quarta-feira, 9 de julho de 2014

O desastre do Mineirão ou Mineirazo

Brasil 1 x Alemanha 7: o que estes meninos do Mineirão tem a ver com a gente




Muita tinta e muito papel foram gastos nas ultimas 24 horas para explicar o desastre do Mineirão ontem. Não vou falar sobre isso. Mas, sobre uma questão que provoca meus filhos, mais precisamente minha filha mais nova, e alguns dos meus amigos: por que não me identifico com a seleção brasileira.

Sou apaixonado por futebol. Acompanho com interesse os campeonatos daqui e de fora, principalmente o argentino, o italiano, o inglês e o alemão.

Gosto do futebol jogado, com todas as suas estratégias, com o brilho intenso dos jogadores, com a capacidade de decidir num arroubo. Quando o marketing e este maldito culto as celebridades passaram a ser a tônica, me desencantei.

Certa vez, estava na fila da companhia telefônica, na rua Sete de Abril, para pagar uma conta e percebi que atrás de mim, um senhor negro, muito bem vestido aguardava pacientemente a vez de se apresentar ao guichê e pagar a sua fatura. Era ninguém menos do que o grande Djalma Santos, bi-campeão mundial na Suécia e no Chile, um dos maiores em sua posição em todo o mundo e certamente o maior brasileiro.

Djalma Santos: craque inesquecível na fila do tel.
Quando o reconheci, ele me fitou de forma carinhosa, colocou o indicador nos lábios, movimento que foi suficiente para que eu me aquietasse. Terminada a operação pagamento de conta dedicou com prazer um bom tempo de conversa, enquanto caminhávamos em direção ao ponto de ônibus!

Tenho certeza que histórias como estas existem aos milhões. Mas, hoje são impensáveis. Qualquer cabeça de bagre se acha o máximo, deita a maior marra. Vive a bordo de um carrão, equipado com uma Maria Chuteira malhadíssima e se acha a bala que matou Kennedy.

Pobres coitados! Ganharão o galhardão da mediocridade.

Não há dúvidas que o futebol brasileiro precisa ser repensado. Reestruturado e reorganizado. Diria que este privilégio não é só nosso. Deveria permear o esporte na Argentina, no Uruguai e em toda a América Latina. Nossas seleções não podem ser formadas por jogadores que jogam na Europa, alguns desde a mais tenra
idade, e que não guardam relação nenhuma com a realidade das pessoas normais, terrenas, que vivem por aqui.

Desculpem, mas por mais talento que possua, não da para conviver com o fato de que Neymar receba um cheque mensal de USS 3 milhões por mês. Nem da para Ronaldo Fenomeno ser considerado gênio da raca, comentarista esportivo da principal rede de televisão brasileira. É uma inversão total de valores.

O futebol virou um grande negócio, um cassino, onde interesses econômicos maiores estão em jogo. A bola é meramente um acidente nesta história. E isso não começou no Brasil. Àqueles que não tem memória, lembro que na Espanha, os jogadores brasileiros tinham suas placas de anunciantes preferidas nos estádios para comemorar seus gols. E que daquela seleção, Edinho, Falcão, Batista, Cerezzo, Sócrates e Zico, entre outros, partiram para contratos milionários do futebol italiano. Isso apesar do desastre do Sarriá.

Reverter isso agora parece missão impossível. Mas, não custa tentar. As federações sul-americanas e a Concacaf deveriam organizar uma Copa América competitiva e interessante, a cada dois anos, com eliminatórias e tudo, ainda que tivessem de fazer isso sem os craques milionários da Europa. A Libertadores deveria ser um torneio ainda mais valorizado. O calendário deveria ser igual ao da Europa, com férias em julho e agosto, e temporadas bi-anuais. Os campeonatos regionais e nacional de base deveriam ser mais valorizados, com disputas transparentes e calendários conhecidos.

Ganhar ou perder faz parte deste esporte em que 22 marmanjos correm atrás de uma bola. O duro é perder para eles mesmos.

By the way, não amo odiar, nem odeio amar ninguém. Adoro o futebol bem jogado. Tenho orgulho das minhas paixões. E fico indignado quando tentam manipular meus sentimentos a favor de interesses que desconheço ou que não são os meus, ou das pessoas que estão a minha volta. Não acho que a Giselle Bundchen é a pátria na passarela, nem que o Fernando Meirelles é a nação atrás de uma objetiva.

Em 1982, quando a Itália ganhou de forma brilhante o Mundial da Espanha, a CGIL – Confederazione Generale Internationale del Lavoro – publicou um anúncio muito apropriado, e que me impressionou muito: “Você só se sente nacional quando vê a azurra em campo?”

