada por tropas australianas e newzelandesas, mais a marinha britânica, foram lançadas em uma operação suicida. O resultado final, quando a batalha terminou em 9 de janeiro de 1916, foi de 220 mil baixas, 43 mil mortos, dos quais 33.600 apenas entre as tropas da ANZAC ( australianos e newzelandeses). A passagem jamais deixou de estar sob controle dos turcos.

Churchill pagou muito caro por este desastre militar. Perdeu o cargo e foi condenado a um profundo ostracismo político. Mesmo na segunda metade da década de 30, quando ele já antevia a barbárie nazista, o fracasso de Gallipoli era frequentemente jogado na sua cara.
Natural, portanto, que as lembranças desta batalha lhe assomassem a mente, principalmente diante do que se imaginava fosse, e foi, a maior concentração de soldados e recursos da história militar: a invasão da Normandia.

Mas, o temor do fracasso não foi privilégio dele. O general americano Dwight Eisenhower, o supremo comandante aliado, e todo o seu estado-maior, o general De Gaulle e praticamente todos os militares que planejaram a Overlord,  passaram muito mal naquele início de junho de 1944.

Desde 1942, Stalin pressionava ingleses e americanos a estabelecerem um novo front no Oeste, que lhe desse algum desafogo, principalmente depois da heroica vitória dos russos em Stalingrado. As vitórias no Norte da África e a invasão da Itália não eram suficientes. Churchill e Roosevelt temiam que um novo front na França repetisse a carnificina da guerra de trincheiras e postergaram o quanto puderam. Mas, em 44, a invasão da França não só isolaria os alemães que resistiam na Itália, como poderia libertar Paris e colocar os soldados aliados praticamente nas margens do Reno. Passou a valer a pena o risco.

A Overlord concentrou 155 mil soldados (franceses, ingleses e canadenses), 14.200 barcos, 600 navios e milhares de aviões de transporte de tropas para atacar cinco praias (Omaha, Sword, Juno, Gold e Utah). Assim como parecia óbvia para os ingleses, também era óbvio para os alemães que mais dia, menos dia, sabiam que haveria uma invasão pela Normandia.

Churchill era contra. Temia a superioridade tecnológica alemã e a competência dos generais da Wehrmacht. Preferia manter a pressão no Norte da Itália e na Polônia. Naquele verão chuvoso de 44, as condições climáticas pareciam prenunciar o desastre. As águas do Canal da Mancha estavam revoltas, com ondas de até três metros de altura. O vento era inclemente e mudava de direção todo o tempo. Chovia muito e, quando não, descia um enorme nevoeiro.

Com este clima, os generais alemães estavam seguros que a invasão não se daria naqueles dias. Nem Eisenhower seria louco de lançar uma operação militar gigantesca naquelas condições. Subestimaram a capacidade britânica de prever o tempo.

Os oficiais meteorologistas da RAF encontraram uma brecha entre as 4 horas da manhã e a tarde do dia 6 de junho. Era aquele momento, ou então, somente em setembro. Eisenhower bastante inseguro, pediu ao seu imediato, o general Ben Bradley, que fizesse uma simulação de baixas.

Bradley, segundo alguns historiadores, pressionado pelo comandante britânico Bernard Montgomery, teria subestimado alguns fatores para apresentar um número perto de 60%. Ou seja, 93 mil soldados morreriam naquela invasão. Eisenhower considerou tolerável. Churchill foi à loucura. Dada a ordem da invasão, os dois se apavoraram.

Exceção ao desastre americano em Omaha, a invasão foi um sucesso. O número de baixas foi inferior a 10%, a maioria deles americanos e canadenses. A cabeça de ponte se consolidou, Paris foi libertada, e a guerra na Europa terminaria em maio do ano seguinte, dez meses mais tarde.

Animado pelo sucesso da Normandia, Churchill ainda autorizaria Montgomery a realizar a invasão da Holanda, Em 17 de setembro de 44. Um plano singelo, nascido na cabeça doente do marechal inglês, que imaginava uma invasão de paraquedistas ingleses, canadenses e americanos para dominar as pontes holandesas, enquanto tropas blindadas de infantaria se deslocariam até a cidade de Arnhem, ultrapassariam a ponte sobre o Reno, tomariam o Rur, o parque industrial alemão e forçariam um armistício.

