terça-feira, 21 de junho de 2016

Programa obrigatório no final de semana




Zemlinsky no piano com seu aluno de contraponto Schomberg:amigos inseparáveis


Depois do momento Boston Pops, o maestro Neschling e a Orquestra Sinfônica Municipal voltam a mergulhar nos programas mais intensos. Por isso mesmo, o concerto deste final de semana, sábado as 20 e domingo as 17, é imperdível para quem gosta de apreciar música na exata acepção do termo e mergulhar até a alma no existencialismo complexo do início do século XX.

A Sinfonia Lírica de Alexander von Zemlinsky é uma obra prima poucas vezes executada. Trata-se de uma série de sete canções extraídas do livro O Jardineiro, escrito pelo poeta indiano Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura de 1913 e traduzido para o alemão por Hans Heffenberger. Uma soprano e um barítono cantam alternadamente acompanhados por uma gigantesca orquestra sinfônica, com todos os naipes dobrados.

A obra é de uma dificuldade tremenda. Exige absurdamente dos músicos e do regente. São famosos os efeitos de glissando nas cordas e nos trombones. Coisa de maluco!

Zemlinsky, entretanto, não tem nada de maluco. Suas origens compõem um cadinho exótico: seu avo migrou da Hungria para a Áustria e sua mãe era uma austríaca típica. Por outro lado, sua mãe nasceu em Sarajevo, filha de um pai sefardita e de uma mãe bósnia muçulmana. Ao final, todos se converteram ao judaísmo.

Musicalmente ele encantou Johannes Brahms com um trio de clarinetes composto em 1896. Depois tocou na Polyhymnia, uma orquestra criada em 1895 por Arnold Schoenberg. Mais tarde, ensinou contraponto e foi seu único professor formal de música. O que convenhamos é um feito inigualável.
Zemlinsky também foi amigo de Gustav Mahler que regeu a estréia de sua ópera Es war einmal, em 1900. Era apaixonado por Alma Schindler, que, entretanto, viria a se casar com Mahler, em 1902.

A Sinfonia Lírica estreou no dia 4 de junho de 1924 em Praga, sob a direção do compositor. E tornou-se a sua obra, digamos, mais conhecida.

Neschling escolheu a soprano sueca Malin Hartelius e o barítono brasileiro Paulo Szot para a apresentação.

Completam o programa o concerto número 5 para piano de Camille Saint Saens, chamado o Egipcio, com o pianista chileno Gustavo Miranda Bernales. E a Abertura Trágica de Johannes Brahms.

Música! Mas, muita música. 

Ainda há ingressos disponíveis a preços populares.


Vamos exercitar um pouco os ouvidos e a imaginação.  

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Contra o quê estamos lutando?


Morador de rua em São Paulo: situação perene ou precária

Confesso que tenho perdido algum tempo preocupado com a minha sanidade mental. Não é raro eu me confrontar com a perplexidade. Menos ainda entender que eu não tenho capacidade intelectual para “entender os novos tempos”. Nesta semana lidei com várias críticas a política da Prefeitura com moradores de rua.

Pois bem. Foi comum ouvir que os abrigos municipais impõem regras rígidas para abrigar a população de rua. Horários. Hábitos de higiene. Proibição de consumo de bebidas alcóolicas e de drogas. “Os abrigos da prefeitura não atendem as minhas necessidades”, foi o que ouvimos. “Os banheiros são sujos. Tratam-me como se eu fosse um número. Falta carinho”.    

A condição precária da vida destas pessoas evidentemente não justifica que os serviços oferecidos pela Prefeitura sejam desumanos, precários, etc... Mas, em sã consciência, será que uma noite com temperatura abaixo de 10 graus, sensação térmica de três graus, embaixo de um viaduto ou numa praça pública, com ratos, pombos e outros bichanos é melhor que o pior abrigo municipal?

Algumas frases veiculadas pela CBN:

Valderi Israel da Luz: “É. Tem que acordar cedo, a gente vai para lá e às vezes acabam te roubando”.