É para se pensar. Aqueles meninos no Mineirão tem alguma coisa a ver com o cotidiano de milhões de brasileiros que acordam todo dia e que suam a camisa, amarela ou não, para ganhar o seu sustento e o sustento de sua família. Para fazer um pais melhor para seus filhos? Ou são pavões empedernidos que nunca ficaram na fila da telefônica para pagar a conta?

sábado, 5 de julho de 2014

O "Homem Novo" italiano

Matteo Renzi, 39 anos: um sopro de idéias para chacoalhar a velha política








O professor Giorgio Romano, coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal do ABC, publicou notável artigo na Folha de hoje (05.06), em que finalmente se enxerga uma luz alternativa no final do túnel, o que evitaria fazer com que o século XXI repetisse as mesmas tragédias do século XX.

“A crise econômica e seu desdobramento social provocaram resultados eleitorais muito flutuantes nos diversos países europeus. Aumenta a desconfiança em relação aos partidos tradicionais e à política no geral. Parte deste descontentamento é capitalizado por partidos da extrema direita, nacionalistas, ou antissistema. Outra parte, menor, pela esquerda radical”.

Romano acredita, e diz isso no seu texto, que a Itália – sempre ela a inovar para um lado e para o outro – apresenta agora uma nova liderança popular e pró-européia, capaz de higienizar e ventilar o corroído Partido Comunista Italiano, que agora se chama Partido Democrata e absorveu as chamadas forças da esquerda católica.

A novidade se chama Matteo Renzi, ex-prefeito de Florença, de 39 anos, o mais jovem primeiro ministro da história da Itália. Desde a candidatura do professor Romano Prodi, na última década do século XX, a esquerda italiana não se sentia tão viva.

O Partido Democrata sob o comando de Renzi conquistou 40,8% dos votos nas eleições europeias e levou a Itália ao menos absenteísmo de sua história. Nas eleições municipais, das 243 cidades com mais de 15 mil habitantes, que passaram por escrutínio entre os meses de maio e junho, a centro-esquerda avançou de 128 para 167 municipalidades.

O segredo de Matteo Renzi é vender com um estilo informal e descontraído que as coisas podem melhorar para os italianos a partir da retomada dos investimentos públicos. E para se libertar dos grilhões teutônicos do liberalismo exacerbado da primeira ministra Angela Merkel, o italiano defende uma flexibilização do Pacto da Estabilidade. Ou, em bom português, excluir do limite do déficit público de 3% do PIB (limite acordado entre os países da união europeia), todos os investimentos públicos ligados diretamente a geração de renda e emprego, mais os gastos com educação, pesquisa e desenvolvimento.

Epa! O professor Giorgio Romano tem razão. Temos uma novidade aí. Depois da desgraça imposta pelo magnata Sílvio Berlusconi, pelo furacão monetarista que praticamente destruiu a economia dos países europeus, sobretudo os periféricos, este jovem toscano aparece e tem a audácia de propor uma solução inovadora: capaz de manter a unidade europeia e ao mesmo tempo garantir empregos e renda para os trabalhadores de Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Turquia, entre outros países varridos pela hegemonia franco-prussiana.

Quem é Matteo Renzi¿



O atual primeiro ministro italiano tem obsessão pela expressão “rottamatore”, algo como reciclar a sucata ou trocar alguma coisa muito velha por algo mais novo, com o reaproveitamento de alguns pedaços. Tem manifestado insistentemente a necessidade de dar vez a uma nova geração política. E de acabar com o sistema vigente, desacreditado e manchado pela corrupção, pelo imobilismo e pelo fisiologismo.


Renzi fala da Itália, mas poderia estar falando do mundo. Seus traços de juventude e de impetuosidade lembram um pouco Rafael Correa, o presidente do Equador, ou Fernando Haddad, o prefeito de São Paulo. E é claro, como os dois políticos latino-americanos, ele enfrenta o mal humor de parcelas da classe média, o reacionarismo de setores mais conservadores e, sobretudo, dos donos do poder, à esquerda ou à direita, empedernidos defensores do mais descarado “gattopardismo”.



A seu favor, conta é claro, o Partido Democrata e a mobilização dos trabalhadores italianos, encantados com o discurso de mudanças. Farto dos políticos tradicionais e de suas soluções, o mais organizado movimento trabalhista da Europa, enxerga nele a possibilidade de se livrar dos acordos estapafúrdios e as concessões ao liberalismo econômico.

sábado, 28 de junho de 2014

Um tiro que provocou a história



Francisco Ferdinand e Sofia: pouco antes do atentado de Gavrilo Princip



28 de junho de 1914. Cem anos atrás. O mundo experimentava uma paz de convivência rara. Anunciava-se um verão rigoroso. Um lorde inglês deu a volta ao mundo munido apenas de um cartão de visitas. O dia amanheceu cinza em Sarajevo, capital da Bósnia. O príncipe Francisco Ferdinand e sua esposa Sofia, herdeiros do império Áustro-Húngaro assistiram a missa e decidiram  entrar pela cidade de automóvel. Não sabiam que havia um complô para mata-los.