Aqui sim, o desastre foi absoluto. A inteligência britânica desprezou a informação de que havia duas divisões panzers comandadas pelo notável general alemão Wilhelm Bittrich, em Arnhem, e nada menos do que 60 mil experientes soldados alemães, veteranos de batalhas, inclusive na frente oriental, que descansavam estrategicamente para enfrentar a invasão da Alemanha.

Foi uma carnificina com mais de 17 mil soldados aliados mortos ou desaparecidos, dos quais 13.226 eram britânicos. Muito mais do que na Normandia. Arnhem nunca caiu.

De volta ao filme, Tepliak tem o mérito de mostrar um Churchill bastante realista. Mas, reitero que não chega a ser novidade a sua insegurança, o seu temperamento forte, obstinado e autoritário. Também não chega a ser novidade as dificuldades de relacionamento que ele tinha com sua esposa, Clementine, magnificamente interpretada por Miranda Richardson. O casamento dos dois embora tenha durado mais de meio século, foi marcado por idas e vindas, um abalo terrível com a morte de uma de suas filhas e um affair seríssimo vivido por Clemie, ainda nos anos 30.


Churchill foi retratado direta ou indiretamente por mais de uma dezena de filmes. O de Tepliak, ainda que restrito a um período muito curto, os primeiros dias de junho de 44, tem o mérito de mostra-lo de forma muito próxima do que se imagina seja a realidade. Ninguém passa incólume por duas guerras mundiais, uma gigantesca depressão econômica, a guerra fria, o turbilhão de novidades da virada do século XIX para o século XX, o período pós vitoriano, a luta pela independência das colônias britânicas, tudo isso, apenas como um galã de cinema. Mesmo para seus críticos, é inegável que Winston Leonard Spencer Churchill é um dos mais importantes personagens do século XX. E isso não é pouco. O filme é obrigatório.      

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A maior aventura humana









Yuri Gagarin no Túmulo de Lênin: ele ainda repousa na Praça Vermelha em Moscou
Minha filha Bianca é quem faz o diagnóstico mais fulminante: “Pai, diz ela, você é um romântico incorrigível”.

Acho que ela tem razão, sobretudo porque sou daqueles patetas que se emocionam com os feitos da humanidade, com a importância de eventos históricos e detesto aquela expressão “é, mas...”

Esta semana fiquei impressionado com um docudrama russo que capturei na Netflix: “Gagarin First in Space”. Produção de 2013, conta de forma muito criativa a espetacular corrida espacial soviética nos anos 50 e faz um perfil básico de três heróis: Yuri Alekseivitch Gagarin, Gherman Titov e Sergei Pavlovich Korolev.

O episódio mais marcante do filme é a reconstrução do pouso de Gagarin, no dia 12 de abril de 1961, em uma fazenda no Cazaquistão. Os engenheiros soviéticos erraram duas vezes a trajetória final e o primeiro cosmonauta da história, que se ejetou sete mil metros acima do solo, pousou de paraquedas em meio a uma plantação de girassóis, para terror dos camponeses.

“Não fujam” – dizia ele. “Sou soviético como vocês”.

Eu era um moleque metido uma barbaridade, mas me lembro até hoje do impacto de nomes como Vostok, Sputinik e os feitos impressionantes de Gagarin e de Gherman Titov, o segundo no espaço.

E, se há uma razão para explicar porque os soviéticos perderam a corrida para a Lua para os americanos, além da impressionante capacidade de investimento de Tio Sam, a morte prematura do engenheiro Sergei Pavlovich Korolev, em 14 de janeiro de 1966, aos 59 anos, pode explicar.

Korolev era o corpo e a alma do programa espacial soviético. No filme ele trava uma discussão com um marechal do exército vermelho, que se mostrava incomodado com o fato de Gagarin ser um filho de um marceneiro, ou carpinteiro, e de uma camponesa. De ter passado boa parte de sua infância em uma área ocupada pelos alemães na Segunda Guerra e de ter uma personalidade refratária a decisões imperativas.