Morador não identificado: “O banheiro é sujo, as privadas estão muito entupidas. Não tem descarga e o banho é gelado. E também falta um pouco de organização na hora da janta. Alguns moradores de rua furam a fila”.

Pedro Vila Nova: “Os banheiros todos sujos. Os caras fumam maconha lá dentro. Minha droga é cachaça e cigarro”.

Reportagem de Luiz Fernando Toledo publicada no Estadão de hoje:

Claudemir Cassiano: “Sou livre. Não gosto de ter hora para entrar e sair, hora para comer, hora para tudo. Gosto de fazer minhas regras”.

Ana Paula dos Reis: “Não gosto de albergue. Eu me sinto mais em casa na rua. Já conheço as pessoas e posso usar droga à vontade”.

Reportagem da Folha (Agora) sobre sete mulheres que vivem em comunidade embaixo de um viaduto na Zona Sul:

Ângela dos Santos: “Os abrigos são sujos e somos tratados como animais. Temos que sair de lá as cinco horas (não é verdade!)”.  

Sou de um tempo em que as bandeiras da esquerda eram por salário e moradia digna. E que a população de rua, ou aquela que vivia em acampamentos, ocupações, etc, lutavam para sair desta condição. Não para se perenizar nela.
O PT no poder trabalhou muito para tirar 30 milhões de brasileiros da miséria. Lutou para garantir educação e saúde pública para todos. Trabalhou para o pleno emprego.

A Prefeitura ofereceu na última semana 12 mil vagas em abrigos municipais. Em nenhum destes dias houve falta de oferta. Na noite de quinta para sexta feira 350 vagas ficaram ociosas.

A Guarda Civil Metropolitana não faz rondas noturnas na cidade. Não aborda moradores de rua de noite. Tem ordens para não recolher pertences pessoais, nem nada que possa ser carregado pelos moradores de rua. Entretanto, barracos e abrigos perenes são proibidos.

Contra o quê estamos lutando?

Seis moradores de rua morreram na última semana. Eles fazem parte de uma soma de 12 a 15 que morrem todos os meses na cidade, independente da estação do ano. Pode fazer frio ou calor. Morrem de doenças crônicas hepáticas, de pneumonia, de tuberculose, doenças cardio-vasculares, em sua maioria. O frio agrava este quadro. Sem dúvida. Mas, ninguém morreu por falta de atendimento ou por intervenção da Guarda Civil Metropolitana ou de qualquer funcionário da Prefeitura. O próprio Instituto Médico Legal informou que nenhum dos óbitos se deu por hipotermia.

Querem nos acusar de higienismo porque o prefeito não quer permitir que prosperem acampamentos, ou favelas, na cidade. Ele trabalha duro para garantir moradia digna para a população, inclusive de rua.

Ontem anunciou que vai instalar quatro tendas (as mesmas usadas na campanha contra a dengue) para abrigar e tratar moradores de rua, sobretudo, nas noites frias que ainda virão com o inverno. Institucionalizou um protocolo com a Defensoria Pública definindo o comportamento aceitável dos agentes públicos. O que pode e o que não pode ser apreendido. Ampliou o programa Braços Abertos, praticamente dobrou, para atender a população que quer trabalho e moradia, como forma de lutar contra o vício do crack.

De novo, contra o quê estamos lutando? E pelo quê estamos lutando?



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Um deus no céu e um maestro no podium

Aida, primeira montagem desta gestão: participação de todos os corpos estáveis


Gosto de música desde que me conheço por gente. Aos seis anos debutei no Theatro Municipal numa matiné de Rigoletto. Acho que minhas duas primeiras paixões foram o futebol e os concertos matinais que ocupavam as manhãs dominicais. 
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Não tive a sorte de me dedicar a um instrumento, embora tenha dedilhado um piano e aprendido a ler uma partitura. Desta forma, decidi investir na capacidade de ouvir, de distinguir intérpretes, de analisar execuções. Por conta própria estudei um pouco de regência, história da música, harmonia, solfejo e fraseologia.