A primeira tentativa fracassou por conta da multidão que estava nas ruas para saudá-los. De repente um estudante sérvio, anarquista, Gavrilo Princip, se surpreende por estar diante dos herdeiros austríacos, ambos sentados no banco de trás do automóvel. Saca a pistola e executa os dois, a sangue frio.

A encrenca foi fenomenal. Chacoalhou um cenário aparentemente monótono, de torpor. Havia uma pendenga entre Belgrado e Viena, os dois regimes queriam estender seus domínios sobre a Bósnia. Mas, era uma disputa quase invisível. Princip tornou-a uma fratura insuportável.

Os Habsburgos passaram a acusar a Sérvia de apoiar os terroristas. Queriam a todo custo uma investigação conjunta da ação dos grupos nacionalistas, com a participação de oficiais austríacos. Os sérvios desmantelaram o grupo que organizara o atentado de Sarajevo, em poucos dias, prenderam todo mundo. Mas, não podiam aceitar a interferência austríaca em assuntos internos. A situação tornou-se insuportável e em 28 de julho, um mês depois, com mobilização de tropas dos dois lados e as fronteiras em temperatura de fervura, a Áustria declarou guerra a Sérvia.

Começou assim a Grande Guerra, ou Primeira Guerra Mundial, que custou a vida de 11 milhões de pessoas. Redesenhou toda a Europa, acabou com boa parte da aristocracia, fez emergir de forma definitiva a burguesia, animou corações nacionalistas e lançou bases sólidas para o que viria a ser a Segunda Guerra Mundial, um massacre ainda maior, que custou mais de 50 milhões de mortes.

O atentado contra Francisco Ferdinand e Sofia teria sido responsável por uma desgraça deste tamanho¿ Improvável.

Uma semana depois da declaração de guerra, cinco depois do atentado, a Alemanha do Kaiser, Guilherme II, no dia 4 de agosto, tomava a estação ferroviária de Luxemburgo e invadia a heroica Bélgica do rei Alberto, a caminho da França.

Apavorado com a possibilidade de arrastar a Inglaterra do seu primo George V, Guilherme ainda tentou conter a invasão da Bélgica, aliada dos britânicos. Não conseguiu. Seria impossível naquela altura voltar atrás na operação militar, que pretendia tomar Paris em 30 dias e depois se dedicar a ocupação da Rússia, de seu outro primo, o tzar Nicolau II.

Na verdade, apesar do cenário de aparente tranquilidade, os militares urdiram os planos da guerra desde, pelo menos 1908. E não foi privilégio dos alemães. Militares franceses, ávidos por uma revanche da guerra franco-prussiana de 1870, quando tomaram uma surra inesquecível, imaginavam uma revanche capaz de resgatar as possessões da Alsácia-Lorena  e de outros territórios cujo domínio era contestado com a Alemanha.   

Os alemães, por sua vez, não se conformavam com o fato de Paris ser o centro do mundo e ser uma república. Tinham inveja da belle-epoque e do laissez-fair francês. Os trilhos das ferrovias que ligavam a Alemanha a Bélgica foram reforçados por anos para suportar o transporte de tropas e de cavalos. Pontos de abastecimento foram implantados por anos. Ninguém viu.

Claro. Antes que me puxem a orelha. Havia a questão econômica, a posse de colônias na África, o Canal de Suez, a ansiedade italiana por territórios que considerava nacionais no Veneto e sobretudo na Francônia e no Friulli e a mobilização operária russa.

Militarmente tudo saiu às avessas. Os alemães demoraram mais de um mês para passar pela Bélgica. Os russos praticamente chegaram a fronteira Leste do Império Alemão. A indústria austríaca não deu conta das demandas de seus temíveis canhões. Resultado: a guerra se entrincheirou numa linha que começava no litoral belga e ia até a Suíça. Em outra já dentro da Rússia que atravessava o centro da Europa e ia até a Turquia.

A mortandade se deu em uma guerra de buracos. As mais famosas batalhas são a do rio Somme, de Verdum (um milhão de baixas entre alemães e franceses) e a de Tannenberg, onde russos e alemães se mataram a rodo por duas vezes. Isso para não falar da célebre mancada britânica em Galípoli, que quase custou a carreira de um jovem político britânico chamado Winston Spencer Churchill. A Grande Guerra foi também a última das guerras românticas, onde imperava um certo cavalheirismo. Algo assim: “O senhor me dá licença, mas eu vou mata-lo”.