É impressionante a resposta que ele dá: “Camarada, você não acha que já passou da hora de acabarmos com estas bobagens stalinistas¿”

Ucraniano como Sergei Nikita Kruschev, ele experimentou o cárcere nos anos 30, por seis anos, por razões inexplicáveis, como todas, de Stalin. Foi resgatado depois da morte do “Tovarich” e lhe foi confiada a missão quase impossível de colocar um satélite, um cão e um homem no espaço. Ele fez isso.

Confesso que fiquei emocionado com o relato do filme. Sobretudo a reação popular, o regime só divulgou a informação quando Gagarin já orbitava a terra. Melhor foi o diálogo entre dois manifestantes que caminhavam sem destino pelas ruas de Moscou:

“Para onde vamos¿” – perguntou a menina.

“Acompanhar o pouso do nosso cosmonauta” – respondeu o menino.

“Onde será¿”

“Na praça Vermelha, onde mais¿”


Com efeito, Yuri Alekseivitch Gagarin está mesmo repousando na praça Vermelha, no célebre túmulo de Lenin e dos grandes heróis soviéticos. Estranhamente ele foi vítima de um desastre de um MIG-15, no dia 27 de março de 1968. Até hoje as investigações sobre o acidente suscitam dúvidas. O que se diz é que o cosmonauta da paz ficou muito deprimido anos depois do vôo histórico e se tornou um problema para o regime. Mas, aí é o que eu chamo de “É.Mas...” Prefiro lembrar dele como o herói da humanidade, o destemido aviador, humilde e competente.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Os russos


Tenho a satisfação de apresentar para vocês uma crônica maravilhosamente escrita por meu amigo e irmão, Eduardo Carvalho, meu causídico para causas pernambucanas. Sport de coração, apaixonado pelas letras. Divirtam-se. 


Stalingrado inverno de 42: a guerra perdida retomada pelo Exército Vermelho






Eduardo Romero Marques de Carvalho


Rubem Braga coordenou a composição de um belo livro de contos russos traduzidos para o português. Vivia-se a 2ª Grande Guerra, e ele foi ao front. Foi ser correspondente.
A edição “de Ouro” é simples. Uma brochura simpática, baixinha e gordinha, com grandes almas e corações agasalhados em papel jornal. Dentre os tradutores: Machado de Assis, o próprio Braga, José Lins do Rego, Joel Silveira, Aníbal Machado, João Cabral, Vinicius.
Cada qual com a sua Lisavéta, de longos cabelos negros, e diadema, olhar de esperanças, e colo generoso, dançando folk em roda cigana, próximos à fogueira, no frio crepúsculo soviético. Amor, traição, sofrimento. Angústia, vilania, decepção. O devir apontando ao nada.
Passeia-se naquelas folhas, por sentimentos universais, jomardianamente (Ah!- tem-po- ra-is).
Quê tanto fizeram os russos? De onde vêm os seus pecados, em purgatórios sem fim? Lembrei-me do livrinho enquanto descia a Ladeira da Sé, acumulando saudades do Omalá, do Beco da Fome, Picanha do Rato... Tudo, muito calmo. Tudo, muito rápido. Tudo estranhamente calmo e rápido.
“TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO”.
E, lá está a Rússia. Agora, submetida a Putin, à sua democracia-czarista, seu parlamento comportado, a grande imprensa comprometida. “Tal e qual...” Etc. Tudo Isso me trouxe aos ouvidos o canto do assum preto, em sua cega viagem da agonia. O viver de lembranças embaçadas pelo crepúsculo que se adensa. Mais e mais fracionadas, dia a dia, no cansaço de resgatá-las do passado, fazê-las eterno. Presente, ante a absoluta escuridão do futuro. Até que o tudo venha revelar a Verdade do Oco de uma passagem sem valia, mesquinha e cretina. Tudo Isso vai selando a maçaranduba, e se esvaindo, enfim.
Já pelas bandas de cá, experimentamos inaudita sequência das Noites das Panelas Silenciosas, de teflon. Outrora, patrioticamente exasperadas, histriônicas. É, mais uma vez, o tal do Mi-a- mi, OH!!, not mi-a- mi?. Eis a questão!
De longe, ouço “Bope-bepob- bebop. Eu quero ver a confusão”. E recordo de um Ariano Suassuna, mudo e perplexo, porque “...não foi à Disney, não!”. Então...me volta a Razão, trazendo a razão dessas tão enviesadas linhas. No prefácio daquela coletânea, sabendo da Stalingrado destruída, certo de que invasão de Moscou se faria em questão de tempo,