Este conhecimento me permitiu, por exemplo, perceber que Milton Nascimento é um compositor complexo. Não é qualquer cantor ou cantora que se aventura nas suas canções. Que Cauby Peixoto era um monstro de um cantor, capaz de transitar tranquilamente entre Conceição e Irving Berlin, ou Cole Porter. Que algumas canções de Chico Buarque, notadamente aquelas compostas para o teatro, tinham a estrutura de um musical, para não dizer de uma ópera.

E, claro! Meu ouvido educado permitiu distinguir a Filarmônica de Viena da Banda da Guarda Civil Metropolitana de Osasco. 

Nada contra nada. Adoro, por exemplo, ouvir um cantor de cantina se esgoelando com o Sole Mio ou com Por una Cabeza. Cansei de ouvir o Champagne per brindare un incontro, na voz do Giovanni Bruno (Ah! Que saudades!).

Na minha juventude frequentei muito o Teatro Lírico de Equipe, que às vezes se apresentava numa garagem com cantores amadores, outras tantas no Teatro Arthur de Azevedo, com high lights de grandes óperas acompanhadas apenas por piano. Era um prazer inenarrável ouvir um mecânico de automóvel se transformar no Conde de Luna, ou a gostosinha do bairro em Mimi.

Guiado por mestres fui levado a conhecer os grandes templos da ópera e das orquestras sinfônicas. Primeiro em gravações e depois, graças a minha profissão e a sorte de ter percorrido as principais cidades do mundo, presencialmente.

Falstaff: montagem criativa de alto nível artístico
Sempre soube que o maestro John Neschling é genial e genioso. E que entre suas maiores qualidades está a capacidade, só conferida aos gigantes mitológicos, de transformar um conjunto musical numa orquestra sinfônica. Não afeito às pachecadas ou aos lances midiáticos, ele é rigoroso ao extremo. Vive da música e para a música e assim construiu uma carreira que o transformou no século XXI em um dos maiores regentes do planeta.

Transformar o Theatro Municipal em uma casa de ópera e, eventualmente, de concertos em padrões internacionais, é uma destas missões que se confia a uma personalidade como Neschling.

Ainda me lembro da execução dos interlúdios orquestrais do Peter Grimes, de Benjamin Britten, nos primeiros concertos, em 2013. Poucos minutos antes da apresentação, o prefeito me questionou porque eu estava tão aflito. Na verdade, suava frio, tinha as mãos constritas, o batimento cardíaco acelerado. Era um divisor de águas. Depois daquela noite, pensava eu, nada mais voltaria a ser como antes. E não foi. 

Começamos a produzir em série: Aida, Falstaff, Il Trovatore, Salomé, Carmem, Tosca, Eugen Oneguin, D.Giovanni, Lohengrin, entre outras.

Fora do poço, a série completa das sinfonias de Mahler. Faltam apenas a 7ª e a 8ª. O Tríptico Romano de Respighi com a Fura del Bauls, As Quatro Últimas Canções de Strauss. Foram três anos de realizações que levaram o casarão de Ramos de Azevedo a figurar entre os maiores teatros do mundo, literalmente.

Sonhar era permitido: D.Carlos, Boris Goudonov, Contos de Hoffmann, Parsifal, Peter Grimes, o Tríptico de Puccini, La Fanciulla del West, Der Freischutz, O Cavaleiro da Rosa. A série integral das sinfonias de Bruckner. O Réquiem de Guerra, de Britten, quem sabe as duas sinfonias de Elgar. Com os corpos estáveis celetizados, o céu era o limite.

Mas, forças estranhas se articularam em uma espantosa velocidade para punir os sonhadores. Apoiados em um modelo jurídico ultrapassado, perpetraram descaradamente um assalto aos recursos do Theatro. Não se sabe ainda ao certo, se 10, 12 ou 15 milhões, em três anos. Mas, se sabe quem são os autores. Estão às portas do cárcere. Pelo menos eu espero.

Na ânsia de se livrar da cadeia e do fato de que foram pegos com a boca na botija, jogaram lama em pessoas honradas, que sonhavam com o melhor para a cidade e que vibravam a cada acorde e a cada ária.