O cinema tem trabalhos memoráveis sobre a Grande Guerra. Apenas para citar os que eu mais gosto: A Grande Ilusão, de Jean Renoir; Sem Novidade no Front, romance genial de Erique Maria Remarque, dirigido por Lewis Millestone; Glória feita de Sangue, genial, absurdo, de Stanley Kubrick e Anjos do Inferno, de Howard Hughes (uma obra prima incomparável). Isso para não falar no romance Adeus as Armas, de Ernie Papa Hemingway, que ganhou várias versões para  o cinema, todas abominadas pelo autor.

Periférico, o combate contra os otomanos no Oriente Médio projetou o estranho oficial britânico Thomas Lawrence. O filme de David Lean, entretanto, é magistral: Lawrence da Arábia.


É. Hoje é um dia de reflexão. Como seria possível o mundo se conflagrar a partir de um estudante anarquista que cometeu um assassinato na bela Sarajevo. Por que os militares queriam tanto esta guerra inútil¿ E principalmente porque um bando de generais e marechais nacionalistas tramaram dos dois lados para matar e aleijar uma geração inteira.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A sinfonia reacionária de Saint-Saëns


Camille Saint-Saëns: admirador confesso de Franz Liszt



Gioacchino Rossini, o grande mestre do bel-canto italiano, perguntado disse certa vez: “Existem apenas dois tipos de música, a boa e a má”. Definição simplista, sem dúvida, e que nos dias de hoje levaria uma centena de críticos musicais à loucura. Afinal, sem adjetivos possíveis o que mais se poderia escrever?

Lembrei-me desta definição por conta de um comentário que ouvi na Rádio Cultura, momentos antes da transmissão da 3ª. Sinfonia de Camille Saint-Saëns, executada pela OSESP. Um atilado e sempre competente comentarista referiu-se ao compositor francês como um apaixonado por Liszt, mas que especificamente nesta peça tinha composto uma sinfonia conservadora, reacionária mesmo.

Que diabos significa uma sinfonia reacionária?

A terceira de Saint-Saëns chamada “Órgão” porque abusa dos efeitos deste instrumento no terceiro movimento é a chamada sinfonia cavalo de batalha para regentes. Não há quem não se emocione com a sua execução, com os temas bastante repetidos com uma orquestração peculiar e o ritmo bem marcante.  

Não consta que Saint-Saëns fosse um reacionário. Mas, ainda que fôsse, como definir a interferência do seu pensamento na sua produção musical. Bem, talvez o reacionário seja eu, vai saber?

Mas, fico me perguntando: alguém consegue ver um homem solitário, de convivência insuportável, invariavelmente alcoolizado, quando ouve as sinfonias de Beethoven? Sim, porque embora genial, talvez o maior de todos, o gênio de Bonn era assim mesmo. Dá para perceber o virtuosismo em Paganini ou em Liszt, mas será que dá para perceber que o italiano era depressivo e o húngaro um conquistador contumaz, que alimentava o ego arrebentando corações aristocráticos da Europa?

Insuportável por insuportável, ninguém tolerava o gênio de Richard Wagner, genioso e genial, de trato difícil, com um ego que faria o deus Wotan ruborizar. Pior, há quem associe a sua música genial ao nacional socialismo alemão. Até bem pouco tempo, não sei se ainda vigora, o maestro Zubin Mehta lutou muito contra isso, era proibido à Filarmônica de Israel executar qualquer acorde wagneriano.

O que dizer da timidez/insegurança de Bruckner ou do conservadorismo de Brahms.

Admito que a personalidade dos compositores também fica impressa no pentagrama. Mas, daí a considerar uma sinfonia reacionária. De duas uma, ou o comentarista se excedeu no adjetivo ou eu faltei a alguma aula. Como um som pode ser reacionário?


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Eis a explicação (ou quase) de por que os Teatros de Ópera mais importantes do mundo já não estão na Itália


 Alla Scala de Milano:  apesar de tudo referência no mundo da ópera 


Gianluca Floris Posted on 31/05/2014


O Scala de Milão é um grande ponto de referência ainda hoje em todo o mundo, assim como são outras de nossas prestigiosas instituições operísticas, mas, infelizmente, o panorama nacional vive um momento histórico, de verdade, dramático, por causa de dificuldades econômicas de vários anos que atingiu todo o setor, reduzido praticamente à míngua.

Do mesmo modo devemos dizer (porque é verdade) que, tanto os teatros de Ópera italianos e muitos festivais, realizam muitas vezes grandíssimas produções com grandíssimos interpretes e nos seus cartazes podemos admirar operações corajosas e de grande significado e valor cultural. Os teatros italianos de Ópera são ainda – no meu modesto parecer – um exemplo no mundo de como um espetáculo de alto nível pode nascer só onde, para além da qualidade artística, cenográfica, vocal e musical, é possível aliar também a habilidade e técnica de nossos artesãos, designers, técnicos, contra-regras, maquiadores, cabeleleiros e estampadores. O lugar no mundo com o mais alto nível dessas especializações é ainda – apesar de tudo – a Itália, o país da Ópera.