Rubem Braga encerra o seu texto assim: “Quê salva a Rússia?”.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Cosanostra a Fiorentina



Os Medici: o poder da "gente nuova" e a oposição da aristocracia fiorentina


Depois de ver os oito capítulos da primeira temporada da série Medici-Masters of Florence, escrita por Franz Spotnitz e Nicholas Mayer, sai com a absoluta convicção que os autores beberam e beberam muito no clássico de Mário Puzo, O Poderoso Chefão. Alguém dirá que é isso mesmo. Que as diferenças entre Giovanni de Medici (interpretado por Dustin Hoffmann) e Vito Corleone estão relacionadas apenas ao tempo histórico e a forma. Mas, na essência são mesmo idênticas.

Aos fatos. Ao contrário de Veneza, Gênova e Milão onde a aristocracia jamais concedeu qualquer migalha de poder, em Florença, no início do século XIV, abriu-se às margens do Arno uma avenida de oportunidades para a chamada “gente nuova”.

Do que se trata¿ Gente que veio do Interior da Toscana e da Itália, de outros países da Europa, com algum capital e que foram atraídos pela possibilidade inimaginável de produzir e comercializar produtos agrícolas, vinho e azeite principalmente, e tecido.

Foi com uma tecelagem de algodão (italiano) e lã importada da Inglaterra, que Giovanni de Medici iniciou o seu império econômico. Ganhou tanto dinheiro que abriu um banco e aumentou seu poder quando conquistou a conta bancária da Igreja Católica, e passou a suportar todos os depósitos de dízimos e impostos amealhados dos estados papais de toda a Europa.

A série começa com o envenenamento de Giovanni (cicuta líquida aspergida em suas parreiras) e a assunção de Cosimo de Medici, seu primogênito. Um rapaz sonhador, que imaginava ser artista e que queria distância dos negócios do pai, mas se tornou seu sucessor e aprimorou os métodos, digamos políticos, da condução do poder da família. Uma espécie de Michael Corleone.

O final da série, pelo ritmo da narrativa, deixa claro que a segunda temporada vai tratar daquele que elevará Florença a condição de capital do Renascimento, Lorenzo “O Magnifico”, bisneto de Giovanni, filho de Piero, o primogênito de Cosimo. E aí é de se supor que as semelhanças com a família Corleone vão desaparecer.

É curioso constatar que a reação da aristocracia florentina aos Medici, evidentemente graças ao poder político e econômico amealhado, se dissimula por uma oposição ao apoio da família a novas formas de arte. Mais precisamente a escultura do jovem Davi, feita por Donatello, que se pretendia símbolo da nova Florença. Outro ponto de reação é sobre a visão arquitetônica da perspectiva, usada nos desenhos de Bruneleschi, a soldo dos Medici, para construir a cúpula da Basílica de Santa Maria de Fiore.

Qualquer semelhança com os tempos atuais, seguramente não é mera coincidência. A série vale a pena, por seus aspectos históricos, pela curiosa comparação entre os Medici e os Corleone e pela extraordinária interpretação de Richard Madden (Cosimo) e Anabel Sholey (Contessina). Também me chamou a atenção um personagem que claramente não existiu, Marco Bello, uma espécie de Titus Pullus do Renascimento.       

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A praia que existe no coração de cada um


A retirada de Dunquerque: a verdadeira, não a cinematográfica





O  general prussiano Carl von Clausewitz, morto em Breslávia, na Polônia, em 1831, é um personagem obrigatório para quem quer entender a guerra franco-prussiana de 1870 e os dois conflitos mundiais do século XX.

Clausewitz escreveu um livro chamado “Da Guerra” e nele definiu a doutrina da guerra relâmpago, empreendida de forma tão rápida que os inimigos não teriam tempo nem de trocar os pijamas, ou as camisolas.

Foi baseado na doutrina Clausewitz que o general Helmuth von Moltke, o jovem Moltke, convenceu o Kaiser Guilherme II que a Primeira Guerra Mundial estaria resolvida antes do final da primavera de 1914. Não contavam com a resistência do rei Alberto da Bélgica, o que atrasou a invasão da França e quase permitiu que os russos chegassem a Berlim.