Pior. Reabriram as portas para um debate oportunista. Se agora era a hora de discutir o aprimoramento do modelo jurídico, valendo-se inclusive do bem sucedido da exemplo da OSESP , preferem questionar a via artística. Exatamente o que deu e está dando certo. 

Com base em um democratismo ultrapassado, querem rebaixar tudo a um nível primário e devolver o Theatro à mediocridade de antes. Quem sabe com concertos de funk ou rap, apresentação de corais de igrejas, bandas militares, formaturas e assim por diante.

Nada contra estas atividades. A Prefeitura dispõe de uma dezena de teatros municipais para este fim.

Também não tenho nada contra a formação de conselhos artísticos, de administração ou do que quer que seja, desde que seus membros saibam com o que estão lidando. Um especialista em artes plásticas, não necessariamente entende de Robert Schumann, ou de Claude Debussy. Um carnavalesco não entende de uma montagem de ópera. Um diretor de cinema pode muito bem aprender, mas sua habilidade com uma câmara não é suficiente para que ele entenda de balé.
Adoraria que a nossa orquestra tivesse a maturidade e a experiência da Filarmônica de Viena, que escolhe ela mesma os regentes que a dirigem. Ou a Concertgebown de Amsterdam, cujos músicos participam da sua programação artística. Quem sabe um dia a gente chega lá. Por enquanto, é fundamental termos uma direção autoral, assessorada e fiscalizada. Um deus no céu e um regente no podium.

Neschling: um dos dez maiores regentes em todo o mundo
E este regente tem de ser o melhor. Ter experiência. Formar músicos e cantores. Ser distinguido em todo o mundo. Atrair público de toda a parte. Desenvolver uma programação específica para formar plateias, sem rebaixar o nível artístico. Oferecer o melhor. É o que temos com Neschling.

Deve ser apoiado por uma política de marketing que desenvolva o orgulho da população em ter um teatro de ponta, reconhecido internacionalmente, com história e excelência. Possa angariar apoios financeiros que assegurem sua independência e não onerem o poder público. Foi assim que as maiores orquestras americanas foram criadas. Foi assim que as principais orquestras europeias passaram pelo horror da segunda guerra e ressurgiram.

São Paulo se orgulha muito da sua vida cultural. E tem razão para isso. Pode ser também um dos maiores centros de difusão de música clássica e ópera em todo o planeta. Para isso, basta levar a sério e aprimorar o bem sucedido projeto que está em execução. Os teatros de ópera e de concerto de todo o país foram dizimados pelo voluntarismo de uma meia dúzia de “entendidos”. Não vamos, nós também, cometer este mesmo erro.

sábado, 4 de junho de 2016

Lá se vai o maior atleta do século XX


Na manhã de hoje Alá abriu as portas do paraiso: adivinhem quem ele encontrou lá


Tenho um grande amigo que se pauta tanto por posições politicamente corretas que até a seleção de um singelo picolé é avaliada sobre esta luz. Certa vez, revelava a ele minha paixão por Ernest Hemingway. Dizia a ele que me fascinava o vulcão que habitava o seu interior, a capacidade de unir o repórter ao escritor, a ficção a realidade, o narcisismo e o sentimento de derrota que permeou toda a sua vida e culminou com o suicídio.

Este amigo me olhou com aquele ar superior, próprio de quem tem a posse de um sentimento de verdade e sentenciou: mas este cara era um merda. Ele adorava boxe.

Confesso que fui atingido por um raio. Não só porque nutro pela amigo um sentimento de profundo respeito, mas porque eu também sou apaixonado pelo que chamam, ou chamavam, esporte dos reis.

O que há de tão errado no boxe¿

Hoje pela manhã recebi de outro amigo querido a notícia de que Cassius Marcellus Clay Jr. ou Muhammad Ali deixou este mundo.

Ali é certamente o maior atleta do século. Está em uma galeria onde despontam Pelé, Emil Zatopek, George Babe Ruth, Mark Spitz e Michael Jordan. Especificamente no ring, ele superou mitos como Joe Louis, Rock Marciano, Jack La Motta, entre outros.