Permanece, porém, o triste fato de que hoje os maiores artistas de fama mundial não tenham mais como referência os teatros italianos como ponto máximo da carreira. Teatros de outras nações ocuparam o lugar, como, entre outras cidades, Berlim, Paris, Bruxelas, Londres, Munique, Lion, Nova York, Seattle, Oslo, Copenhague, Buenos Aires, São Paulo, Pequim, Shanghai, Cantão, Tóquio, Osaka e Seul.

Como foi possível que em tão poucos anos a Itália tenha perdido o seu appeal, o apelo, no mundo da Ópera Lírica? Uma resposta superficial poderia ser que, afinal, muitíssimas instituições líricas italianas mal conseguem pagar os artistas e fornecedores e que, portanto, um grande artista com a carreira ascendente prefira planejar as suas temporadas em teatros que possuem menos problemas econômicos. É verdade, mas não é uma resposta completa.

A verdade é que os teatros de ópera vivem em bom estado de saúde nas cidades que são um farol econômico de inovações e, portanto, de relevância política e ponto de referência cultural. Foi sempre assim e continuará a ser assim. A atividade de um teatro de Ópera envolve uma parte sempre muito importante do mundo do trabalho e de inovações do território onde se encontra. Por isso, na Itália, os maiores teatros de ópera surgiram nas cidades de referência econômica e política de várias épocas, como, por exemplo, Roma, Milão, Palermo, Nápoles, Trieste e Veneza.

Podemos dizer que os teatros de Ópera são um dos indicadores do nível de importância de uma cidade ou de um dado território. A existência de um importante Teatro de Ópera é sinal de que a cidade é uma referência cultural. Se o Teatro de uma cidade é uma referência cultural mundial é porque a cidade deve ser uma referência cultural no mundo.

Nas novas cidades chinesas são construídos teatros de Ópera e, por seu turno, há sempre uma companhia italiana em temporada na área do Oceano Pacífico asiático em vários períodos do ano. A decadência da Argentina correspondeu ao período de maior penumbra do seu Teatro Colon, que, ao ressurgir, voltou a ser uma instituição de maior relevo internacional. Para não falar do Teatro Municipal de São Paulo, do Brasil, que recentemente tornou-se um dos mais brilhantes palcos do mundo, atraindo artistas entre os mais aclamados da cena internacional.


Davi Marcondes e Luisa Francesconi: brasileiros em Carmem em São Paulo

















Eis porque na Noruega, com o crescimento econômico devido ao petróleo, a Norske Opera de Oslo se tornou um dos teatros de nível internacional. Eis porque o Metropolitan de Nova York, apesar de ser um dos teatros mais preocupados com a contenção de custos (dos cachês às despesas com guarda-roupas), continua a ser uma referência internacional, pois está localizado na cidade onde ainda hoje se encontra a mais importante bolsa de valores do mundo. E na qual também está Wall Street, o distrito econômico-financeiro que continua a definir as tendências das finanças planetárias e de todas as outras bolsas. Eis porque, muito além de Londres e Berlim, existe ainda uma quantidade impressionante de teatros de Ópera que são importantes no mundo. Como a Ópera de Baku (capital do Azerbaidjão), Tbilisi (capital da caucasiana Geórgia), Astana (capital do Casaquistão), Pequim, Shanghai, Cantão, Seul e centenas de outros teatros líricos estão a surgir em outros países.

Uma nação e uma cidade são importantes - e possuem mais relevância mundial - quanto mais conseguem se tornar um lugar de oportunidade, um destino para pessoas que desejam construir um futuro. Quanto mais conseguem, portanto, valorizar os recursos locais e atrair outros do exterior, enfim, quanto mais unem idéias e energias.

O Teatro de Ópera é um pouco o resumo das energias de um território e de como a comunidade local se organiza e o valoriza. Não é por acaso que em todas as partes do mundo os teatros de Ópera estejam nos bairros centrais da cidade. É porque o centro econômico e dirigente é sempre o grande marco local. O Teatro de Ópera é o lugar que atrai certa classe social e onde as relações podem criar ocasiões e oportunidades.

Acredito que a Itália nestes últimos vinte anos tenha atravessado um período de depressão econômica (e, portanto, política), e que isto tenha refletido (como sempre acontece) também na importância dos seus teatros de Ópera. O persistente comportamento míope dos italianos com relação a toda a Cultura decretou a falência de nossas fábricas de criatividade. Porque os teatros de Ópera são os lugares nos quais nascem os novos cenógrafos, estilistas, técnicos e artesãos, e em torno dos quais se coloca em cena o espetáculo mais caro do mundo. Mas uma nação em queda vertical, do ponto de vista social, político e econômico, desmorona demonstrando não conseguir valorizar os seus recursos e os bens mais preciosos.