Também se esqueceram que a Bélgica era um protetorado inglês e a não concordância dos belgas em permitir que os alemães passassem por seu território para chegar a França era um ato de guerra, o que trouxe a Força Expedicionária Britânica para o conflito. Resultado: a tortura das trincheiras e um embate militar travado que durou quase cinco anos.

Quando Winston Churchill se apresentou para o rei George VI, em maio de 1940, no Palácio de Buckinghan, ele não era nem de longe o tipo de político que a casa real gostaria de lidar. Estava acostumada com a pasmaceira de Neville Chamberlain e os conservadores ainda achavam que havia um certo exagero na análise do belicismo alemão.

Churchill foi cirúrgico. Abriu um mapa e mostrou ao rei que os alemães isolariam cerca de 340 mil soldados britânicos, franceses e belgas numa praia chamada Dunquerque e que depois disso, o arquipélago estaria completamente desprotegido. Até a gagueira do rei parou.

A operação de retirada foi uma das páginas mais dramáticas da segunda guerra. Cálculos otimistas davam conta de tirar 30 ou na melhor das hipóteses 40 mil soldados. Churchill montou um gabinete de coalisão com os trabalhistas, seu vice foi Clement Attlee. Fez um apelo a Nação. Toda e qualquer embarcação, cargueira ou de lazer, deveria se apresentar em Dunquerque.

As condições eram totalmente adversas. O calado da praia era muito pequeno. Destroiers e navios cargueiros não conseguiam se aproximar. Para piorar cerca de 50 mil soldados estavam feridos e tinham dificuldade de locomoção.

No memorável discurso de posse no parlamento inglês, Churchill faz uma forte referência a operação. Lembrou que não se ganham guerras com evacuações. Mas, celebrou o seu sucesso.

Dunquerque, obviamente é uma referência na Segunda Guerra, mas o cinema nunca retratou o episódio. A única vez que vi alguma coisa a respeito, foi numa série documental da BBC. Christopher Nolan está perfeitamente equipado para contar esta história. Mais ainda se mostrar que existe uma praia destas no interior de cada um de nós. Alguns tem o privilégio de ter um comandante como Winston Spencer Churchill, outros não. Esta é a diferença.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

A constante descoberta que se torna sensacional



Anisio Teixeira: um dos pioneiros da Educação Pública no Brasil





Uma das coisas que mais me incomodam no que pode ser definido como modo-de-vida brasileiro é a constante descoberta do óbvio. A constatação de uma verdade que sempre existiu e que de tempos em tempos torna-se sensacional.
Alguns temas brasileiros são tão recorrentes que datam da época do Império. Um exemplo¿ O desequilíbrio regional entre as regiões Sul-Sudeste e Norte-Nordeste. É bem verdade que este tema se tornou mais relevante graças ao brilho e a competência do professor Celso Furtado.
Outro tema tremendo que vira-e-vira está nas mentes e nos corações brasileiros: a educação pública. O professor Célio da Cunha, único historiador da Educação que eu conheço, relata que o debate é secular. Ganhou destaque com o manifesto dos educadores no início dos anos 30. E não faltaram defensores brilhantes desta aspiração nacional. Vou citar apenas um: Anísio Teixeira.
Na mesma linha, o problema crônico da saúde pública. A despeito do país ter contado com o concurso de sanitaristas como Oswaldo Cruz, Emílio Ribas, Emílio Goeldi, entre outros, ainda é difícil as pessoas entenderem que quando o cidadão chega até o hospital é porque a política sanitária fracassou. Este debate data da República Velha.
O que o Brasil gastou de tinta e papel na discussão destes temas ao longo de sua história republicana é uma enormidade. A sociedade brasileira derrama um rio de lágrimas quando se depara com a realidade da absoluta falta de estrutura para o desenvolvimento no Norte-Nordeste. Com o drama dos fluxos migratórios.
Todos os anos aparecem produções cinematográficas ou jornalísticas a denunciar que a educação pública brasileira é ruim. Que os professores são mal pagos, que não há esperança entre os jovens pobres. Que a saúde pública brasileira é um desastre. Hospitais abandonados, postos de saúde superlotados, doentes nos corredores e assim por diante.
Lágrimas e discursos revoltados que duram um, talvez dois dias. Depois disso segue tudo como antes. Salários medíocres para os professores, ações básicas de saúde reduzidas ao mínimo por falta de recursos públicos, soluções milagrosas que advém do voluntarismo de algumas organizações não governamentais e que jamais são absorvidas pelo governo.