Seu estilo era impressionante. Comportava-se como um bailarino. Lutava na ponta dos pés, com a guarda na altura do ventre e não parava um minuto sobre o ringue, circundava o contendor e vez por outro desferia seus potentes jabs, que segundo um estudo da época, equivaliam ao deslocamento de um bloco monolítico de concreto.

Na primeira hesitação do adversário, despejava seu repertório inteiro com uma velocidade espantosa e em segundos colocava-o na lona.

Arrogante, convencido, prepotente. Verdade. Mas, parecia humilde quando conversava sobre o esporte que o consagraria. Certa vez, em São Paulo, no Ginásio do Ibirapuera, apresentou-se numa clínica para uma dezena de lutadores. No embate final enfrentaria o campeão brasileiro dos pesos pesados, um capitão da PM de nome Luís Faustino.

Não era uma luta para valer. Apenas exibição. Faustino estava com capacete protetor e nutria uma enorme admiração por seu contendor. Trocaram jabs. Ali dançava em volta do brasileiro. Até que, sem se controlar, o americano despejou uma série de golpes. Quebrou o braço direito do seu oponente. Ficou mortificado sobre o ringue. Durante décadas sustentou a família do PM.

Fora do ringue, Ali se equiparou aos gigantes Martin Luther King Jr.  e Malcolm X na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Confrontou o governo americano ao recusar convocação para servir na Guerra do Vietnam. Valeu-se da sua condição de deus do esporte para defender o seu povo e a liberdade.


Vai Ali, que Alá o receba no Paraíso.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A culpa foi do Olavo

Coisa de velho né? Bodas de ouro, filhos que se formam, outros que encaminham a vida, amigos que se vão, a respiração ofegante, a emoção incontida e as lágrimas no rosto ao ouvir Puccini, as lembranças de momentos marcantes, de aventuras vividas. Definitivamente não é fácil completar 45 anos de profissão.

Foi no dia 5 de maio de 1971 que eu me apresentei para o trabalho na velha redação do jornal “O Estado de S.Paulo”, na rua Major Quedinho, para ser duble de recepcionista de noticiário e rádio-escuta. No dia anterior, eu estava sentado em um banco (havia bancos naquela época) na praça D.José Gaspar. Experimentava a horrível sensação de um desiludido estudante de Física, diante de um futuro incerto, com dinheiro suficiente para um maço de Hollywood sem filtro e um café coado.

Sob a sombra da imponente biblioteca Mário de Andrade, me apareceu um anjo negro chamado Olavo. Amigo de família, que eu conhecia de vista. Não sabia o que fazia para ganhar a vida. Mas, que transpirava a dignidade daqueles que vivem do trabalho.

Olavo era meio bruxo. Sempre achei isso. Sentou-se ao meu lado com uma atitude terna e me provocou: “O que acontece? Você está triste”.
Debulhei um rosário de lamentações. Nunca entendi porque me abri tanto para alguém que afinal não era tão íntimo. Que eu só conhecia de vista. Mas, foi...

“Você precisa de um emprego. Sabe datilografar?”

Claro.

“Mas, você é bom mesmo numa máquina de escrever?”

Em um minuto eu estava diante do chefe das Comunicações do poderoso Estadão, Alaur Martins. No momento seguinte estava diante de uma máquina de escrever.

Nunca mais sai. As máquinas de escrever tornaram-se peças de museu. E eu também. Acho que o jornalismo mudou muito nestes 45 anos. Alguns dos modelos nos quais eu me inspirei deixaram a lida e foram desta para a melhor: Cláudio e Perseu Abramo, por exemplo. Ramão Gomes Portão, Otávio Pena Branca Ribeiro. Outros saíram da redação: Tão Gomes Pinto (mestre, mentor e amigo), Sílvio Lancellotti (meu irmão querido), Armando Salém. Outros ainda estão na lida: Mino Carta (farol de várias gerações), Clóvis Rossi (parceiro e condutor). A lista é interminável e eu vou parar por aqui.