Eis porque então um jovem cantor ou musicista acabe por não enxergar na Itália uma terra de oportunidade para o seu futuro. Eis que (só em Itália) até agora os teatros de Ópera façam planejamentos de programação por apenas seis meses, enquanto em todas demais casas de ópera do mundo a elaboração acontece para os próximos cinco anos, causando appeal, apelo, e competitividade. Eis porque na Itália os teatros fizeram frente à crise procurando utilizar os gastos com os trabalhadores estáveis, mas postergando por anos os pagamentos de artistas e fornecedores. Eis que estes artistas e fornecedores buscam e aceitam contratos em outros lugares de gestões mais “normais” e eis que os nossos teatros se esvaziaram dos nomes mais prestigiosos. Eis que as referências culturais do setor que representa o patrimônio italiano mais conhecido no mundo, acabaram por se tornar o Teatro de Ópera de outros países, que não são a Itália.

Eis que iniciar a reconstruir e apoiar este patrimônio italiano tão importante, será o indicador da vontade e da capacidade de reconstruir e de apoiar todo o nosso país. As duas coisas se sustentam. Mas, seguramente, sem um país que volte a dialogar com o mundo, não será possível haver teatros de Ópera de relevo mundial.

A coisa mais extraordinária seria que todos que vivem do teatro passassem a se empenhar no renascimento da Ópera. Dos construtores de cenários aos contra-regras. Dos maquiadores aos mestres do palco. Todos devem estar prontos a contribuir para o renascimento da Ópera. E seria um belíssimo sinal de orgulho de nosso País, finalmente, demonstrar ser capaz de valorizar as suas jóias. Um sinal para nós cidadãos, mas também e, sobretudo, para o mundo inteiro.

Todo o mundo conhece ainda hoje o nome de Pavarotti, apesar de não estar mais entre nós, porém, ninguém sabe, por exemplo, quem é Carlo Conti (e não me refiro ao apresentador de televisão). No dia em que a Itália demonstrar saber investir no seu patrimônio cultural, apreciado no mundo, mais do que gasta para o entretenimento televisivo “intra muros”, será um sinal belíssimo para todos nós, para os nossos filhos, para todo o mundo.

“A Itália está despertando”, poderá se afirmar.

Não estamos esperando outra coisa, não estão esperando outra coisa.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

No final da Copa, Mahler em dose dupla




O vigor de Dudamel, o detalhismo de Neschling:
duas sinfonias de Mahler na cidade, no mesmo dia


Bom! Copa é Copa. No Brasil então. Protestos à parte será uma pachecada insuportável. Mas, nem tudo serão trevas. Como São Paulo vive um momento especial, com reconhecimento internacional pela produção de óperas e música de concerto, a cidade vai celebrar o início de julho com dois espetáculos impressionantes: Domingo e segunda 6 e 7 de julho, John Neschling sobe ao podium do Municipal para reger nada menos que a 3ª. Sinfonia de Gustav Mahler.

Na mesma segunda dia 7, em concerto da Cultura Artística, na sala São Paulo, Gustavo Dudamel rege a Orquestra Simon Bolivar e apresenta a 9ª. Sinfonia do mesmo Gustav Mahler.

Que extraordinário! Dois dos mais importantes regentes do mundo apresentando-se em São Paulo praticamente no mesmo dia e regendo Mahler!

Uma palavrinha sobre este extraordinário compositor boêmio, que aliás na segunda dia 7 de julho completaria 154 anos. Sobre suas origens: era judeu de nascimento, convertido ao catolicismo por conveniência. Só depois disso, aos 37 anos, foi nomeado kappellmeister da ópera da Corte de Viena em 1897.

Antes testemunhou o apogeu wagneriano, foi amigo do ultra-tímido Anton Bruckner e era visto frequentemente com Johannes Brahms. Estudante pobre, conforme o figurino do século XIX, lecionava para sobreviver e era apontado como um virtuosi do piano.

Surpreendeu a todos e dedicou-se à regência. Em 1891, como titular do Teatro Municipal de Hamburgo, cunhou fama de perfeccionista e de protagonizar ensaios enormes. Mais tarde, em Viena, levava os músicos à loucura. Costumava dizer: “No plano humano faço todas as concessões; no plano artístico, nenhuma”.

Este tipo de personalidade gerou composições complexas, que exigem sobremaneira tanto dos músicos, como e principalmente dos regentes. Embora não pareça, nada em Mahler é singelo ou simples. Pode ser um solo de clarinete ou um acorde de trompas. Com um agravante, desde sua primeira sinfonia (a mais executada) até a nona (a última completa, a 10ª. é inacabada) o grau de dificuldade é o mesmo. Exige um fraseado espetacular, um manejo sinfônico delicadíssimo. Qualquer equívoco gera um desastre.