O Brasil parece aquele personagem condenado a acordar sempre no mesmo dia. Ou a um paciente de Alzheimer que toda vez que se confronta com a mesma realidade, se assusta com o seu ineditismo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O preço da verdade


Brizola de volta ao Brasil: Lula era agente da OIT




Escrevo ao som do concerto 1 para piano de Chopin, que acredito ser uma das peças musicais mais inspiradas que eu conheço. Um exercício de virtuosismo gigantesco. Mas, é claro que alguém pode dizer que se trata de um peça melosa demais, romântica demais, cheia de arpejos e acordes que remontam um contemplativismo ultrapassado. E, por que diabos, um italiano turrão como eu se embeveceria com o gênio polonês¿

Aprendi ao longo de 45 anos de profissão, 46 agora em maio, que jornalistas nunca são bem-vindos. Se forem, alguma coisa está errada. Não. Não somos donos da verdade. Mas, estamos cheios delas. E, invariavelmente, somos incômodos.

Certa vez, provoquei um desconforto danado porque relatei que dois dirigentes sindicais importantes tratavam de questões fundamentais para o movimento trabalhista e para o país, enquanto sorviam doses de conhaque português. Um Macieira, se não me engano.

Não inventei. Também tomei uma ou outra dose. E, confesso que esta informação não tinha nenhuma importância. Usei apenas para reportar que o ambiente era fraterno.

Ficaram ofendidos.  

Tive mestres extraordinários. Parceiros competentes. Formei mais de uma geração de jornalistas e repórteres. Sempre fui um divisor de água. Muita gente adorava trabalhar comigo, outros odiavam. Recebi muitas críticas pelo meu temperamento, pelo meu jeito de ser. Mas, nunca me acusaram, nem eu acusei, quem quer que seja de estar a serviço disso ou daquilo.

Nos períodos de transição entre um emprego e outro, várias vezes fui prejudicado por ser ideologicamente identificado com um lado da moeda. E outras tantas por ser identificado com o outro lado.

Fui acusado de ser corporativista por defender meus colegas. Sei que alguns deles são maus. Cruéis. Invejosos. Ciumentos. São humanos.

Fico revoltado quando presencio críticas infundadas contra repórteres que apenas estão cumprindo o dever de apurar informações e torna-las públicas. E que não raro são acusados de participar de notáveis conspirações. É cruel.

Conheço muitos repórteres que mesmo diante da constatação de que a informação base da sua reportagem é falsa, fazem vista grossa e aprofundam especulações e conclusões equivocadas. Dá um trabalho danado corrigir depois.

No papel de assessor de comunicação, defini duas verdades que norteiam o meu trabalho: 1) Existem dois tipos de notícias: as verdadeiras e as falsas. 2) No processo de comunicação é fundamental ter conteúdo e verdade. Fora disso, não tem salvação.

Minha vida seria muito mais confortável se a cada notícia desconfortável ou equivocada eu a atribuísse a uma notável conspiração. É muito mais difícil tentar entender o desconforto, ou admitir que o equívoco pode ter sido falha minha ou da assessoria, que não deu a importância devida ao repórter. Errou ao avaliar a sua importância ou subestimou o profissional.

Quando Brizola voltou ao Brasil, no dia 7 de setembro de 1979, eu ouvi ele dizer que Ulysses Guimarães servira aos militares e que Luís Inácio Lula da Silva era um agente da OIT. Ele foi questionado por suas declarações e reiterou-as. Estava embevecido pelo retorno, convencido de que iria mudar o país, entusiasmado pela recepção de seus conterrâneos. Sei lá. Mas, falou o que falou e repetiu.

Um tempo depois negou. E disse que tudo era uma conspiração do general Golbery. Tá legal, como diz o grande Elio Gaspari, é jogo jogado.

Outra coisa que me irrita é a fulanização da notícia. Tal repórter é mau intencionado. Admito que simpatias não são vendidas na rua 25 de março. Podem procurar à vontade. E isso é recíproco. Entrevistei gente que eu não tolerava e assessorei muitos que ou se imaginavam simpáticos e populares ou discriminados. O antídoto a isso é uma fórmula comum: educação, respeito e transparência. Nenhum repórter resiste a isso.