Vou terminar com a milésima repetição da mensagem que me mandou a amada Anna Muggiati, quando eu sai da revista Manchete, no final de 1997. “Existe um paraíso especial para os jornalistas. É uma redação onde eles trabalham apenas com as pessoas de quem gostam e em quem confiam. Tenho certeza que vou te encontrar no meu paraíso”. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

A Bohème de São Paulo


Portari e Kovalevska: Rodolfo e Mimi apaixonados no segundo ato





Certamente La Bohème é a ópera que mais vezes eu vi nos palcos. Vi em Londres, em Paris, em Milão, em Buenos Aires, em Santiago, em Nova York, em Pádua, em Nápoles, em Veneza e, claro, em São Paulo.

Aliás, embora tenha estreado em solo brasileiro no Teatro da Paz, de Belém, em 1900, quatro anos após a première em Turim, sob a regência de Arturo Toscanini, esta obra prima de Puccini guarda uma estranha e simpática relação com São Paulo, mais precisamente com o seu Theatro Municipal.

Puccini é um gigante capaz de embasbacar um profundo conhecedor ou um completo neófito. Suas árias e duetos são extremamente populares. Principalmente nas óperas mais conhecidas, Manon Lescaut, Tosca, La Boheme e Madame Butterfly. Trata-se de um quarteto capaz de encher os teatros de ópera de todo o mundo, tantas quantas récitas forem montadas.

Há várias formas de se encenar Puccini, desde a mais singela, em forma de música de cantina, até as monumentais interpretações que consagraram cantores e maestros.

La Bohème é quase uma brincadeira. A história de quatro estudantes miseráveis na Paris dos anos 70 do século XIX, que vivem em uma república apertada, e as peripécias de uma professora de canto mais a solidão de uma florista que desenhava rosas e lírios sem perfume.

Rodolfo, o poeta que escreve,  se apaixona pela florista Mimi, sua vizinha que o incomoda em hora imprópria; Marcelo, o pintor, sofre com o poder e a sensualidade de sua amada, Musetta; Coline e Schaunard (o músico e o filósofo) mais se divertem que qualquer outra coisa. Afinal, a comédia é estupenda!
Mas, se o libreto é simples assim, a música de Puccini propõe um desafio tremendo: fazer soar simples, melódico e envolvente. Dois exemplos marcantes de dificuldade, o segundo ato praticamente inteiro e o quarteto do final do terceiro ato. Muita, mas muita música!

Esta La Bohème que o Theatro Municipal de São Paulo apresenta em sete récitas e dois elencos neste início de maio ainda acrescenta algumas novidades extremamente bem-vindas. A concepção cênica de Arnaud Bernard e os figurinos de Carla Ricotti criados para a primeira apresentação em 2013, e que se incorporaram ao repertório definitivo da nossa casa de ópera. Juliana Santos a diretora da remontagem conseguiu ainda dar mais vigor, mais espaço, para um cenário tão criativo.

Os dois elencos por sua vez fizeram duas interpretações completamente diferentes: Cristina Pasaroiu e Ivan Magri  fizeram Mimi e Rodolfo mais introvertidos, mais sérios, enquanto Mihaela Marcu e Mattia Olivieri, como Musetta e Marcelo, se encarregaram de um show não só na interpretação vocal como cênica. Na outra versão, ocorreu exatamente o contrário, Maija Kovalevska fez uma Mimi vigorosa, rara, e Fernando Portari fez um Rodolfo mais engraçado, despreendido e apaixonado; Zheng Zhong Zhou e Anna Maria Sarra, por sua vez, deram tintas mais sofridas aos seus personagens.

O coro lírico e a Orquestra Sinfônica Municipal, em comparação com a récita de 2013, permitiram visualizar de forma escancarada a evolução destes dois corpos estáveis nestes últimos anos. O maestro residente da OSM, o jovem Eduardo Strausser , passeou pela partitura com uma naturalidade impressionante. Sabia que a orquestra atenderia sem esforço a sua condução. O resultado dignifica uma partitura tão rica em harmonias e melodias.