A terceira e a nona são, entretanto, na minha opinião as mais complexas. Alguns regentes como, por exemplo, Lígia Amadio que hoje brilha no pódio da Filarmônica de Bogotá, apontam a quinta como a mais perfeita. Bruno Walter, apontado como seu melhor intérprete, e seu assistente em Hamburgo, foi um dos primeiros maestros a insistir em apresentá-lo publicamente, gravou pela Columbia, a 1,2,4,5 e 9.  Além é claro do mais estonteante gravação do ciclo de canções Das Lied von der Erde (A Canção da Terra), com a contralto britânica Kathleen Ferrier e a Filarmônica de Viena.

A dificuldade na execução das obras de Mahler sempre afugentou os regentes. Lembro-me de ter ouvido uma composição sua, pela primeira vez, no Theatro Municipal de São Paulo. O regente era Simon Blech, a cantora era a contralto americana Louisse Parker. E isso foi no final dos anos 60. A peça: o ciclo de canções Kindertodlieder.

Nos anos 70, o palco do Municipal ofereceu a pré-estréia paulistana da 9ª. Sinfonia. E foi mesmo um concerto de arromba. Nada menos que a Concertgebouw de Amsterdam, com o britânico Bernard Haitink no pódio. 

A primeira gravação de Mahler que eu conheci era um disco obscuro, mas uma interpretação interessante da primeira sinfonia, com Erich Leinsdorf e a Sinfônica de Boston.

Mas, aí veio o filme Morte em Veneza, de Lucchino Visconti, de 1971, uma genial adaptação do livro homônimo de Thomas Mann. O diretor italiano preferiu transformar o personagem Gustav Aschenbach em um maestro, com alguns elementos da biografia de Mahler. E, ainda usou o adágio da quinta sinfonia e o lead da terceira como base da trilha sonora.

O Aschenbach de Visconti não tem nada a ver com o verdadeiro Gustav Mahler. Mas, a associação e o sucesso da trilha sonora formaram um binômio insuportável. Haitink, Bernstein, Boulez, Solti e uma penca de outros regentes instados por suas gravadoras passaram a registrar a íntegra das sinfonias.

Mahler virou febre. Mas, nem tanto. A terceira e a oitava eram consideradas impossíveis de serem executadas em salas de concerto. Uma tem mais de 80 minutos de música, pede uma contralto ou meio soprano, coro a quatro vozes e coro infantil. A outra chamada de Sinfonia dos Mil Interpretes, dividida em duas partes, o coro Veni Creator Spirito e depois a segunda parte do Fausto de Goethe. Nada menos que oito solistas, quatro coros, orquestra com 200 integrantes. Uma loucura!

Tenho algumas idiossincrasias musicais com Mahler. Por exemplo, desconheço melhor interpretação da terceira do que a registrada pelo maestro russo Jascha Horenstein com a Filarmônica de Londres. A suavidade da quarta para mim tem na leitura de Willem Mengelbert e a Concertgebouw a melhor performance. A nona é de Bruno Walter, seus contrastes e seu detalhismo.

É claro que uma gravação é sempre uma gravação. Ao vivo ali, no pódio, dentro do ambiente sagrado da sala de concerto, a experiência é outra. Dudamel com seus rompantes e a forma grandiosa com que lê todas as partituras, certamente vai se dar muito bem, ainda mais com uma orquestra que ele domina, diria que hipnotiza, totalmente.

Quanto a John Neschling, um regente mais maduro e experiente, a terceira representa um exercício para o seu detalhismo e pela forma brilhante com que fraseia as partituras que rege. Quanto a Sinfônica Municipal de São Paulo está atingindo um nível de excelência e personalidade impressionantes.

Será um banho de música! Um atestado claro que a cidade de São Paulo está definitivamente inserida no rol das metrópoles mundiais que mais produzem música e música de qualidade. Nos dias 19 e 20 de julho, depois da Copa, o violoncelista Mário Brunello vai executar com o maestro Alexander Sladkovsky o Concerto para Violoncelo em Si Menor de Antonin Dvorak. Depois Neschling arrebenta a boca do balão de novo e exige da Sinfônica Municipal nada menos que o poema sinfônico Assim Falava Zarathustra, de Richard Strauss. No dia 27, a Orquestra Experimental de Repertório, com Carlos Moreno e o violinista Daniel Guedes apresentam o Concerto para Violino em Ré Menor, de Jean Sibelius.

Em agosto, Neschling e a Sinfônica voltam para o fosso do teatro para apresentar a Salomé, de Richard Strauss.