Arrogância, jactância e presunção normalmente acabam mal. Ainda me lembro de um episódio que eu vivi com a minha amiga Leila Suwwan, no MEC. Ela repórter de O Globo queria, e tinha este direito, uma entrevista com o responsável pela logística da primeira prova do Enem, aquela que foi roubada. O personagem em questão era um professor da Universidade Federal do Pará. Quando falei com ele, demonstrou confiança.

- Não quer repassar alguns pontos polêmicos, que ela com certeza vai lhe perguntar¿

- Não é preciso. Ela é apenas uma repórter.

- Professor, o senhor não acha que talvez a sua posição não seja tão sólida como queira transparecer¿

- Não.

Reportei o diálogo ao ministro Fernando Haddad, que me orientou: faça a entrevista na sua sala, fique ao lado dele, se ele está tão seguro, deixe falar.

Foi um dos maiores desastres que eu presenciei. Na terceira pergunta, o tal professor foi acometido de um acesso de tosse tremendo. Recolhido ao banheiro, providencialmente, me cobrou:

- Você não me avisou que as perguntas seriam tão específicas. Esta menina é mal intencionada!

- Como assim¿ Tudo que ela lhe perguntou é rigorosamente procedente. Se você não tem as respostas, a culpa é sua, não dela.

Mas, tem o outro lado também. Assessorava o então prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, em visita a Prefeitura de São Paulo.

- Dr.Macri há um exército de jornalistas que querem ouvi-lo¿

- Nunzio talvez não seja o caso.

- Como assim, o prefeito de uma das maiores capitais do mundo visita seu colega em São Paulo, isso é notícia.

Depois de muita insistência, ele concordou.

Primeira pergunta: “Como que um dirigente do River Plate se tornou prefeito de Buenos Aires e o que isso pode influir na sua gestão¿”

Entrevista nem começou; Macri saiu da sala. Me olhou com aquele olhar do tipo “eu te falei”.

Macri foi presidente do Boca Júniors.

Um ministro que eu assessorei, na verdade, consultei, ainda no Governo Sarney, certa vez me chamou em desespero:

- Tem uma matéria que vai sair no Globo amanhã e você tem que tirar.

- Como assim¿

- A matéria é ruim para o governo, é ruim para mim.

Quando eu me inteirei da reportagem, conclui que o ministro tinha razão. Ia lhe custar o cargo, na melhor das hipóteses.

- Mas, como esta repórter teve acesso a todas estas informações¿ Tem até um ping-pong com você confirmando tudo.

- Pois é. Fui tomar um uísque com ela no Piantella e me animei além da conta.

A matéria saiu. O ministro perdeu o emprego.

Outra notável foi uma manchete também do Globo: Metade dos estudantes estão abaixo da média das notas do Enem. Informação foi confirmada pelo INEP.

Não era uma barriga. Era um ventre inteiro de dinossauro.

Mas, o melhor ainda viria. Uma colega, muito querida, do UOL, me liga:

-Preciso repercutir a manchete do Globo. Quem no INEP pode falar sobre isso¿

- Meu Deus! Preste atenção. Se é uma média aritmética, é evidente que metade tem que estar abaixo e metade tem que estar acima.

- Não é bem assim. Falei com especialistas que me disseram que isso é um absurdo e que a eficiência e a credibilidade do Enem estão abaladas.

Pode parecer absurdo. Mas, tive que convocar uma entrevista coletiva com o Luiz Cláudio, então secretário de Ensino Superior, professor, doutor em Matemática, para dar uma aula sobre médias aritméticas.

No dia seguinte, pelo menos um grande jornal publicou: MEC confirma, metade dos alunos estão abaixo da média do ENEM.

A vida de repórter não é fácil. A de assessor de imprensa também não. Mas, certamente eu não iria querer outra vida. Entre “conspirações” e incompetências ainda confio e muito nos meus colegas. Aprendi e aprendo muito com eles.  


Em tempo, o concerto de Chopin já acabou, estou ouvindo agora o quinteto para clarinete de Mozart, o K.581, chamado Stadler. Uma obra prima.