O  maestro John Neschling tem razões de sobra para se orgulhar de seu assistente e, principalmente da orquestra que ele recriou e que nunca, repito, nunca na história de 105 anos do Theatro Municipal atingiu um nível técnico de excelência profissional como agora. 


Eduardo Strausser, maestro residente da OSM: orgulho de Neschling
  

domingo, 6 de março de 2016

O poder da inspiração




Mahler e Richard Strauss no início do século XX: amigos inspirados




Não é raro que alguns filhos e amigos me perguntem: “Então qual é a sua música preferida¿ Qual é a composição musical que você mais gosta de ouvir¿ Qual considera a mais completa, mais marcante para a humanidade¿”

A expectativa é sempre que eu cite uma ópera gigantesca, uma sinfonia de arromba, uma missa tonitroante. Mas, como alguém já disse com propriedade, é nos pequenos detalhes que mora o perigo.

Uma das minhas paixões é o quarteto opus 131 de Beethoven. Acho que o gênio de Bonn, no final da vida teve uma inspiração transcendental. Sobretudo na marca que apôs ao pentagrama: “Atacca!Atacca!”.

Se alguém acha que a Sinfonia número 3, a Eroica, jogou a música no romantismo, com os acordes iniciais que anunciavam um novo tempo. Com este quarteto composto bem no ocaso de sua vida, Beethoven quis dizer assim: “Vocês não viram nada ainda”.

Richard Strauss e Gustav Mahler gravaram o seu nome na história da música, um por óperas espetaculares como Salomé e O Cavaleiro da Rosa, outro por sinfonias magistrais, orquestrações impiedosas. Mas, na hora da onça beber água, foram buscar acordes que ressoavam muito mais no coração do que nos ouvidos. A última canção do ciclo Das Lied von der Erde, de Mahler, quando o velho camponês chinês se despede da vida e do planeta e se entrega a eternidade é algo tão impressionante quanto grandioso na simplicidade. Quem quiser conferir, há várias gravações na internet ou na indústria fonográfica. Experimente a versão de Bruno Walter com a contralto britânica Katleen Ferrer.

Tão marcante quanto, embora com um intervalo temporal de quase quatro décadas, são as Quatro Últimas Canções de Richard Strauss. Três delas com poemas de Herman Hesse e a última com texto de Joseph von Eichendorff. Um vigoroso adeus do maestro e compositor a sua esposa Pauline. Dá para imaginar a emoção da estreia, pouco depois da sua morte.

No dia 22 de maio de 1950, em Londres, o mitológico Wilhelm Furtwangler, regeu a Philarmonia Orchestra tendo como solista ninguém menos que Kirsten Flagstad. Uma bobagem!

A força das Quatro Últimas Canções de Strauss é tão grande, que na semana passada, tocada com maestria pela Orquestra Sinfônica Municipal, resultou num pranto contido de todos os músicos, do maestro John Neschling e da soprano americana Emily Magee. A bem da verdade, a despeito do calor (que eu confesso não senti) o teatro inteiro ficou tomado pela emoção.

Foi uma das tantas noites brilhantes que a cidade tem vivido nos últimos três anos.     

A genialidade pode ser divisada tanto na monumental Missa em Si, de Johann Sebastian Bach, no oratório Messias de Haendel, como numa canção que Erik Satie escreveu para homenagear seu cachorro. Num coral que Verdi regeu na cozinha da fazenda de seu padrinho-sogro, quando ainda rascunhava Nabuco. Na suíte A História de um Soldado, de Igor Stravinsky. Ou no poema Saudades das Selvas Brasileiras, uma joia impressionista que Villa Lobos escreveu em Paris, no início do século XX.

O poder da música não está apenas nos recursos que os compositores usaram para se expressar. Mas, na capacidade dos intérpretes de executarem e dos ouvintes em se disporem a ouvir sem preconceitos. Um Noturno de Chopin executado numa noite chuvosa de sábado, em um conservatório da periferia, pode ser tão emocionante quanto uma execução na Sala Pleyel, em Paris.


A música tem este poder.