É bom correr para as bilheterias. Ultimamente uma singela galeria do teatro é mais disputada que um ingresso no Itaquerão.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O poder popular da Carmem de Bizet


Carmem de Bizet, final do primeiro ato: Rinat Sharan e Thiago Arancam



Mesmo quem torce o nariz para as habaneras, seguidillas e barcarolas da Carmem, concorda num ponto: Georges Bizet era um baita compositor, daqueles privilegiados e inspirados capaz de tornar o novo habitual e imperceptível e o comum, extraordinário.

Mesmo nesta tão popular história da cigana malvada, há momentos que merecem a contemplação de quem trata os ouvidos com algum carinho. Veja-se, por exemplo, o quinteto do segundo ato. Leveza, sinfonismo e originalidade. Ou ainda as duas árias da Micaela no primeiro e no terceiro ato. E, é claro, o dueto final cheio de referências musicais, marcado por um revival de motivos.

Carmem, Traviata e o Barbeiro de Sevilha compõem o trio mais popular do mundo lírico. Sempre tem alguém, em alguma parte do mundo, fazendo uma das três. E é claro que o fato de algumas de suas melodias serem facilmente assobiadas não desmerece a genialidade contida.

Bizet se encantou sobremaneira com o romance de Prosper Mérimé sobre um triângulo amoroso envolvendo um soldado, uma cigana e um toureiro. Dois anos antes, em 1873, ele havia amargado críticas pontuais ao libreto de Pescadores de Pérolas, escrito por Eugéne Cormon e Michel Carré. Por isso mesmo, viu com otimismo quando o libreto de Carmem foi encomendado a Henri Meihac e Ludovic Halévy.  Os dois faziam muito sucesso com outro compositor, Jacques Offenbach, o queridinho da Ópera de Paris.

A história de Mérimé foi bastante aliviada e resumiu-se a um militar caipira, uma cigana malvada e sedutora, um toureiro convencido e uma pobre coitada que vai e volta com recados da mãe do soldado e que, surpreendentemente, no terceiro ato aparece num acampamento de contrabandistas em meio às montanhas de Navarra. Descoladinha esta menina!

Aliás, parece que só os aduaneiros e os policiais não sabiam do acampamento dos contrabandistas, porque o toureiro também aparece por lá. Motivado por um amor incontrolável, segundo ele mesmo, que transformaria os perigos eventuais em uma gloriosa aventura.

Rodrigo Esteves: a famosa ária do Toureiro no segundo ato



Bizet salvou a história com a sua música. O coro feminino do primeiro ato, chamado das Cigarreiras, é um exemplo disso. A sensualidade da música encobre o absurdo da cena.

Numa sociedade hipócrita como a parisiense pós-guerra franco-prussiana, a estréia de Carmem fracassou redondamente. Claro que a história incomodou. A cigana proclama a liberdade do seu coração e ainda avisa: se você se apaixonar por mim, problema seu, mas se eu me apaixonar por você, cuide-se.

Bizet ficou profundamente deprimido. Não teve o beneplácito nem do reconhecimento de sua música. Acabou falecendo em junho daquele ano, 1875, aos 37 anos de idade. Em outubro, curiosamente a mesma ópera foi levada em Viena, com a presença de gênios tão opostos como Wagner e Brahms, e unanimemente consagrada.

A força popular da Carmem de Bizet pode ser medida pelo sucesso que está provocando em São Paulo. Nada menos do que 13 mil ingressos vendidos para oito récitas.

O maestro John Neschling trabalha duro para criar no Theatro Municipal de São Paulo um padrão de excelência, voltado, sobretudo, para a ópera. E tem sido muito bem sucedido. Neste ano, ele amealhou um sucesso inimaginável com dois títulos de Verdi, Il Trovatore e Falstaff. E apostou numa montagem de Carmem totalmente inusitada, criada por Fellipo Tonon, que ambientou a ação no final do século XIX e pontuou a influência da revolução industrial.

Não só funcionou, como surpreendeu.

O quarteto do primeiro elenco formado pela mezzo-soprano israelense Rinat Sharan,  pelo tenor brasileiro Thiago Arancam, pelo barítono, também brasileiro, Rodrigo Esteves e pela soprano croata Lana Kos, está irrepreensível. A competência da Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência do maestro espanhol Ramón Tebar, e do Coral Lírico conduzido com maestria por Bruno Facio, garantiram um espetáculo admirável.  


Difícil arrumar um lugar em uma das sete récitas que concluem a apresentação. Melhor se garantir para Salomé, de Richard Strauss, em agosto, ou para a curta temporada de concertos de junho/julho, quando o próprio Neschling volta para o pódio e vai encarar a Terceira de Mahler e o Zarathrusta de Strauss, entre outras peças.